O QUE A ECONOMIA TEM A VER COM BRUXARIA ?

Menino nigeriano acusado de bruxaria, após ser resgatado e se recuperar

© Reprodução/Facebook Menino nigeriano acusado de bruxaria, após ser resgatado e se recuperar 

O que economia tem a ver com bruxaria?

São Paulo - A crença na bruxaria dificulta a confiança social e até a economia acaba sendo prejudicada.
Essa é a conclusão de um estudo de Boris Gershman, da American University em Washington DC, publicado recentemente no Journal of Development Economics.
Ele utilizou dados de uma pesquisa de opinião feita em 2008 e 2009 pelo centro Pew em 19 países da África subsaariana sobre crenças e atitudes religiosas e temas políticos e sociais.
Na média, 57% acreditam em bruxaria, mas o número chega a 96% em lugares como Tanzânia, e as taxas estão fortemente correlacionado com o nível de confiança social.
Essa relação continua estatisticamente significativa mesmo quando se controla por outros fatores (demográficos, históricos, climáticos, étnicos e outros) que poderiam influenciar o resultado.
"A crença na bruxaria pode ter um efeito adverso direto na confiança interpessoal e cooperação através de dois grandes canais: ao cultivar o medo de serem enfeitiçados e espalhar o medo de acusações de bruxaria", diz Gershman.
E como a cooperação é extremamente importante para coisas como o comércio e projetos coletivos, isso acaba tendo consequências para a economia como um todo.
Gershman já havia investigado a relação entre desigualdade e olho gordo. Em entrevista para EXAME.com, ele explica seu novo estudo:
EXAME.com - Quais são os mecanimos que conectam a bruxaria com a economia?
Boris Gershman - Na medida que a crença na bruxaria erode as relações cooperativas na sociedade, também contribuem para a redução da atividade econômica. 
Alguém que acredita na bruxaria teria mais cuidado e menos confiança nos outros já que alguns deles podem ter a habilidade de causar dano de formas sobrenaturais.
Pessoas em comunidades onde essa crença é disseminada tenderão a evitar interações sociais e se engajar em projetos cooperativos, já que poderão ser acusados de bruxaria se algo der errado e as consequências disso podem ser severas, de destruição de propriedade até mesmo morte.
EXAME.com - Os resultados te surpreenderam?
Gershman - O padrão principal não é tão surpreendente porque já foi identificado por evidências anedóticas e etnográficas em outros trabalhos, especialmente na antropologia.
O que talvez surpreenda é a conclusão de que imigrantes de segunda geração na Europa que vieram de países com crença na bruxaria mais disseminada também tem menos confiança nos outros.
Isso sugere uma possível persistência de traços antisociais que se originam nessas sociedades com essas crenças.
EXAME.com - Mas será que a corrrelação não vem na outra direção? No Malauí, por exemplo, a crise econômica tem causado um aumento na perseguição dos albinos.
Gershman - Isso é uma variação da chamada "teoria da modernização", segundo a qual o progresso econômico torna superstições obsoletas ou que a pobreza causa a proliferação desse tipo de crença.
A pesquisa etnográfica das últimas duas décadas não sustenta essa visão e nota que a mudança econômica na África subsaariana é muitas vezes acompanhada por uma alta na crença em bruxaria, uma noção conhecida como "modernidade da bruxaria".
As associações entre medidas simples de bem-estar material e a tendência de acreditar em bruxaria é muito fraca e a fração de quem tem essas crenças em áreas rurais e urbanas é muito fraca. Pessoas mais educadas tendem a creditar menos, mas a fração entre aqueles com educação superior ainda passa de 50%.
E curiosamente, a bruxaria é a única que tem correlação forte com a confiança, o que não é verificado na crença em paraíso, inferno, reencarnação, milagres ou anjos. Pela teoria da modernização haveria um declínio de todas essas crenças na medida em que se desenvolve, mas isso é inconsistente com o papel especial da bruxaria na relação com o capital social.
EXAME.com - Mas então como enfraquecer esse tipo de crença e erosão da confiança?
Gershman - Tem uma parte da literatura que mostra que valores, atitudes e crenças tendem a persistir ao longo do tempo. No entanto, também há exemplos de mudanças rápidas em certos aspectos da cultura.
Uma forma de contribuir para essa mudança é através da promoção de uma visão de mundo racional através da educação e da implementação de programas pontuais que expliquem as causas naturais de infortúnios como doenças e desastres naturais.
Além disso, a provisão de oportunidades econômicas igualitárias para todos os membros da comunidade e proteção dos mais vulneráveis também ajudaria a reduzir a ansiedade social e prevenir situações onde acusações mútuas emergem, aliviando medos relacionados a bruxaria.

Fonte:http://www.msn.com/pt-br/dinheiro/economia-e-negocios/o-que-economia-tem-a-ver-com-bruxaria/ar-AAhMmQV?li=AA5a49&ocid=spartandhp

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