O PONTO CEGO DA SUBMISSÃO


Por Ivan Pessoa

§1
Nenhuma aspiração humana potencialmente verdadeira pode prosperar sem o apelo ao culto, ao cultivo ou  à ligação religiosa com algo que a transcenda. Insinuando-a poeticamente, assim escreveu T.S.Eliot: “Os homens não podem prosperar sem manter a fidelidade a algo externo ao próprio ser.“. Em tais termos, a experiência religiosa enquanto vera religio, ou seja, como pretensamente verdadeira, deve favorecer àquele que a professa, uma apropriação do credo na vida pessoal que, por sua vez, exige o que São Paulo Apóstolo chamou de ‘morphosis‘ integral, doravante, uma renovação, uma deiformidade. Daí a certeza de que o valor de uma experiência religiosa mede-se pelo poder de transformar a vida daquele que a professa, em uma espiral crescente de palavras, gestos, exemplos e silêncios. Tal experiência religiosa – assente em umavera religio – salva, desde que modifique integralmente quem a propaga. Portanto, vivê-la pressupõe abandonar constantemente a si mesmo, até morrer e renascer em vida como em uma contínua metanoia (arrependimento e conversão), que alcança seu propósito quando é capaz de incorporar – desde a ordem das palavras – o dom especial de Deus: ‘o Amor.’ (João 4,8). Deste modo, Deus se torna cognoscível na medida em que se manifesta na gratuidade da existência daquele que crê – experiência estritamente súbita e pessoal – cuja compreensão se dá imediatamente na descoberta divina da Graça: tudo o que existe implica o mistério de sua existência sobre o abismo de sua possível não-existência. Por conseguinte, a experiência religiosa como vera religio é a vinculação humana com o próprio Ser enquanto Graça e Amor, de modo que a questão sobre Deus não é consignável a partir de uma busca por algo que exista fora do mundo, mas como algo que se impõe desde a realidade pessoal daquele que O procura. Como consequência, tudo se modifica desde que Deus gratuitamente se ofereça.
§2
Se a experiência religiosa enquanto vera religio só pode ser sopesada objetivamente por meio damorphosis, ou seja, da mudança integral daquele que a professa, de modo que é uma mudança pessoal; como tal experiência pode ser avaliada em termos civilizacionais? Se a presença de Deus só é cognoscível quando se oferece como uma realidade pessoal, que modifica o fiel, sua manifestação é especular; à maneira de um microcosmos que incorpora as leis do cosmos. Em proporção, e por vias analógicas, o mesmo se dá às civilizações, em que uma vera religio é anunciada por meio de uma iluminação (‘iluminatio‘), cujo elemento distintivo é a capacidade humana de extrapolar os limites espaço-temporais por meio de uma obra (Graça) suficientemente capaz de imprimir na história uma verdade que a transcenda. Destarte, tal iluminação pode ser compreendido no plano das civilizações em termos genuinamente interpessoais. Em todo caso, uma boa dose da tese de Simone Weil, quiçá seja um encaminhamento oportuno para a compreensão do problema, segundo a qual, uma religião deve ser avaliada por sua antropologia. Portanto, a vera religio é para o indivíduo uma morphosise para uma civilização é iluminação, cujo alcance último é apreensível pelos sedimentos de uma obra que se oferece abundantemente àquele que a cultiva. Em ambos os casos, o propósito último da vera religio é a comunhão em uma vida sacramental (‘communio sanctorum‘), fundamento de toda obrigação moral, e por extensão, de todo convívio humano. Inventariar antropologicamente tal comunhão no decurso da história é um critério suficientemente oportuno para a compreensão de uma experiência religiosa pretensamente verdadeira.
§3
Compreendendo tal experiência religiosa como comunhão, cujos símbolos são antropologicamente apreensíveis, é que se pode perceber que as religiões pagãs têm um traço em comum, afora a brutalidade sacrificial deliberadamente renovada: cultuam a unanimidade violenta de uma miríade de agressores contra uma única vítima; fenômeno há muito verificável com o tratamento dispensado às mulheres adúlteras e aos homossexuais por muçulmanos. Portanto, um traço em comum nessas religiões é a indiferença aos reclames de opressão, perseguição e compaixão, que só passam a existir efetivamente com o advento do Cristianismo, em que: “Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lhe também vós a eles.” (Mateus 7,12). Ao redor do Cristianismo é que a vulnerabilidade, o sofrimento e a dor conferem um rosto ao homem, concedendo-lhe a dignidade de vítima de eventuais ciclos violentos, cujos riscos (se não estancados pelo perdão) podem precipitar uma guerra de todos contra todos. Ceder a tais ciclos é dar abrigo ao Acusador, ao príncipe deste mundo (João 12:31), cujo registro antropológico é da ordem da dispersão, da desarmonia e da discórdia.
Como o propósito da Religião é fazer com o que o homem se torne consciente e responsável pela Graça que o habita (algo que o Cristianismo consuma na Pessoa do Cristo), sua finalidade última é a de uma renovada recordação  (‘anamnêsis‘ em grego), comungável por meios dos seus sacramentos e de seus dogmas. No contexto da religiosidade cristã isso se revela como uma faina diária e cotidiana, que não cessa de ser transcendida pela vida sacramental em que os pequenos gestos se ajustam superiormente à comunhão interpessoal, o que nos leva à defesa de Michael Polanyi: “O Cristianismo é uma iniciativa em desenvolvimento progressivo.” (‘O conhecimento pessoal‘, 1957).
Neste sentido, qualquer religião que não disponha em seu dogma a força dessa recordação, que pessoaliza os semelhantes e os dessemelhantes em uma ordem sacramental renovável diuturnamente, corre um risco de imolar suas vítimas imperiosamente. Eis, portanto, o risco constante na mentalidade muçulmana (‘aquele que se entrega‘, em árabe), que demanda ao conjunto de suas ações, total submissão (‘Islam‘) ao Alcorão. Como uma religião enquanto vera religio pode se sustentar a partir de uma submissão que jamais pode ser transcendida por que inquestionável? Como compreender a Graça de Deus na fixidez da submissão, sendo a realidade divina manifesta na pessoa que nos habita, e que – em cada rosto – anuncia os clamores da inquietude, da dor e do sofrimento? Entre a submissão e o Amor, o que efetivamente prospera em gratuidade?
No mais, e como se fosse evocável à mentalidade pagã muçulmana, Paul Valéry escreveu sobre o espírito do Totalitarismo; aquele dogma das ideologias: “Tantos horrores não teriam sido possíveis sem tantas virtudes.” (‘A crise do Espírito‘, 1919). Em linhas gerais, um bom critério para avaliar uma religião, e por extensão, um dogma ideológico é sopesar as suas virtudes jamais transcendidas.

 O vídeo abaixo é a constatação de um critério antropológico aterrador e impiedoso, frequente na mentalidade pagã:
 Fonte:https://apalavradescoberta.wordpress.com/2016/06/22/o-ponto-cego-da-submissao/#content-wrapper

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