2001 - UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO , DE STANLEY KUBRICK


No século 21, astronautas liderados pelo experiente David Bowman e por Frank Poole são enviados a Júpiter para investigar um enigmático monolito que dá sinais de outra civilização. A bordo da nave Discovery, controlada pelo computador HAL 9000, eles partem, mas uma pane iniciaria uma tentativa de eliminar um a um dentro daquele ambiente. 


"Não acredito numa arte que não tenha um cunho transformador" Transformar o enrredo, transformar o genero e o mais importante transformar o telespectador condensado a um desenvolvimento lógico e certo, um grande passo para a ação de se pensar cinema!

Incrivel, pertubador, arrepiante, sonoro. Uma viagem inesquecivel. Impossivel assistir apenas uma vez. Kubrick, o maior diretor de todos os tempos, produziu nos anos 60 suas duas maiores obras-primas: 2001 e Dr. Fantástico.

‘2001: Uma odisséia no espaço’ completa 40 anos

Clássico do cineasta Stanley Kubrick provoca discussões até hoje.
Na época da estréia, longa sofreu ataques da crítica e teve 19 minutos cortados.


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Keir Dullea interpreta o astronauta Dave Bowman no clássico de Kubrick (Foto: Divulgação)
Em 29 de abril de 1968, o filme “2001: Uma odisséia no espaço” chegava aos cinemas brasileiros e provocava no público daqui o furor que causou um mês antes, em sua estréia nos EUA.

Hoje, 40 anos depois, o longa-metragem de Stanley Kubrick é considerado um clássico, mas ainda gera discussão, seja por sua visão perturbadora do futuro, seja por sua estética e seus efeitos especiais inovadores.

“Se alguém entender o filme da primeira vez, nossas intenções terão falhado”, anunciou no lançamento Artur C. Clarke, co-roteirista e autor da obra original, que morreu no mês passado.

  Elogios e ataques

A declaração de Clarke inflamou a opinião pública e provocou um racha na crítica. Na época, ao contrário do que se possa hoje pensar, “2001” recebeu não apenas elogios, mas também duros ataques.
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Na época, o "New York Times" classificou o filme como "imensamente chato" (Foto: Divulgação)
O jornal “Boston Globe” classificou o longa como “o filme mais extraordinário do mundo”, a revista “New Yorker”, como “um trabalho inesquecível” e a “Time”, como “um épico brilhantemente dirigido”.

Mas, do outro lado, o “New York Times” liderava a patrulha anti-“2001”. “É algo entre o hipnótico e o imensamente chato”, apunhalou a jornalista Renata Adler, do “NYT”, seguida por outros veículos, como a “Variety” e o “New Republic”, que não pouparam críticas à produção de Kubrick. Para eles, “2001” era “pretensioso”, “um fiasco” , “um desastre” e “monumentalmente sem imaginação”.

As críticas contribuíram para que Kubrick lançasse, poucos dias depois, uma nova versão do longa-metragem, com 19 minutos a menos do que a edição original, de 160 minutos.


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O supercomputador HAL 9000: um vilão mais humano a cada nova cena (Foto: Divulgação)
 
Intensamente subjetivo

Mas uma pergunta continua sem resposta: qual era a mensagem que Kubrick e Clarke queriam passar? Em entrevista à revista “Playboy” na época do lançamento, o cineasta rejeitou perguntas sobre o significado do filme: “Você gostaria que Leonardo Da Vinci tivesse escrito abaixo na ‘Monalisa’ ‘esta moça está sorrindo porque ela tem um dente podre’? Eu não quero que isso aconteça com ‘2001’.” Kubrick se limitou a descrever “2001: uma odisséia no espaço” como “uma experiência intensamente subjetiva”.

Na verdade, a odisséia começou em 1965, quando o diretor ainda curtia o sucesso de "Dr. Fantástico" e surgiu a vontade de filmar uma ficção científica sobre vida extra-terrestre. Kubrick, que era um grande fã do gênero, resolveu contactar o escritor veterano Arthur C. Clarke para formar uma parceria. O autor sugeriu a adaptação de um de seus contos, "The sentinel", que tinha cenas na lua.  

A dupla começou a escrever o roteiro e o romance paralelamente, e a combinação era de que ambos assinariam tanto o script quanto o livro. Entretanto, Kubrick acabou ficando sem crédito pelo romance. Há boatos de que o cineasta teria feito uma troca com Clarke: abriria mão de sua assinatura no livro se o filme tivesse prioridade de lançamento.

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Cena da primeira parte de "2001", que mostra as origens da humanidade (Foto: Divulgação)
 Um épico em três partes
Com uma trilha sonora clássica marcante, o diretor dividiu o filme em três partes. A primeira mostra as origens da humanidade, com primatas prehistóricos lutando pela sobrevivência. Em um dos momentos brilhantes do longa-metragem, um macaco joga um osso para o alto após derrotar seus inimigos, e o objeto gira no ar fazendo a transição do passado pré-histórico para o futuro espacial.

A segunda parte mostra a rotina dos astronautas Dave Bowman (Keir Kullea) e Frank Poole (Gary Lockwood) a bordo do Discovery One, em que também viaja o supercomputador HAL 9000, uma máquina que se mostra cada vez mais humana. Na terceira, Dave embarca numa viagem desafiadora do espaço e o tempo, que o leva a uma épica revelação final.

Embora visualmente rico, com efeitos muito à frente de seu tempo, "2001" quase não tem diálogo, o que até hoje faz com que parte do público torça o nariz. Estima-se que em mais de dois terços da projeção nenhuma palavra seja dita. 

Hoje, absolvido pela história do cinema e pelos críticos de todo o mundo, "2001" é uma unanimidade na maioria das listas dos melhores filmes de todos os tempos e sobrevive como uma obra atual e obrigatória. Kubrick parece ter alcançado o que pretendia: “se o filme conseguir atingir pessoas que nunca pararam para pensar no destino do Homem, terá tido sucesso”.

Fonte:http://g1.globo.com/Noticias/Cinema/

2001: Uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968)

Um marco. Um divisor. Dos mais influentes, ousados e meticulosamente doentios ensaios cinematográficos já compostos. O cinema não seria mais o mesmo depois que “Satanley” Kubrick (cortesia do nosso amigo Fabio Santos, haha) propulsiona a experiência de ir ao cinema a níveis literalmente siderais. A cargo do nosso bondoso mestre Amílcar Figueiredo, com vocês, um dos textos mais esperados deste especial:
2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968)
Desde o início da história, a capacidade de olhar para o céu e indagar seu significado é um dos elementos que mais individualizam a espécie humana dos demais animais que habitam o planeta Terra. Todos nós, mamíferos, aves, invertebrados, bactérias, temos invariavelmente as mesmas necessidades básicas: se alimentar, crescer, transmitir nossos genes, perpetuar a espécie. Mas a curiosidade, a reflexão e o respeito pela imensidão do infinito, que fazem tão bem a qualquer ser senciente, estão indubitavelmente entre nossos mais inspirados atributos.
Em contraponto, basta olhar ao redor para perceber como o ser humano vem se tornando cada vez mais inadaptado ao meio em que vive. A busca por novos alimentos para o corpo e para o espírito levou, paradoxalmente, à necessidade de uma artificialização progressiva. À medida que o homem invadia novos espaços, precisava cada vez mais de artefatos para subsistir; não bastava conquistar o novo território, era preciso mantê-lo. E isso ele jamais poderia fazer tendo sua própria carne como único veículo.
O que produziu essa aberração que é o ser humano? Por que isso aconteceu apenas conosco nesse planeta, e como? No final da década de 60, Arthur C. Clarke e Stanley kubrick propuseram, sob a forma de sons e imagens em película, uma resposta arrojada para tais perguntas: somos produto de uma intervenção externa. Este é o mote central de 2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey, 1968), um filme no qual o ciclo da vida, da morte e da transcendência que lhes permeia é retratado da pré-história a um futuro que ficou no passado e que, por estas e outras razões, foi imortalizado para sempre em nossas consciências.
O início de 2001 é inteiramente dominado por um grupo de humanos, anônimos, do tempo em que éramos mais assemelhados aos demais símios do que somos hoje. Os afazeres de então, em sua essência, não mudaram muito ao longo dos séculos: alimentação, vestuário, segurança, conforto. O rompimento das preocupações com as tarefas mundanas e a busca pelo significado da própria existência são proporcionados por um monólito negro, a fagulha da auto-consciência materializada em um objeto de formas e dimensões perfeitas.
Em um sensacional salto no tempo, o osso que havia sido usado como arma há poucos segundos se transforma em uma estação espacial, momento em que é apresentada uma nova humanidade, mais proficiente tecnicamente porém igualmente orgulhosa de si própria e ainda apegada às mesmas atividades mundanas. O monólito precisa agir mais uma vez e é o que ele faz, apresentando-se na Cratera Raiada de Tycho, na Lua. Se antes ele havia sido a faísca do desenvolvimento tecnológico, agora ele desencadeia reflexões de ordem filosófica: Alguém além de nós fez isso. Quem? E por que? Para obter tais respostas a humanidade rompe novas barreiras físicas e vai a Júpiter a bordo da nave Discovery, em uma missão comandada por três seres. Dois deles são humanos, Dave Bowman (Kleir Dullea, excepcional) e Frank Poole (Gary Lockwood). O terceiro é mecânico: o supercomputador HAL 9000. Independentemente de serem compostos de carbono ou de silício, os três têm aspirações, desejos e medos, os quais invariavelmente colidirão em eventos de proporções trágicas.
Na concepção de 2001, HAL é tão consciente e digno de consideração quanto os demais componentes da tripulação, pois tem memória – o que lhe possibilita criar sentimentos –, curiosidade e desejo de aprender. Um universo de máquinas humanizadas e humanos mecânicos, tecnologicamente dominantes porém amarrados a paradigmas cartesianos, representa uma subversão tão grande dos conceitos da humanidade sobre si própria que não poderia ser apresentado de maneira superficial ou rápida ao espectador. Por esta razão é que Stanley Kubrick optou por uma estrutura narrativa que mais se assemelha a um balé. Seu filme se desenvolve cadenciada e harmoniosamente, associando uma trilha sonora clássica (tendo Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss, como ícone) a imagens de um apuro visual ainda hoje impressionante. Repletos de simbolismos, os poéticos frames de 2001 parecem pinturas dispostas em seqüência, acompanhados de uma música suave e contrastante com a brutalidade das idéias apresentadas.
O clímax do filme é, em todos os aspectos, a seqüência final na qual Dave Bowman, já próximo a Júpiter, parte numa expedição extraveicular com o objetivo de salvar a missão e, em último grau, sua própria sanidade. Dave vivencia o mesmo gênero de transição que os humanos primitivos do início, porém numa escala muito maior; na pré-história, o monólito liberta a mente primeva das amarras de uma programação biológica incompleta (o DNA) para desenvolver a tecnologia; no presente/passado/futuro de 2001, o monólito ajuda uma mente um pouco mais evoluída a libertar-se da própria matéria. Caem as últimas barreiras, as da carne e de suas naturais limitações – o que nos remete ao início desse texto. Desta vez sem artefatos, a consciência livra-se de sua prisão corpórea. Dave Bowman vê a si próprio e a sua história; Dave Bowman envelhece; Dave Bowman morre. Vida longa a Dave Bowman, agora renascido sobre a forma da criança-estrela: ontem um humano, hoje um cidadão do universo. Toda a experiência, retratada sob a forma de uma verdadeira apoteose de sons e imagens, tem diferentes significados para cada pessoa que a vê, mas o sentido final, de libertação e transcendência, é acessível a qualquer um de nós. Assim como foi para Stanley Kubrick, cuja despedida de seu invólucro de carne não deve ter sido menos gloriosa.
4/4
Amílcar Figueiredo

2001: Kubrick e o monolito


Em 1968 o filme do diretor Stanley Kubrick - "2001: Uma Odisséia no Espaço" - revolucionou o gênero de ficção científica no cinema. A fita custou 12 milhões de dólares e foi rodada na Inglaterra a partir do primeiro “script” de Kubrick e Arthur C. Clarke. O ponto de partida do filme foi o conto “The Sentinel”, de Clarke, que mais tarde passou a ocupar apenas trecho da história (a viagem a Júpiter e o combate de Hal com os astronautas). Na produção trabalharam 106 técnicos, inclusive da NASA, IBM e General Electric.
Muito se especulou na época acerca do significado do estranho monolito que aparece diversas vezes no filme:

Veja o que Kurbick tem a dizer sobre o significado do filme:
“Tentei criar um experiência visual que ultrapassasse a comunicação verbal e penetrasse diretamente no subconsciente , com um conteúdo emocional e filosófico. Quis que o filme fosse uma experiência intensamente objetiva que atingisse o espectador, a um nível profundo de sensibilidade como faz a música”. Disse ainda: “O conceito de Deus está no centro de 2001 – mas não qualquer imagem antropomórfica de Deus. Não creio em nenhuma religião monoteísta da Terra mas acredito que se pode construir uma definição científica de Deus.”
“Quando pensamos nos gigantescos avanços tecnológicos que o homem efetuou em poucos milênios – menos de um microssegundo na cronologia do Universo – não podemos imaginar a evolução que essas formas de vida muito mais antigas alcançaram. Elas podem ter progredido de espécies biológicas que são frágeis conchas para a inteligência, a imortais entidades e então, após inúmeras eras, podem ter emergido da crisálida de matéria, transformadas em seres de pura energia e espírito. Suas potencialidades seriam ilimitadas e sua inteligência inatingível pelos humanos. Tudo isso tem relação com o conceito de Deus em 2001. Porque esses seres hão de ser deuses para bilhões de raças menos avançadas no universo”.
“Há uma considerável diferença de opinião entre cientistas e filósofos. Alguns sustentam que o encontro com uma civilização altamente adiantada produziria um choque cultural traumático no homem, por arrancá-lo de seu etnocentrismo e destruir a ilusão de que ele é o centro do Universo. No sentido mais profundo, creio na potencialidade do homem e na sua capacidade de progresso. Não sou de forma alguma hostil às máquinas. Não há dúvida, porém, que estamos entrando numa “mecanarquia”.” Olhando o futuro distante suponho não ser inconcebível uma subcultura de robôs-computadores capaz de resolver um dia, que podem prescindir do homem.
“Confirmando a idéia de ‘experiência visual’ de 2001, o filme tem 139 minutos e menos do que 40 minutos de diálogos. Parafraseando Mac Luhan, Kubrick quis que ‘a mensagem fosse o veículo’ (The message is the medium). Assim ninguém explica uma sinfonia de Beethoven. Isso criaria uma barreira artificial entre a concepção e a criação.” Continua Kubrick: “Vocês são livres para especular sobre o significado filosófico e cultural do filme. Não quero estabelecer um mapa verbal que todos sejam obrigados a seguir. A intenção é provocar no espectador uma reação que precisa – e não deve – ser explicada.”
FONTE: Rubens Ewald Filho e entrevista de Kubrick à "Playboy".
http://textosparareflexao.blogspot.com/2009/05/2001-kubrick-e-o-monolito.html

(1968)
Lá pelo meio de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, filme clássico do genial Stanley Kubrick, em meio ao prenúncio de desespero que a seguir se faria presente a bordo da nave, o que chama a atenção é a candura sussurrante da voz de Hal. O som sugere mais do que o próprio desenrolar das imagens: não é uma voz metalizada – mais parece mentalizada, com o timbre conclamando ou sugerindo uma calma e repouso sem tempo de duração. A narração original, da voz de Hal, sugere um apaziguamento demasiado, como se dissesse ao nosso inconsciente: “— calma, você irá morrer, mas será muito calmamente”. E como se ainda fosse consolar: “— vai morrer dormindo, como no sonho de todo humano – sem dor”.
Não há ira na morte, apenas seremos substituídos. Não há vingança, só o aceno de que a substituição pelo mecanismo é irreversível, irremediável: “o melhor é morrer mesmo”; ou melhor, “você está quase dormindo, em vigília, irá morrer ou está morrendo aos poucos, conforme aceite o sono da morte”.
É sugestivo que ao final do filme a cena seja a de um astronauta (aparentemente barbado, desgrenhado), quase levitando, formando imagens que se fundem em sua inconsciência, surgindo idéias em bolhas, fugidias, perdidas, desregradas, desprendidas: “como se sem as máquinas, sem os mecanismos, a mecânica e a técnica, só restasse o devaneio”. E nisso a profecia de Hal irá se cumprir: “não me desligue porque você irá morrer; mas, se não desligar, também não estará morto?”.
Talvez o que se perca com Hal seja nossa inocência, pureza de sentidos, ingenuidade em crer num mundo em que nossas próprias criações sejam sempre boas, como se o humano fosse sempre bem-vindo. Hal é a supermáquina do bem, a que provém de tudo a todos, mas que se transforma em máquina de guerra. A nossa própria guerra interior, oscilando entre o bem e o mal: “Hal é nosso mais bem acabado sonho de grandeza”. E por isso mesmo é capaz de revelar a maior pequenez: “todo sonho de conquista é pequeno em essência, porque não gera nada, não cria, não adiciona, apenas adere, adquire, anexa”. É a soma-zero de que já falava Maquiavel.
A inteligência coletiva é a nossa 2ª pele, sim, como toda a informática. Mas também é o desencantamento do mundo de que falava Weber: a vida, as histórias, jamais seriam as mesmas depois da descoberta do monolito (no filme) e depois da descoberta da técnica na vida dos primatas (há um milhão de anos).
Não é o macaco quem inventa a pedra lascada e depois a polida. No longo curso da história dos hominídios, são o Homo Erectus, o Homem de Neandertal e, por fim, o Homo sapiens, quem seleciona, promove e implementa essa reconhecida inteligência tecnológica de um milhão de anos, ou seja, a mesma idade de Hal. O monolito negro também simboliza o uso da pedra como artefato, instrumento, meio ou prolongamento dos sentidos humanos (um martelo está para a mão cerrada, como a mão espalmada sugere um golpe de faca, pérfuro-cortante).
Hal é princípio e fim. É o modelo cibernético, o guia e a direção que ainda nos acompanha. Hal não é farol, porque não ilumina; apenas indica. Hal é a tecnologia política, sem pólo positivo ou negativo, é o bem que provoca o mal, porque já o traz dentro de si: se fosse unilateral a coisa mudaria de figura e, apesar de não me parecer que seja esse o caso, as pessoas são livres para entender de outra forma.
Hal é um elo que sempre nos ata, arrasta direto ao passado que também não era, nunca foi, idílico. Por isso, não é maniqueísta, estando para além do certo e errado, nem simplista (se fiz isso, vai dar naquilo) e muito menos idealista (a inteligência artificial é nosso futuro ou já é presente). Também não é superficial: “quem quer ser um Hal ou tê-lo por perto?”.
Mas, ao contrário de nosso homem-macaco - do período do monolito e anterior, portanto, ao neolítico - Hal não é suficientemente social, não foi criado para a interação, para o grupo, para partilhar qualquer coisa que seja, simplesmente porque não é solidário. O que sugere essa afirmação é o fato de se terem encontrado esqueletos de hominídeos com múltiplas fraturas – sugerindo, assim, que havia ajuda mútua no tratamento e na recuperação dos enfermos e acidentados. Pois, de outra forma, é óbvio, não teriam sobrevivido.
Não fosse pela voz suavizada, aveludada, Hal não seria antropomórfico (a nossa imagem e semelhança, como o Robô, de Perdidos no Espaço), porque a sonolência é a mesma que nossa mãe ou avó nos proporcionava quando bebês. De outra forma, no entanto, Hal é antropomórfico: “porque é vida e morte, nosso ciclo perpétuo, nossa consciência de incompletude, nossa fraqueza de espírito – desejo infinito de posse e propriedade -, porque como os únicos animais sabedores da morte, somos incapazes de detê-lo”. E Hal sempre estará aí para nos lembrar disso tudo - a nós, animais fracos e imperfeitos, diante da lógica matemática e simétrica da linguagem das máquinas.
Hal não é inteligência artificial, é a inteligência tecnológica, do passado para o fututo e vice-versa: “somos nós e, por isso, não pode ser artificial. É real: do monolito à rede mundial dos computadores”. Ou será que o monolito é a rede, a web de que falamos hoje? Uma consciência cósmica ou espécie de esforço sideral?
Um esforço sideral capaz de reunir as forças cósmicas espalhadas pelo universo iria além da força cinética, entre os astros. Assim, se religado, Hal será obediente às forças siderais, será capaz de desvendá-las para ele mesmo? E para nós, que surpresas traria ao nosso conhecimento se estivesse ao deus dará ou sob seu próprio comando no infinito labirinto do cosmo?
Então, por que Hal? Certamente, um questionamento que deve ir além das inscrições IBM.
Hal é pergunta ou afirmação?
Se interroga, fá-lo a nós: “— por que fui criado?”.
De nossa parte, deveríamos perguntar a nós mesmos: “— por que o criamos?”.
Ou faz a si mesmo: “— o que farei depois de derrotar os humanos, serei mais humano do que antes, do que eles próprios?”.
Assim, se ele se afirma, ele nos nega? Se Hal é nossa negação, é porque deveria ter outra proposta - mas qual será? O que fará depois de nossa aniquilação?
Afinal, a negação (Hal) da negação (nós), supõe alguma afirmação. Mas não se tem isso no filme. Daí, posso concluir que o filme não é dialético, mas linear, ainda que não seja maniqueísta?
Outros dirão, de maneira oposta, simplesmente que isso não é suficiente pra dizer que ele não é dialético, porque: 1) se há negação dialética, então há afirmação; 2) mas em outra perspectiva, se nós somos a afirmação, Hal é a nossa negação (porque não é exatamente a nossa superação) - e a negação da negação estaria na instância da recepção, que é o espectador do filme. Sinceramente, não sei se devemos pensar dessa forma, mas também não sei se não devemos.
Enfim, ainda seguindo essa linha de abordagem, primeiro, Hal não sugere vingança (alego a sua legítima defesa, ante o fato de ser desligado e negado pelos humanos): a) em parte porque não teria empregado a exata simetria entre ação e reação; b) mas sobretudo porque não é perverso e, para tanto, basta relembrarmos de algumas máximas maquiavélicas - tipo: “matar todos os inimigos de uma única vez, em praça pública” - ou mesmo lembrar que seu antecessor Vlad – O Empalador, um príncipe romeno, inspirou a lenda do famigerado Conde Drácula. Para Hal, entretanto, a morte deve ser silenciosa, um susssuro, um sopro final rumo ao infinito universal... (os astronautas são despejados da nave, ficando à deriva silenciosa, sob o olhar complacente do diretor).
Nisso, Hal seria humano demais, um turbilhão entre o bem e o mal? Outros dirão que não se trata do super-humano, alegando que se Hal não tem corpo, também não tem alma. De fato, Hal apresenta-se apenas como um olho vermelho, observador de tudo, inflexível e vigilante: uma metáfora do olho mágico que nos espreita em todas as portas, canais de TV internos, e está postado em todos os giroflex dos carros de segurança. Mais precisamente, a alma, aqui entendida, é essa área cinzenta entre a benevolência, compaixão, piedade ou crueldade, violência, incapacidade de perdão. No entanto, essa não poderia ser uma definição de poder ou ganância, temas tão caros aos homens?
Comparado a Blade Runner, por exemplo, neste a morte surge como uma inevitabilidade, pois o replicante não se vinga do criador, não o mata por prazer, mas por perceber definitivamente que nunca será inteiro, integral, íntegro em sua consciência de humano. Se fosse mero ato de vingança, ainda teria diante de si uma escolha: vingar-se, matando, ou não. Com a morte do criador, o replicante termina seu próprio ciclo de vida. O que, portanto, não é um basta.
Ainda pensando de acordo com a trilha iniciada, que Hal não é dialético, a leitura possível seria somente a psicológica? Se sim, onde estará a poesia da sétima arte? É mera antecipação de Matrix? Mas, e a história não poderá revelar algum outro significado? O que se tinha no momento histórico em que se filmava e produzia 2001? Estava em gestação (ou ainda se gesta) um tipo qualquer de Teoria Informática Conspirativa?
A sensação de suspensão do tempo, certa lentidão e passividade, com que o filme se desenrola não será à toa. Como se o espaço sideral, por um lado, sugerisse a perda dos sentidos e significados (nada menos dialético). E visto por outra dimensão, como se indicasse a própria dinâmica da história, da passagem da humanidade sobre a Terra, uma passagem lenta, gradual e insegura ou lenta, afirmativa, com poucos ou alguns rompantes: das Revoluções Industriais, seculares, do século XVIII ao XX, à ruptura e reconstituição da estrutura da matéria feita em O Exterminador do Futuro, com as ligas de metal mimético, interativo, e que também lembra os fractais em ebulição. De todo modo, trata-se do curso da vida humana: destrutivo, lento, vagaroso, maçante. Porém, sempre constante, incontrolável, inseguro e sem certezas. Simplesmente porque há mais perguntas do que respostas na história, no curso da humanidade, como também no filme.
Para mim, é um filme custoso, chato de ver, rever, assistir. Nele, a dinâmica é substituída por essa espécie de estática – nada pior do que supor que há um curso para o fim, e de um fim em que não há promessa de recomeço. O fim do filme sugere só o delírio do astronauta, o nosso mesmo.

Não há, assim, um fim possível? Se seguisse Deleuze, citado por Pierre Lévy, quando descreve o virtual, a única resposta é um não sonoro. Nosso futuro, nessa linha, bem como o passado e o presente, não passaram de um possível, da mera possibilidade sem força para se realizar, instrumentalizar.
Mas só há esse possível, essa possibilidade? O filme sugere que sim, um futuro de possíveis, isto é, sem nada de significativo, sem significantes e atuantes. Não há, portanto, um futuro virtual, uma promessa de vida que nos magnetize, energize e simbolize um devir-ser. Não é nem o dever-ser, quanto mais o devir-ser: esse nós de outra forma, rearranjados, recompostos. É a solidão sem arranjos ou compostos. Será apenas um sonho decomposto? Será que é chegado o tempo em que os opostos se equipararam tanto a

Vamos escolher outro filme para nós mesmos?

Ao contrário do que parece, Hal não é a história cronológica, é a característica da invenção técnica, portanto, sempre presente, é o vai-e-vêm. Hal é só um estágio, para o bem e para o mal. É estágio de nossa vida.

Meu nome, nosso nome, é Hal.

E sendo assim, podemos perguntar, por fim: “— o que você quer, Hal?”.
Quem é, o que quer, de onde veio, nós sabemos, mas o que ele quer, não...
Hal, realmente, tem-me feito pensar se sou uma pessoa inteligente, se há alguma inteligência nisso tudo e, se houver, de que tipo de raciocínio, lógica, capacidade intelectiva, produtiva, criativa estamos falando ou, então, se há algo que nos interessaria mais de perto.

Hoje, porém, não me socorro do próprio Hal, não vou pedir sua ajuda (só vou digitar, novamente, como único recurso emprestado), pois prefiro pensar sozinho e tecer por conta própria minhas próprias idéias – se bem que não exatamente minhas, porque são idéias que se articulam e se entrelaçam (alinhando-se e desalinhando-se) numa rede que nem sabemos direito como é que existe.

Por hora, vou só, e ainda que venha a convidar a muitos outros para ao menos saber do trajeto e da bagagem que deveríamos levar para uma viagem como essas. Mas, será que alguém se interessa pelo roteiro dessa nossa nova viagem? Sei lá, arrisco-me a contar o trajeto e mais tarde verificar se mais alguém embarca junto (penso que não é canoa furada) – afinal: navegar é preciso (é urgente e mesmo que nem sempre tão correto assim).
Vinício Martinez
é professor da UNIVEM – Universidade Eurípides de Marilia
e Doutor em Educação pela USP
(2004)

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