
Nem o arteiro Flori, nem o atento dentista nem o mordaz Lulu, nem o silencioso pintor de olhos penetrantes, nem o poeta – que pena – nenhum deles toca-lhe o coração, acendendo a escondida centelha.
Se Lulu lhe dissesse: minha amiga, quero dormir com você, tenho muita vontade e, se não o fizer, sofrerei de mais, Tereza teria ido com ele para a cama como foi tantas vezes com outros para ganhar a vida, indiferente e distante, exercendo um ofício.
Devia ao rábula antigo favor, se ele exigisse provar de seu corpo, ela não se negaria; mais uma penosa obrigação a cumprir.
Se o poeta José Saraiva chegasse com aquele pigarro na garganta, de repente virando tosse convulsa, com aquele silvo no peito e lhe dissesse que só morreria feliz se antes dormisse com ela, da mesma maneira com ele se deitaria. Com o provisionado por grata, em pagamento por dívida; com o poeta por compaixão. Dar-se porém no prazer e na festa não pode fazê-lo, nem sequer simular interesse; impossível. Para ser ela própria pagara preço alto, na moeda forte da desgraça.
Nem o rábula nem o poeta lhe pediu, apenas mostraram-se e aguardaram; os dois a queriam, mas não de esmola ou em pagamento. Quanto aos demais, se pediram – Fori pediu em repetidas ocasiões, gemeu, suplicou – nada obtiveram. Mesmo se fosse para encher de dinheiro, fazer pecúlio, não lhe interessava; tinha ainda um pouco na bolsa e esperava agradar de sambista; por algum tempo ao menos queria ser dona de sua vontade.
Recém-chegada, de quarto alugado com pensão completa em casa da velha Adriana (recomendação de Lulu), recebera proposta de Veneranda, dona do castelo mais elegante e caro de Aracajú. Vistosa figura, no trato e no luxo, nas sedas, nos tacos altos, parecendo madama do sul. Veneranda não aparentava a idade registada na escondida certidão de nascimento. Menina ainda, Tereza ouvira o nome da cafetina na boca do capitão, já naquele tempo ela dominava em Aracaju. Veio em pessoa falar com Tereza, sabedora da chegada da moça certamente por Lulu , freguês habitual, conhecendo, quem sabe?, coisas passadas.
Abrindo o leque, Veneranda sentou-se, com um olhar frio despediu a velha Adriana, curiosa.
- É mais bonita ainda do que me disseram – assim começou a propor.
Descreveu-lhe o rendez-vous: vasto sobrado colonial, discreto entre árvores, em meio de terreno cercado de altos muros, os enormes quartos subdivididos em modernas e íntimas alcovas, no andar térreo sala de espera com vitrola, discos, bebidas e exposição de meninas disponíveis, no primeiro andar a grande sala de frente onde Veneranda recebe políticos e literatos, usineiros e industriais, a sala de jantar, o quintal. Tereza poderia residir no próprio castelo, se preferisse. Ao oferecer-lhe moradia no estabelecimento, dava-lhe prova de muita consideração, pois apenas algumas escolhidas, em geral estrangeiras ou sulistas em temporadas pelo Norte – catado o milho, regressavam ao sul – habitavam no castelo, mas Tereza merecia a excepção. Ou bem podia frequentá-lo à tarde e à noite, nas horas de movimento, servindo a todos sem descriminação desde que pagassem o preço cobrado pela casa, ou tendo fregueses seus, exclusivos e escolhidos. Tratando-se de Tereza, aliás, a esclarecida Veneranda se propunha a lhe estabelecer clientela selecta e de alto gabarito financeiro, de calendário mais ou menos estrito, clientela pouco fatigante e muito lucrativa.
Se for tão competente quanto bonita, ela terá condições de ganhar dinheiro fácil e, não sendo de loucuras, dada a sustentar gigolôs, poderá fazer rico pé-de-meia.
Se Lulu lhe dissesse: minha amiga, quero dormir com você, tenho muita vontade e, se não o fizer, sofrerei de mais, Tereza teria ido com ele para a cama como foi tantas vezes com outros para ganhar a vida, indiferente e distante, exercendo um ofício.
Devia ao rábula antigo favor, se ele exigisse provar de seu corpo, ela não se negaria; mais uma penosa obrigação a cumprir.
Se o poeta José Saraiva chegasse com aquele pigarro na garganta, de repente virando tosse convulsa, com aquele silvo no peito e lhe dissesse que só morreria feliz se antes dormisse com ela, da mesma maneira com ele se deitaria. Com o provisionado por grata, em pagamento por dívida; com o poeta por compaixão. Dar-se porém no prazer e na festa não pode fazê-lo, nem sequer simular interesse; impossível. Para ser ela própria pagara preço alto, na moeda forte da desgraça.
Nem o rábula nem o poeta lhe pediu, apenas mostraram-se e aguardaram; os dois a queriam, mas não de esmola ou em pagamento. Quanto aos demais, se pediram – Fori pediu em repetidas ocasiões, gemeu, suplicou – nada obtiveram. Mesmo se fosse para encher de dinheiro, fazer pecúlio, não lhe interessava; tinha ainda um pouco na bolsa e esperava agradar de sambista; por algum tempo ao menos queria ser dona de sua vontade.
Recém-chegada, de quarto alugado com pensão completa em casa da velha Adriana (recomendação de Lulu), recebera proposta de Veneranda, dona do castelo mais elegante e caro de Aracajú. Vistosa figura, no trato e no luxo, nas sedas, nos tacos altos, parecendo madama do sul. Veneranda não aparentava a idade registada na escondida certidão de nascimento. Menina ainda, Tereza ouvira o nome da cafetina na boca do capitão, já naquele tempo ela dominava em Aracaju. Veio em pessoa falar com Tereza, sabedora da chegada da moça certamente por Lulu , freguês habitual, conhecendo, quem sabe?, coisas passadas.
Abrindo o leque, Veneranda sentou-se, com um olhar frio despediu a velha Adriana, curiosa.
- É mais bonita ainda do que me disseram – assim começou a propor.
Descreveu-lhe o rendez-vous: vasto sobrado colonial, discreto entre árvores, em meio de terreno cercado de altos muros, os enormes quartos subdivididos em modernas e íntimas alcovas, no andar térreo sala de espera com vitrola, discos, bebidas e exposição de meninas disponíveis, no primeiro andar a grande sala de frente onde Veneranda recebe políticos e literatos, usineiros e industriais, a sala de jantar, o quintal. Tereza poderia residir no próprio castelo, se preferisse. Ao oferecer-lhe moradia no estabelecimento, dava-lhe prova de muita consideração, pois apenas algumas escolhidas, em geral estrangeiras ou sulistas em temporadas pelo Norte – catado o milho, regressavam ao sul – habitavam no castelo, mas Tereza merecia a excepção. Ou bem podia frequentá-lo à tarde e à noite, nas horas de movimento, servindo a todos sem descriminação desde que pagassem o preço cobrado pela casa, ou tendo fregueses seus, exclusivos e escolhidos. Tratando-se de Tereza, aliás, a esclarecida Veneranda se propunha a lhe estabelecer clientela selecta e de alto gabarito financeiro, de calendário mais ou menos estrito, clientela pouco fatigante e muito lucrativa.
Se for tão competente quanto bonita, ela terá condições de ganhar dinheiro fácil e, não sendo de loucuras, dada a sustentar gigolôs, poderá fazer rico pé-de-meia.
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