'OBEDEÇA AO SEQUESTRADOR': COMO O 11 DE SETEMBRO MUDOU O COMPORTAMENTO DOS PILOTOS DURANTE EMERGÊNCIAS EM VOO
A segunda torre do World Trade Center é atingida por avião e explode em chamas durante atentado do 11 de Setembro em Nova York — Foto: Chao Soi Cheong/AP/Arquivo
'Obedeça ao sequestrador': como o 11 de Setembro
mudou o comportamento dos pilotos durante emergências em voo
Quando as operações aéreas foram retomadas nos EUA
em 12 de setembro de 2001, há 25 anos, reguladores de todo o mundo começaram
uma revisão total de diversos procedimentos de segurança na aviação — entre
eles, a forma como a tripulação lida com um sequestro.
Por Daniel
Médici, g1
12/09/2026 01h00 Atualizado há um dia
A história da aviação comercial pode ser dividia
entre antes e depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que
completou 25 anos na última sexta-feira. Nenhum outro evento mudou tanto as
regras do setor.
No dia da tragédia, a primeira aeronave atingiu a
torre norte do World Trade Center às 8h46 da manhã em Nova York (9h46 em
Brasília). Às 9h03, o segundo avião colidiu contra a torre sul do complexo.
Apenas 13 minutos depois, às 9h26, as
autoridades do controle de tráfego aéreo dos EUA tomaram a decisão mais radical
da aviação no país: determinaram um "ground stop" total,
ou seja, que todos os aviões civis sob os céus do país deveriam pousar.
Às 12h16, o último dos cerca de 4.500 voos afetados
finalmente pousou. Outros milhares de voos foram cancelados. As decolagens só
voltariam a ocorrer no dia seguinte, mas de forma gradual: apenas 252 voos
foram realizados no país naquele dia, há exatos 25 anos.
O dia 12 de setembro marcou o início de uma
remodelação total dos processos da aviação nos EUA e, por consequência, no
mundo — a FAA,
agência que controla o setor nos EUA, e a EASA
(que cumpre o mesmo papel na Europa) estabelecem uma série de regras e
certificações que acabam servindo de parâmetro para todos os outros órgãos
reguladores.
Por trás da Ponte do Brooklyn, a explosão do segundo avião a atingir o World Trade Center é vista de longe em Nova York durante o ataque terrorista em 11 de setembro de 2001 — Foto: Sara K. Schwittek/Reuters/Arquivo
A revista de bagagens e passageiros antes de entrar
na área de embarque se tornou mais rigorosa; a entrada de pequenas facas e
lâminas na cabine foi proibida; a presença de agentes em aeroportos aumentou
substancialmente e os procedimentos de segurança em aeroportos e aeronaves
ganharam uma padronização internacional.
Uma mudança pouco conhecida, contudo, foi o
abandono de um protocolo que mandava "obedecer ao sequestrador" no
caso de rapto de uma aeronave.
Entenda, a seguir,
por que essa orientação existia e o que mudou a partir do 11/9:
'Obedeça ao
sequestrador'
Nos anos 1980 e 1990, o treinamento dado pela FAA a
pilotos e comissários dizia que, em caso de sequestro da aeronave, eles
deveriam:
- Obedecer aos sequestradores e acatar suas
demandas
- Cuprir as exigências o mais lentamente
possível, de forma a ganhar tempo
- Pousar a aeronave assim que possível
- Evitar
se sobrepor ou negociar diretamente com os criminosos
➡️
Na época, a maior parte dos
sequestros de avião tinha motivação política ou criminal, mas não terrorista,
com os sequestradores exigindo resgate em dinheiro, asilo político ou a
libertação de prisioneiros de seus respectivos grupos.
Ataques terroristas já haviam ocorrido em aeronaves, mas eles não envolviam a presença dos perpetradores a bordo. Um exemplo é o atentado de Lockerbie, em 1989, no qual bombas implantadas no compartimento de carga de um Boeing 747 da Pan Am explodiram em pleno ar.
Porta blindada
Após os atentados de 11 de Setembro, uma nova
doutrina foi desenvolvida, focada em preservar a cabine de pilotagem e
protegê-la a todo custo.
Além da revisão do treinamento da tripulação, novas
medidas foram adotadas, como o fechamento da porta que separa a cabine de
pilotagem (ou "cockpit", no jargão em inglês) da cabine de
passageiros. A entrada de terceiros, senão estritamente proibida, é rigidamente
controlada.
Desde os ataques, as portas do cockpit são também
blindadas e possuem um sistema de fechamento complexo, que exige uma senha para
que seja possível abri-las por fora.
- Tragédia do voo Germanwings mudou
as regras
·
O protocolo sofreu revisões desde então, porém,
devido a uma nova tragédia. Em 24 de março de 2015, o voo Germanwings 9525 que partiu de Barcelona a
Düsseldorf caiu nos Alpes franceses, matando todas as 150
pessoas a bordo. A investigação determinou que o copiloto se aproveitou de uma
ida do comandante ao banheiro para trancá-lo para fora e assumir o controle da
aeronave e derrubá-la intencionalmente.
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A partir de então, os treinamentos para a abertura
da porta por fora do cockpit, via senha, foi reforçado. A EASA passou a exigir
que um comissário estivesse presente no cockpit sempre que um dos pilotos se
ausentasse — a regra foi relaxada depois, mas outras agências reguladoras
adotaram a medida, que segue em vigor pela FAA, por exemplo.
·
Acionamento da
Força Aérea
·
Outro procedimento que sofreu ampla revisão nos EUA
foi a notificação e acionamento da Força Aérea em casos de sequestro.
·
Quando uma aeronave comercial é sequestrada, os
pilotos inserem imediatamente no transponder (um sistema secundário de
comunicação) o código 7500.
Esse código é universal e já existia ante dos ataques terroristas contra as
Torres Gêmeas e o Pentágono.
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O que mudou foi a forma com que o controle aéreo
lida com essa informação. Antes do 9/11, a torre de controle precisava passar
por múltiplas etapas de validação de diferente autoridades para que o alerta
chegasse ao Comando de Defesa Aeroespacial (NORAD, na sigla em inglês).
·
Ao receber o código 7500, o controlador precisava
notificar seu supervisor, que acionavam a gerência, por sua vez. Só depois a
informação do sequestro chegava à central da FAA, que entrava em contato com o
Pentágono, o qual notificava o NORAD, cuja sede fica no Colorado, o qual,
finalmente, dispararia a ordem de mandar um caça para acompanhar a aeronave
sequestrada.
·
Essa cadeia de decisões com múltiplas etapas foi
descartada após 2001, com um protocolo muito mais ágil sendo colocado em seu
lugar.
Fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/09/12/obedeca-ao-sequestrador-como-o-11-de-setembro-mudou-o-comportamento-dos-pilotos-durante-emergencias-em-voo.ghtml
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