AS AFINIDADES ELETIVAS DE UM SONHO - IVAN PESSOA

Gregory Colbert VI
“(…). o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.”
(João Cabral de Melo Neto)



Por Ivan Pessoa
***
§1
Da certeza de Hölderlin, eu compactuo sem titubeios: “O homem é um deus quando sonha e um mendigo quando pensa.” Sem mais delongas, isto se justifica pela loucura do poeta, que viveria (durante quarenta anos) municiado por um carpinteiro que o abrigaria – em seu longo e silencioso degredo – nas dependências de uma torre. Não é de admirar que, no auge de sua loucura – nos cômodos daquela torre às margens do Rio Neckar – Hölderlin recepcionasse suas visitas com as seguintes palavras: ‘Entre, Vossa Senhoria’, ou, ‘Sente-se, Sua Alteza.’ Em ambos os contextos, o poeta decisivamente transparece a certeza de que, em tal estado crepuscular, nos elevamos à uma nobiliárquica condição, à maneira de uma divindade. De certa feita, temos, proporcionalmente, a nobreza de um deus que sonha, mas que despertos, mendiga por que pensa. O que nos enobrece – daí a menção à Senhoria e Alteza – é a capacidade de aspirarmos à universalidade, ainda que sejamos imediatamente individuais, com efeito, somos a divindade em potencial, e por meio da qual, nos compreendemos à simples enunciação da frase: ‘Sinto dor‘. Entre o sonho e o pensamento; entre deus e o mendigo, prolonga-se uma passagem, habitada que é pelo espírito fronteiriço da poesia. Ao transpor os extremos – entre o crepúsculo e a aurora – o poeta comunica a sua dor, apreensível que é por ser universalmente imaginável. Assim sendo, tal criador é aquele que, ao conservar o estado desperto dos sonhos, atualiza a potência dos símbolos por intermédio do pensamento. O poeta é aquele que sonha por que pensa, e pensa por que sonha, tornando-se – diferentemente dos demais – aquilo que Plínio, o Velho, chamaria de: urdidor de pesadelos’ (‘monstrorum artifex’).
§2
Se conservarmos o sentido concedido por Hölderlin ao homem que é um deus quando sonha, e depreendermos do espírito da poesia; a nobreza da palavra divina – concebível àquele que transpõe as fronteiras entre o sono e a vigília – veremos na passagem a seguir, o peso da experiência poética: “Vejo que tudo em mim está disposto para um trabalho poético, que isto seria para mim uma solução divina, uma entrada verdadeira na vida, enquanto que, no escritório de advocacia, tenho que, em nome de uma lamentável papelada, arrancar um pedaço de carne ao corpo.” (Kafka, Diário, 1910). Sonhamos, e isto é irrefutável, ademais, para o homem comum, estar desperto é abrir os olhos. Enquanto isso, para o poeta – hospedar o espírito de um deus que mendiga, o acossa por todos os lados, tal qual o pensamento que sonha. Em um soslaio, Walter Benjamin diria do referido escritor, aquilo que poderia ser universalizado a tal estado poeta: ” Se Kafka não rezava, possuía aquilo a que Malebranche quis chamar a oração natural das almas: a atenção.”
§3

Apenas por estar desperto, aliás, por estar atento, é que Dostoiévski via seus personagens caminhando pelas ruas de São Petersburgo, admoestando-lhe sibilinamente sobre o peso dos olhos de Raskólnikov e a tragédia dos Karamazov. Poderíamos, é claro, irresponsavelmente aproximar Dostoiévski a Julien Green, justificando os lapsos de sua angustiada atenção, e o sentido divinal de sua pena: “Escrever é compatível com o estado de graça.” Ao dimensionar a experiência literária como um estado de graça, Julien Green pretendia, analogamente, se reportar ao deus dormente, e não menos universal, de Hölderlin – acessível aos olhos atentos dos que sonham. Não sendo muito compreensível, certa vez tive o acesso de uma intuição, na passagem intermediária entre o sono e o despertar. E então, impunemente, pretendi exaurir essa imagem que me assediava; em um instante, no mínimo, insuspeito. De súbito, como que para impedir o esquecimento do que vira, levantei (não sei ao certo se efetivamente adormecido), e rabisquei as seguintes palavras (‘A Felicidade Cega’:https://apalavradescoberta.wordpress.com/2015/04/22/a-felicidade-cega/). Daquele dia em diante, comecei a entender o sentido das palavras de Schopenhauer: “ A vida e os sonhos são as páginas de um livro único; a leitura seguida dessas páginas é o que se chama a vida real; mas quando o tempo habitual da leitura (o dia) passa, e chega a hora do repouso, continuamos a folhear negligentemente o livro, abrindo-o ao acaso nesse ou naquele lugar, e caindo ora em uma página já lida, ora em outra que não conhecemos.” Entre tais páginas, ouso imaginar passagens que só são acessíveis àqueles que, ao despertarem, continuam sonhando.
Fonte:https://apalavradescoberta.wordpress.com/2016/02/12/as-afinidades-eletivas-de-um-sonho/