AS PLANTAS TÊM ALMA ? O QUE DIZ A DOUTRINA ESPÍRITA


As plantas



As plantas têm consciência de sua existência?
Não. Elas não pensam, não têm mais do que a vida orgânica.

As plantas teem sensações, sofrem quando mutiladas?
As plantas recebem as impressões físicas da ação sobre a matéria, mas não teem percepções, por conseguinte, não têm a sensação de dor.

A força que atrai as plantas, umas para as outras, é independente da sua vontade?
Sim, pois elas não pensam. É uma força mecânica que age na matéria: elas não poderiam opor-se.

Não há nas plantas, como nos animais, um instinto de conservação que os leva a procurar aquilo que lhes pode ser útil e a fugir ao que lhes pode prejudicar?
Há uma espécie de instinto: isso depende da extensão que se tribua a essa palavra, mas é puramente mecânico.
Quando, nas reações químicas, vemos dois corpos se unirem, é que eles se afinam, quer dizer, que há afinidades entre eles, mas não se chama isso de instinto.

Os animais e o Homem


Podemos dizer que os animais só agem por instinto?

Embora o instinto domine na maioria dos animais, não vemos alguns que agem por uma vontade determinada? É que teem inteligência, mas ela é limitada.

Os animais teem linguagem?
Se pensarmos numa linguagem formada de palavras e sílabas, não; mas num meio de se comunicarem entre si, sim. Eles se dizem muito mais coisas do que podemos supor, mas a sua linguagem é limitada, como as suas próprias idéias, às suas necessidades.

Os animais teem livre arbítrio?
Eles não são simples máquinas, como poderíamos supor, mas sua liberdade de ação é limitada pelas suas necessidades, e não pode ser comparada à do homem. Sendo muito inferiores a este, não teem os mesmos deveres. Sua liberdade é restrita aos atos da vida material.

Se os animais teem uma inteligência que lhes dá uma certa liberdade de ação, há neles um princípio independente da matéria?
Sim, e que sobrevive ao corpo.

Esse princípio é uma alma semelhante à do homem?
É também uma alma, mas isso depende do sentido em que se tome a palavra; mas é inferior à do homem. Há, entre a alma dos animais e a do homem, tanta distância quanto entre a alma do homem e Deus.

A alma dos animais conserva após a morte sua individualidade e a consciência de si mesma?
Sua individualidade sim, mas não a consciência de si mesma. A vida inteligente permanece em estado latente.

A alma dos animais pode escolher a espécie em que prefira encarnar-se?
Não, ela não tem o livre-arbítrio.

A alma do animal, sobrevivendo ao corpo fica num estado errante como a do homem após a morte?
Fica numa espécie de erraticidade, pois não está unida a um corpo. mas não é um espírito errrante. O Espírito errante é um ser que pensa e age por sua livre vontade; o dos animais não tem a mesma faculdade. É a consciência de si mesmo que constitui o atributo principal do Espírito. O Espírito do animal é classificado, após a morte, pelos Espíritos incumbidos disso e utilizado imediatamente: não dispõe de tempo para se por em relação com outras criaturas.

Os animais seguem uma lei progressiva como os homens?
Sim, e é por isso que nos mundos superiores onde os homens são mais adiantados, os animais também o são, dispondo de meios de comunicação mais desenvolvidos. São, porém, sempre inferiores e submetidos aos homens, sendo, para estes, servidores inteligentes.

O Espírito que animou o corpo de um homem poderia encarnar-se num animal?
Isso seria retrogradar, e o Espírito não retrograda. O rio não remonta à nascente.

Mediunidade nos animais

Podem os animais ser médiuns?

“Primeiramente, que é um médium? É o ser, é o indivíduo que serve de traço de união aos espíritos, para que estes possam comunicar-se com os homens: Espíritos encarnados. Por conseguinte, sem médium, não há comunicações tangíveis, mentais, escritas, físicas, de qualquer natureza que seja. Dizem que: Os espíritos “mediunizam” a matéria inerte e fazem que se movam cadeiras mesas, pianos. Fazem que se movam sim, “mediunizam”, não!

É certo que os espíritos podem tornar-se visíveis e tangíveis aos animais e, muitas vezes, o terror súbito que eles denotam, sem que lhe percebais a causa, é determinado pela visão de um ou de muitos Espíritos, mal-intencionados com relação aos indivíduos presentes, ou com relação aos donos dos animais. Ainda com mais freqüência vedes cavalos que se negam a avançar ou a recuar, ou que empinam diante de um obstáculo imaginário. O obstáculo imaginário é quase sempre um Espírito ou um grupo de Espíritos que se comprazem em impedi-los de mover-se. Mas, repito, os Espíritos não mediunizam diretamente nem os animais, nem a matéria inerte. É-lhes sempre necessário o concurso consciente, ou inconsciente, de um médium humano,porque precisam da união de fluídos similares, o que não se acha nem nos animais, nem na matéria bruta.

O Sr. T...., diz-se, magnetizou o seu cão. A que resultado chegou? Matou-o, porquanto o infeliz animal morreu, depois de haver caído numa espécie de atonia, de langor, conseqüentes à sua magnetização. Com efeito, saturando-o de um fluído haurido numa essência superior à essência especial de sua natureza de cão, ele o esmagou, agindo sobre o animal à semelhança de um raio, ainda que mais lentamente. Assim, pois, como não há assimilação possível entre o nosso períspirito e o envoltório fluídico dos animais, propriamente ditos, aniquila-los-íamos instantaneamente, se os mediunizássemos.
Reconhecemos que há nos animais aptidões diversas; que certos sentimentos, certas paixões , idênticas às paixões e aos sentimentos humanos, se desenvolvem neles; que são sensíveis e reconhecidos, vingativos e odientos, conforme se procede bem ou mal com eles. É que Deus, que nada fez incompleto, deu aos animais, companheiros ou servidores do homem, qualidades de sociabilidade, que faltam inteiramente aos animais selvagens, habitantes das solidões. Mas, daí a poderem servir de intermediários para a transmissão do pensamento dos Espíritos, há um abismo: a diferença das naturezas.
Sabeis que tomamos ao cérebro do médium os elementos necessários a dar ao nosso pensamento uma forma que vos seja sensível e apreensível; é com o auxílio dos materiais que possui, que o médium traduz o nosso pensamento em linguagem vulgar. Ora bem! Que elementos encontraríamos no cérebro de um animal? Tem ele ali palavras, números, letras, sinais quaisquer, semelhantes aos que existem no homem, mesmo no menos inteligente? Entretanto, direis, os animais compreendem o pensamento do homem, adivinham-no até. Sim, os animais educados compreendem certos pensamentos, mas já os vistes alguma vez reproduzi-los? Não. Deveis então concluir que os animais não podem servir de intérpretes.
Resumindo: os fatos mediúnicos não podem dar-se sem o concurso consciente, ou insconsciente, dos médiuns; e somente entre os encarnados, Espíritos como nós, podemos encontrar os que nos sirvam de médiuns. Quanto a educar cães, pássaros, ou outros animais, para fazerem tais ou tais exercícios, é trabalho vosso e não nosso.” Erasto

Fonte:
O Livro dos Espíritos – Allan Kardec
O Livro dos Médiuns – Allan Kardec

Fonte do Texto:http://www.spiritismo.de/plantas.htm

O Livro dos Espíritos


por ALLAN KARDEC – tradução de José Herculano Pires


    585. Que pensais da divisão da Natureza em três reinos, ou ainda em duas classes: os seres orgânicos e os seres inorgânicos? Alguns fazem da espécie humana um quarto reino. Qual dessas divisões é a preferível?
— Todas são boas: isso depende do ponto de vista. Encarados sob o aspecto material, não há senão seres orgânicos e seres inorgânicos; do ponto de vista moral, há, evidentemente, quatro graus.
Comentário de Kardec: Esses quatro graus têm, com efeito, caracteres bem definidos; embora pareçam confundir-se os seus limites. A matéria inerte, que constitui o reino mineral, não possui mais do que uma força mecânica; as plantas, compostas de matéria inerte, são dotadas de vitalidade; os animais, compostos de matéria inerte e dotados de vitalidade, têm também uma espécie de inteligência instintiva, limitada, com a consciência de sua existência e de sua individualidade; o homem, tendo tudo o que existe nas plantas e nos animais, domina todas as outras classes por uma inteligência especial ilimitada(l) que lhe dá a consciência do seu futuro, a percepção das coisas extra-materiais e o conhecimento de Deus.
      586. As plantas têm consciência de sua existência?
      — Não. Elas não pensam; não têm mais do que a vida orgânica.
      587. As plantas têm sensações; sofrem, quando mutiladas?
      — As plantas recebem as impressões físicas da ação sobre a matéria, mas não têm percepções, por conseguinte, não têm a sensação de dor.
      588. A força que atrai as plantas, umas para as outras, é independente da sua vontade?
      — Sim, pois elas não pensam. É uma força mecânica da matéria que age na matéria: elas não poderiam opor-se.
      589. Certas plantas, como a sensitiva e a dionéia, por exemplo, têm movimentos que acusam uma grande sensibilidade e em alguns casos uma espécie de vontade, como a última, cujos lóbulos apanham a mosca que vem pousar sobre ela para sugar-lhe o suco, e à qual ela parece haver preparado uma armadilha para matar. Essas plantas são dotadas da faculdade de pensar? Têm uma vontade e formam uma classe intermediária entre a natureza vegetal e a animal? Constituem uma transição de uma para a outra?
      — Tudo é transição na Natureza, pelo fato mesmo de que nada é semelhante, e no entanto tudo se liga. As plantas não pensam e por conseguinte não têm vontade. A ostra que se abre e todos os zoófitos não têm pensamento: nada mais possuem que um instinto natural e cego.
Comentário de Kardec: O organismo humano nos fornece exemplos de movimentos analógicos, sem a participação da vontade, como as funções digestivas e circulatórias. O piloro se fecha ao contato de certos corpos para negar-lhes passagem. O mesmo deve acontecer com a sensitiva, nu qual os movimentos não implicam absolutamente a necessidade de uma percepção, e menos ainda de uma vontade.
     590. Não há nas plantas, como nos animais, um instinto de conservação que o leva a procurar aquilo que lhes pode ser útil e a fugir ao que lhes pode prejudicar?
     — Há, se o quiserdes, uma espécie de instinto; isso depende da extensão que se atribua a essa palavra; mas é puramente mecânico. Quando, nas reações químicas, vedes dois corpos se unirem, é que eles se afinam, quer dizer que há afinidades entre eles; mas não chamais a isso de instinto.
     591. Nos mundos superiores as plantas são, com os outros seres, de natureza mais perfeita?
     — Tudo é mais perfeito; mas as plantas são sempre plantas, como os animais são sempre animais e os homens sempre homens(1).


(l) A inteligência do homem é ilimitada em face da inteligência limitada do animal. O texto francês diz “indefinie”, geralmente traduzido por indefinida. Embora a palavra indefinido tenha, também em português, o sentido de sem limites, parece-nos que a tradução mais clara é a que fizemos. (N. do T.)

(1) Algumas pessoas fazem desta resposta uma negação da continuidade evolutiva das coisas e dos seres. O leitor deve considerar que a resposta se refere à condição dos mundos superiores, onde há plantas, animais e homens, como nos inferiores, mas em escala avançada. A palavra sempre não é empregada aí no sentido de eternidade, o que seria contrariar os princípios espíritas. Quer dizer apenas que os três reinos existem sempre em todos os mundos aqui referidos. Ver os itens 604, 607 e 607.

Fonte:https://livrodosespiritos.wordpress.com/mundo-dos-espiritos/cap-11-os-tres-reinos/i-os-minerais-e-as-plantas/

O Livro dos Espíritos

Parte Segunda – Capítulo 11

Os três reinos

Os minerais e as plantas – Os animais e o homem – Metempsicose

Os minerais e as plantas

585 Que pensais da divisão da natureza em três reinos, ou melhor, em duas classes: os seres orgânicos e os inorgânicos1? Alguns fazem da espécie humana uma quarta classe2. Qual dessas divisões é preferível?
– Todas são boas, dependendo do ponto de vista. Sob o ponto de vista material, há apenas seres orgânicos e inorgânicos; sob o ponto de vista moral há, evidentemente, quatro graus.
 Esses quatro graus têm, de fato, características nítidas, ainda que seus limites pareçam se confundir. A matéria inerte, que constitui o reino mineral, tem somente uma força mecânica. As plantas, ainda que compostas de matéria inerte, são dotadas de vitalidade. Os animais, compostos de matéria inerte e dotados de vitalidade, têm além disso uma espécie de inteligência instintiva, limitada, com a consciência de sua existência e de sua individualidade. O homem, tendo tudo o que há nas plantas e nos animais, domina todas as outras classes por uma inteligência especial, sem limites fixados, que lhe dá a consciência de seu futuro, a percepção das coisas extramateriais e o conhecimento de Deus.
586 As plantas têm consciência de sua existência?
– Não; elas não pensam, têm apenas a vida orgânica.
587 As plantas têm sensações? Elas sofrem quando são mutiladas?
– As plantas recebem impressões físicas que agem sobre a matéria, mas não têm percepções e, portanto, não têm a sensação da dor.
588 A força que atrai as plantas umas às outras é independente de sua vontade?
– Sim, uma vez que não pensam. É uma força mecânica da matéria agindo sobre a matéria; elas não poderiam se opor a isso.
589 Algumas plantas, como a sensitiva e a dionéia3, por exemplo, têm movimentos que demonstram uma grande sensibilidade e em alguns casos uma espécie de vontade. A dionéia, cujos lóbulos capturam a mosca que nela pousa, parece preparar uma armadilha para matá-la. Essas plantas são dotadas da faculdade de pensar? Têm uma vontade e formam uma classe intermediária entre a natureza vegetal e a natureza animal? São uma transição de uma para a outra?
– Tudo é uma transição na natureza, pelo próprio fato de que nada é semelhante e que, entretanto, tudo se liga. As plantas não pensam e, por conseguinte, não têm vontade. A ostra que se abre e todos os zoófitos4 não pensam: há neles apenas um instinto cego e natural.
 O organismo humano fornece exemplos de movimentos semelhantes sem a participação da vontade, como nas funções digestivas e circulatórias; o piloro5 se contrai ao contato de alguns corpos para lhes impedir a passagem. Deve ocorrer o mesmo com a sensitiva, na qual os movimentos não implicam, de modo algum, a necessidade de uma percepção e ainda menos de uma vontade.
590 As plantas têm, como os animais, um instinto de conservação que as leva a procurar o que lhes pode ser útil e a fugir do que as pode prejudicar?
– Sim, têm, pode-se dizer, uma espécie de instinto, isso dependendo da extensão que se dá a essa palavra; mas é um instinto puramente mecânico. Quando, nas operações de química, vedes dois corpos se reunirem, é porque se ajustam, ou seja, há afinidade entre eles; mas não chamais isso de instinto.
591 Nos mundos superiores as plantas são, como os outros seres, de uma natureza mais perfeita?
– Tudo é mais perfeito; mas nesses mundos superiores as plantas são sempre plantas, os animais são sempre animais e os homens, sempre homens.

Os animais e o homem

592 Se compararmos o homem e os animais sob o ponto de vista da inteligência, a linha de demarcação parece difícil de se estabelecer, porque alguns animais têm, sob esse aspecto, uma superioridade notória sobre alguns homens. Essa linha pode ser estabelecida de uma maneira precisa?
– Sobre esse ponto vossos filósofos não estão de acordo em quase nada: uns querem que o homem seja um animal e outros que o animal seja um homem; todos estão errados. O homem é um ser à parte que desce muito baixo algumas vezes, ou que pode se elevar bem alto. Fisicamente o homem é como os animais, e até menos dotado que muitos deles; a natureza deu aos animais tudo o que o homem é obrigado a inventar com sua inteligência para satisfazer suas necessidades e sua conservação. É verdade que seu corpo se destrói como o dos animais, mas seu Espírito tem uma destinação que somente ele pode compreender, porque apenas o homem é completamente livre. Pobres homens que vos rebaixais além da brutalidade! Não sabeis vos distinguir? Reconhecei o homem pelo sentimento que ele tem da existência de Deus.
593 Pode-se dizer que os animais agem apenas por instinto?
– Ainda assim é um sistema. É bem verdade que o instinto domina na maioria dos animais, mas não vedes que muitos agem com uma vontade determinada? É inteligência, porém limitada.
 Além do instinto, não há como negar a alguns animais atos combinados que expressam uma vontade de agir num sentido determinado e de acordo com as circunstâncias. Há neles uma espécie de inteligência, cujo exercício é mais exclusivamente concentrado sobre os meios de satisfazerem suas necessidades físicas e proverem à sua conservação. Entre eles, não há nenhuma criação, nenhum melhoramento; qualquer que seja a arte com que executem seus trabalhos, fazem hoje o que faziam antigamente, nem melhor, nem pior, conforme formas e proporções constantes e invariáveis. O filhote, isolado da sua espécie, não deixa de construir seu ninho com o mesmo modelo sem ter recebido o ensinamento. Se alguns são suscetíveis6 de uma certa educação, seu desenvolvimento intelectual, sempre restrito a limites estreitos, é motivado pela ação do homem sobre uma natureza flexível, uma vez que não fazem nenhum progresso próprio. Mesmo o que alcançam pela ação do homem é um progresso efêmero e puramente individual, já que o animal, entregue a si mesmo, não tarda a retornar aos limites que a Natureza lhe traçou.
594 Os animais têm uma linguagem?
– Uma linguagem formada de palavras e de sílabas, não; mas de um meio de se comunicarem entre eles, sim. Dizem muito mais coisas do que acreditais; mas sua linguagem é limitada às suas necessidades, como suas idéias.
594 a Há animais que não têm voz; ao que parece esses não têm linguagem?
– Eles se compreendem por outros meios. Vós, homens, tendes apenas as palavras para se comunicarem? E os mudos, que dizeis deles? Os animais, sendo dotados da vida de relação, têm meios de se informar e de exprimir as suas sensações. Acreditais que os peixes não se entendem entre si? O homem não tem o privilégio exclusivo da linguagem; embora a dos animais seja instintiva e limitada ao círculo de suas necessidades e idéias, enquanto a do homem é passível de ser aperfeiçoada e se presta a todas as concepções de sua inteligência.
 Os peixes, de fato, que emigram em massa, e as andorinhas, que obedecem ao guia que as conduz, devem ter meios de se informarem, se entenderem e se combinarem. Talvez por terem uma visão mais penetrante que lhes permita distinguir os sinais que fazem; talvez também a água seja um veículo que lhes transmita certas vibrações. O que quer que seja, é incontestável que têm um meio de se entenderem, ocorrendo o mesmo com todos os animais privados da voz e que fazem trabalhos em comum. Que estranheza pode causar, depois disso, que os Espíritos possam se comunicar entre si sem a ajuda da palavra articulada? (Veja a questão 282.)
595 Os animais têm o livre-arbítrio de seus atos?
– Eles não são simples máquinas, como se pode supor; mas sua liberdade de ação é limitada às suas necessidades e não se pode comparar à do homem. Sendo muito inferiores ao homem, não têm os mesmos deveres. Sua liberdade é restrita aos atos da vida material.
596 De onde vem a aptidão de alguns animais em imitar a linguagem do homem e por que essa aptidão se encontra mais nos pássaros do que no macaco, por exemplo, cuja conformação tem mais semelhança com o homem?
– É pela conformação particular dos órgãos da voz, favorecida pelo instinto de imitação; o macaco imita os gestos, alguns pássaros imitam a voz.
597 Se os animais têm uma inteligência que lhes dá uma certa liberdade de ação, há neles um princípio independente da matéria?
– Sim, e que sobrevive ao corpo.
597 a Esse princípio é uma alma semelhante à do homem?
– É também uma alma, se quiserdes, depende do sentido que se dá a essa palavra; mas é inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e a do homem tanta distância quanto há entre a alma do homem e Deus.
598 A alma dos animais conserva, após a morte, sua individualidade e a consciência de si mesma?
– Sua individualidade, sim, mas não a consciência de seu eu. A vida inteligente continua no estado latente7.
599 A alma dos animais tem a escolha de encarnar em um animal em vez de outro?
– Não; ela não tem o livre-arbítrio.
600 A alma do animal, sobrevivendo ao corpo, estará, depois da morte, na erraticidade, como a do homem?
– É uma espécie de erraticidade, uma vez que não está mais unida ao corpo, mas não é um Espírito errante. O Espírito errante é um ser que pensa e age de acordo com sua livre vontade; o dos animais não tem a mesma faculdade. A consciência de si mesmo é o que constitui o atributo principal do Espírito. O espírito do animal é classificado após sua morte pelos Espíritos a quem compete essa tarefa e quase imediatamente utilizado; não há tempo de se colocar em relação com outras criaturas.
601 Os animais seguem uma lei progressiva, como os homens?
– Sim, por isso, nos mundos superiores, onde os homens são mais avançados, os animais também o são, tendo meios de comunicação mais desenvolvidos; mas são sempre inferiores e submissos ao homem, são para ele servidores inteligentes.
 Não há nada de extraordinário nisso. Imaginemos nossos animais, os mais inteligentes, o cão, o elefante, o cavalo, com uma conformação apropriada aos trabalhos manuais. Que não poderiam fazer sob a direção do homem?
602 Os animais progridem, como o homem, pela ação de sua vontade ou pela força das coisas?
– Pela força das coisas; é por isso que para eles não há expiação.
603 Nos mundos superiores, os animais conhecem Deus?
– Não; para eles o homem é um deus, como antigamente os Espíritos foram deuses para os homens.
604 Os animais, mesmo os aperfeiçoados nos mundos superiores, são sempre inferiores ao homem. Isso significa que Deus teria criado seres intelectuais perpetuamente destinados à inferioridade, o que parece estar em desacordo com a unidade de vistas e de progresso que se distingue em todas as suas obras.
– Tudo se encaixa na natureza pelos laços que não podeis ainda compreender, e as coisas mais desiguais na aparência têm pontos de contato que o homem nunca chegará a compreender na sua condição atual. Ele pode entrevê-los pelo esforço de sua inteligência, mas somente quando essa inteligência tiver adquirido todo desenvolvimento e estiver livre dos preconceitos do orgulho e da ignorância é que poderá ver claramente na obra de Deus. Enquanto isso não acontece, suas idéias limitadas lhe fazem ver as coisas sob um ponto de vista mesquinho e restrito. Sabei bem que Deus não pode se contradizer e que tudo, na natureza, se harmoniza pelas leis gerais que nunca se afastam da sublime sabedoria do Criador.
604 a A inteligência é, assim, uma propriedade comum, um ponto de contato entre a alma dos animais e a do homem?
– Sim, mas os animais têm apenas a inteligência da vida material; para o homem, a inteligência produz a manifestação da vida moral.
605 Se considerássemos todos os pontos de contato entre o homem e os animais, não poderíamos deduzir que o homem possui duas almas: a alma animal e a alma espírita e que, se não tivesse essa última, poderia viver como o animal? De outro modo, pode-se considerar que o animal é um ser semelhante ao homem, tendo menos alma espírita? Isso não significaria que os bons e os maus instintos do homem seriam o efeito da predominância de uma dessas duas almas?
– Não. O homem não tem duas almas; mas os corpos têm instintos que são o resultado da sensação dos órgãos. Há nele apenas uma dupla natureza: a natureza animal e a natureza espiritual. Pelo seu corpo, participa da natureza dos animais e seus instintos; pela sua alma, participa da natureza dos Espíritos.
605 a Assim, além de suas próprias imperfeições, das quais o Espírito deve se despojar, o homem tem ainda que lutar contra a influência da matéria?
– Sim, quanto mais é inferior mais os laços entre o Espírito e a matéria são unidos; não o vedes? O homem não tem duas almas;a alma é sempre única em cada ser. A alma do animal e a do homem são distintas uma da outra, de modo que a alma de um não pode animar o corpo criado para a outra. Mas, ainda que o homem não tenha alma animal que, por suas paixões, o nivele aos animais, tem o corpo que muitas vezes o rebaixa a eles, porque seu corpo é um ser dotado de vitalidade, que tem instintos, porém ininteligentes e limitados ao cuidado de sua conservação.
 O Espírito, ao encarnar no corpo do homem, traz o princípio intelectual e moral que o torna superior aos animais. As duas naturezas que existem no homem dão às suas paixões duas origens diferentes: uma vem dos instintos da natureza animal, outra das impurezas do Espírito encarnado e que simpatiza mais ou menos com a grosseria dos apetites animais. Purificando-se, o Espírito se liberta pouco a pouco da influência da matéria. Submisso a essa influência, se aproxima da brutalidade; despojado dela, se eleva à sua verdadeira destinação.
606 De onde os animais tiram o princípio inteligente que constitui a espécie particular de alma, da qual são dotados?
– Do elemento inteligente universal.
606 a A inteligência do homem e a dos animais vêm de um princípio único?
– Sem dúvida. Mas no homem ela recebeu uma elaboração que o eleva acima do animal.
607 Foi dito que a alma do homem, em sua origem, está no estado semelhante ao da infância da vida corporal, que sua inteligência apenas desabrocha e ela ensaia para a vida. (Veja a questão 190.) Onde o Espírito cumpre essa primeira fase?
– Em uma série de existências anteriores ao período que chamais humanidade.
607 a Assim, pode-se considerar que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres inferiores da Criação?
– Não dissemos que tudo se encadeia na natureza e tende à unidade? É nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, individualiza-se pouco a pouco e ensaia para a vida, como já dissemos. É, de algum modo, um trabalho preparatório, como a germinação, em que o princípio inteligente sofre uma transformação e torna-se Espírito. É então que começa o período da humanização e com ela a consciência de seu futuro, a distinção entre o bem e o mal e a responsabilidade de seus atos. Assim como depois da infância vem a adolescência, depois a juventude e, enfim, a idade adulta. Não há, além disso, nessa origem nada que deva humilhar o homem. Será que os grandes gênios se sentirão humilhados por terem sido fetos em formação no seio de sua mãe? Se alguma coisa deve humilhá-lo é sua inferioridade perante Deus e sua impotência para sondar a profundidade dos seus desígnios e a sabedoria das leis que regem a harmonia do universo. Reconhecei a grandeza de Deus nessa harmonia admirável que faz com que tudo seja solidário na natureza. Acreditar que Deus pudesse fazer alguma coisa sem objetivo e ter criado seres inteligentes sem futuro seria blasfemar contra sua bondade, que se estende sobre todas as suas criaturas.
607 b Esse período de humanização começa na nossa Terra?
– A Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana; o período de humanização começa, em geral, nos mundos ainda mais inferiores; entretanto, essa não é uma regra geral, e poderia acontecer que um Espírito, desde o começo de sua humanização, estivesse apto a viver na Terra. Esse caso não é freqüente; é, antes, uma exceção.
608 O Espírito do homem, após a morte, tem consciência das existências anteriores ao seu período de humanidade?
– Não, porque não é nesse período que se inicia para ele sua vida de Espírito e é até mesmo difícil se lembrar de suas primeiras existências como homem, assim como o homem não se lembra mais dos primeiros tempos de sua infância e ainda menos do tempo que passou no seio de sua mãe. É por isso que os Espíritos dizem que não sabem como começaram. (Veja a questão 78.)
609 O Espírito, entrando no período de humanidade, conserva traços do que foi antes, do período que se poderia chamar pré-humano?
– Depende da distância que separa os dois períodos e o progresso realizado. Durante algumas gerações, pode ter sinais mais ou menos pronunciados do estado primitivo, porque nada na natureza se faz por transição brusca, sempre há anéis que ligam as extremidades das cadeias dos seres e acontecimentos; mas esses traços se apagam com o desenvolvimento do livre-arbítrio. Os primeiros progressos se realizam muito lentamente, porque ainda não estão alicerçados, determinados pela vontade; mas eles seguem uma progressão mais rápida à medida que o Espírito adquire uma consciência mais perfeita de si mesmo.
610 Os Espíritos que disseram que o homem é um ser à parte na ordem da Criação estão enganados?
– Não; mas a questão não foi explicada e, aliás, há coisas que só a seu tempo podem ser esclarecidas. O homem é, de fato, um ser à parte, uma vez que tem faculdades que o distinguem de todos os outros e tem outra destinação. A espécie humana é a que Deus escolheu para a encarnação dos seres que podem conhecê-lo.

Metempsicose

611 O fato de ser comum a origem do princípio inteligente dos seres vivos não é a consagração da doutrina da metempsicose?
– Duas coisas podem ter a mesma origem e não se parecerem em nada mais tarde. Quem reconheceria a árvore, suas folhas, flores e frutos no germe sem forma contido na semente de onde saiu? A partir do momento que o princípio inteligente atinge o estágio necessário para ser Espírito e entrar no período de humanização, não tem mais relação com seu estado primitivo e não é mais a alma dos animais, como a árvore não é a semente. No homem, não há mais do animal senão o corpo e as paixões que nascem da influência do corpo e do instinto de conservação inerente à matéria. Não se pode, portanto, dizer que aquele homem é a encarnação do Espírito de tal animal e, assim, a metempsicose, tal como se entende, não é exata.
612 O Espírito que animou o corpo de um homem poderia encarnar em um animal?
– Isso seria retroceder e o Espírito não retrocede. O rio não retorna à sua fonte. (Veja a questão 118.)
613 Por mais errada que seja a idéia ligada à metempsicose, não seria resultado do sentimento intuitivo das diferentes existências do homem?
– Esse sentimento intuitivo se encontra nessa crença como em muitas outras; mas, como faz com a maioria de suas idéias intuitivas, o homem alterou sua natureza.
 Seria verdadeira a idéia da metempsicose se ela definisse como sendo a progressão da alma de um estado inferior a um estado superior em que adquirisse desenvolvimentos que transformassem sua natureza. Porém, é falsa no sentido de transmigração direta do animal para o homem e vice-versa, o que dá idéia de um retrocesso ou de uma fusão; portanto, essa fusão não poderia acontecer entre seres corporais de duas espécies, porque seria indício de que estão em graus não assimiláveis e deve acontecer o mesmo com os Espíritos que as animam. Se o mesmo Espírito pudesse animá-las alternativamente, haveria, conseqüentemente, uma identidade de natureza que se traduziria na possibilidade da reprodução física.
A reencarnação ensinada pelos Espíritos está fundada, em contrário, sobre a marcha ascendente da natureza e a progressão do homem em sua própria espécie, o que não tira em nada sua dignidade. O que o rebaixa é o mau uso que faz das faculdades que Deus lhe deu para o seu adiantamento. Seja como for, a antiguidade e a universalidade da doutrina da metempsicose, assim como os homens eminentes que a professaram, provam que o princípio da reencarnação tem raízes na própria natureza; esses são, portanto, argumentos antes a seu favor do que contrários.
O ponto de partida dos Espíritos é uma dessas questões que se ligam ao princípio das coisas e que estão nos segredos de Deus. Não é permitido ao homem conhecê-lo de maneira absoluta, e ele somente pode fazer a esse respeito suposições, construir sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios Espíritos estão longe de conhecer tudo; sobre o que não sabem podem também ter opiniões pessoais mais ou menos sensatas.
É assim, por exemplo, que nem todos pensam a mesma coisa a respeito das relações que existem entre o homem e os animais. Segundo alguns, o Espírito só alcança o período de humanidade após ter sido elaborado e individualizado nos diferentes graus dos seres inferiores da Criação; segundo outros, o Espírito do homem teria sempre pertencido à raça humana, sem passar pela experiência animal.
O primeiro desses sistemas tem a vantagem de dar um objetivo ao futuro dos animais, que formariam assim os primeiros anéis da cadeia dos seres pensantes; o segundo está mais de acordo com a dignidade do homem e pode se resumir no seguinte modo:
As diferentes espécies de animais não procedem intelectualmente umas das outras pelo caminho da progressão; assim, o espírito da ostra não se torna sucessivamente o do peixe, do pássaro, do quadrúpede e do quadrúmano8. Cada espécie constitui um tipo absoluto, física e moralmente, e cada indivíduo tira na fonte universal a soma do princípio inteligente que lhe é necessário, segundo a perfeição de seus órgãos e a obra que deve cumprir nos fenômenos da natureza, e que, em sua morte, volta à fonte universal. As espécies de animais dos mundos mais avançados que o nosso (veja a questão 188) são igualmente raças distintas, apropriadas às necessidades desses mundos e ao grau de adiantamento dos homens de lá, dos quais são auxiliares, mas que não procedem daqueles da Terra, espiritualmente falando. Não ocorre o mesmo com o homem. Do ponto de vista físico, ele forma evidentemente um anel da cadeia dos seres vivos; mas, do ponto de vista moral, entre o animal e o homem há uma separação. O homem possui alma ou Espírito, a centelha divina que lhe dá o sentido moral e um valor intelectual que falta aos animais e é nele o ser principal, preexistindo e sobrevivendo ao corpo ao conservar sua individualidade. Qual é a origem do Espírito? Onde está seu ponto de partida? Forma-se a partir do princípio inteligente individualizado? Está aí um mistério que seria inútil tentar penetrar e sobre o qual, como já dissemos, não se pode construir mais do que sistemas. O que é constante e resulta ao mesmo tempo do raciocínio e da experiência é a sobrevivência do Espírito, a conservação de sua individualidade após a morte, sua faculdade progressiva, seu estado feliz ou infeliz de acordo com seu adiantamento no caminho do bem e todas as verdades morais que são a conseqüência desse princípio. Quanto às relações misteriosas que existem entre os homens e os animais, está aí, nós repetimos, o segredo de Deus, como muitas outras coisas cujo conhecimento atual não importa ao nosso adiantamento e sobre as quais seria inútil insistir.

1 - Seres orgânicos são aqueles que têm vida e, por isso, um organismo. Os inorgânicos não possuem órgãos nem vida (N. E.).
2 -Quarta classe: a do homem; a terceira é a dos animais irracionais (N. E.).
3 -Dionéia: planta carnívora própria de lugares úmidos (N. E.).
4 -Zoófito: espécie animal a qual pertencem os corais e as esponjas marinhas ou de água doce que têm formas semelhantes às das plantas (N. E.).
 5 -Piloro: orifício na parte inferior do estômago que o liga com o duodeno. Possui uma válvula que regula o bolo alimentar para o intestino e impede a volta de material do intestino para o estômago (N. E.).
6 -Suscetível: sujeito a receber impressões, modificações ou adquirir qualidades (N. E.).
7 -Estado latente: neste caso (fig.), oculto, não manifesto. Aguardando o momento propício para vir à luz (N. E.).
8 -Quadrúmano: que tem quatro mãos; macaco (N. E.).

Fonte:http://www.espirito.org.br/portal/codificacao/le/le-2-11.html

 
A alma dorme no mineral?
 Parte 1   
 

É comum ouvirmos a frase: "A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem", cuja autoria é atribuída a Léon Denis. Só que, curiosamente, até hoje ninguém nos demonstrou que, de fato, ele tenha dito exatamente isso. Mas, na busca em que nos empenhamos para encontrá-la, acabamos por nos deparar com a frase verdadeira, vejamo-la: Na planta, a inteligência dormita; no animal, sonha; só no homem acorda, conhece-se, possui-se e torna-se consciente; a partir daí, o progresso, de alguma sorte fatal nas formas inferiores da Natureza, só se pode realizar pelo acordo da vontade humana com as leis Eternas. (DENIS, 1989, p. 123.) (Grifo nosso.)
Obviamente que, mesmo em sentido figurado, “dormir na planta” não é a mesma coisa que “dormir na pedra”, que é um assunto que ainda causa polêmica em nosso meio. Bom, a questão é saber se o sucessor do codificador contrariou aquilo que foi dito por ele. Particularmente, acreditamos que não.
Inicialmente recorreremos ao que ele, Kardec, disse na Introdução da primeira edição de O Livro dos Espíritos: Qualquer que seja, é um fato que não se pode contestar, pois é um resultado de observação, é que os seres orgânicos têm em si uma força íntima que produz o fenômeno da vida, enquanto essa força existe; que a vida material é comum a todos os seres orgânicos e que ela é independente da inteligência e do pensamento: que a inteligência e o pensamento são faculdades próprias de certas espécies orgânicas; enfim, que entre as espécies orgânicas dotadas de inteligência e de pensamento, há uma dotada de um senso moral especial que lhe dá incontestável superioridade sobre as outras, é a espécie humana. Nós chamamos, enfim, inteligência animal ao princípio intelectual comum aos diversos graus nos homens e nos animais, independente do princípio vital, e cuja fonte nos é desconhecida. (KARDEC, 2004, p. 3.) (Grifo nosso.
Os seres orgânicos nascem, crescem, reproduzem-se por si mesmos e morrem 
Isso foi necessário apenas para verificar que, já desde a primeira edição desse livro, Kardec, sem meias palavras, afirma que “a inteligência e o pensamento são faculdades próprias de certas espécies orgânicas”, definindo-as desta forma: Os seres orgânicos são os que têm em si uma fonte de atividade íntima que lhes dá a vida. Nascem, crescem, reproduzem-se por si mesmos e morrem. São providos de órgãos especiais para a execução dos diferentes atos da vida, órgãos esses apropriados às necessidades que a conservação própria lhes impõe. Nessa classe estão compreendidos oshomens, os animais e as plantas. (KARDEC, 2007a, p. 91.) (Grifo nosso.)
E, para que possamos separá-los dos inorgânicos, trazemos também a definição desses: Seres inorgânicos são todos os que carecem de vitalidade, de movimentos próprios e que se formam apenas pela agregação da matéria. Tais são os minerais, a água, o ar etc. (KARDEC, 2007a, p. 91.) (Grifo nosso.)
Então, segundo Kardec, podemos classificar os seres orgânicos em homens, animais e plantas. Quando, no livro A Gênese, ele estuda o Instinto e a Inteligência (Capítulo III), faz diversas considerações, nas quais vamos encontrar alguma coisa para dirimir possíveis dúvidas.
Diz lá: O instinto é a força oculta que solicita os seres orgânicos a atos espontâneos e involuntários, tendo em vista a conservação deles. Nos atos instintivos não há reflexão, nem combinação, nem premeditação. É assim que a planta procura o ar, se volta para a luz, dirige suas raízes para a água e para a terra nutriente; que a flor se abre e fecha alternativamente, conforme se lhe faz necessário; que as plantas trepadeiras se enroscam em torno daquilo que lhes serve de apoio, ou se lhe agarram com as gavinhas.
É pelo instinto que os animais são avisados do que lhes convém ou prejudica; que buscam, conforme a estação, os climas propícios; que constroem, sem ensino prévio, com mais ou menos arte, segundo as espécies, leitos macios e abrigos para as suas progênies, armadilhas para apanhar a presa de que se nutrem; que manejam destramente as armas ofensivas e defensivas de que são providos; que os sexos se aproximam; que a mãe choca os filhos e que estes procuram o seio materno.
No homem, só em começo da vida o instinto domina com exclusividade; é por instinto que a criança faz os primeiros movimentos, que toma o alimento, que grita para exprimir as suas necessidades, que imita o som da voz, que tenta falar e andar. No próprio adulto, certos atos são instintivos, tais como os movimentos espontâneos para evitar um risco, para fugir a um perigo, para manter o equilíbrio do corpo; tais ainda o piscar das pálpebras para moderar o brilho da luz, o abrir maquinal da boca para respirar etc. (KARDEC, 2007b, p. 89.) (Grifo nosso.
O instinto varia em suas manifestações, conforme às espécies e às suas necessidades 
Nessa fala de Kardec fica claro que ele admite o instinto nas plantas, nos animais e nos homens. Mas, “o que tem a ver instinto com inteligência?”, poderia alguém nos perguntar. Pois bem, essa dúvida foi respondida pelos Espíritos, que afirmaram que o instinto é uma espécie de inteligência, uma inteligência não racional (resposta à pergunta 73).
Um pouco mais à frente, ao comentar a resposta à pergunta 75, o codificador explica: O instinto é uma inteligência rudimentar, que difere da inteligência propriamente dita, em que suas manifestações são quase sempre espontâneas, ao passo que as da inteligência resultam de uma combinação e de um ato deliberado.
O instinto varia em suas manifestações, conforme às espécies e às suas necessidades. Nos seres que têm a consciência e a percepção das coisas exteriores, ele se alia à inteligência, isto é, à vontade e à liberdade. (KARDEC, 2007a, p. 97.) (Grifo nosso.)
Portanto, pela ordem, as plantas, os animais e os homens possuem o princípio inteligente, variando apenas quanto ao grau de sua manifestação. Entretanto, até agora, não há nada atribuindo também aos minerais esse princípio, ou que ele tenha, por alguma vez, estagiado em seres inorgânicos. Coisa difícil de entender, já que esses seres não possuem vitalidade; portanto, não estão sujeitos ao “nascer, crescer e morrer”, ciclo indispensável, segundo acreditamos, para que ocorra o progresso intelectual desse princípio. 
A destruição não passa de uma transformação, que tem por fim a renovação dos seres vivos
O esclarecimento a respeito do instinto de conservação vai nos ajudar a clarear mais ainda essa questão. Lemos em O Livro dos Espíritos:
702. É lei da Natureza o instinto de conservação?
“Sem dúvida. Todos os seres vivos o possuem, qualquer que seja o grau de sua inteligência. Nuns, é puramente maquinal, raciocinado em outros.”
703. Com que fim outorgou Deus a todos os seres vivos o instinto de conservação?
“Porque todos têm que concorrer para cumprimento dos desígnios da Providência. Por isso foi que Deus lhes deu a necessidade de viver. Acresce que a vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres. Eles o sentem instintivamente, sem disso se aperceberem.”
728. É lei da Natureza a destruição?
“Preciso é que tudo se destrua para renascer e se regenerar. Porque, o que chamais destruição não passa de uma transformação, que tem por fim a renovação e melhoria dos seres vivos.” (KARDEC, 2007a, p. 378 e 389.) (Grifo nosso.)
Do que concluímos que todos os seres vivos possuem a inteligência em algum grau, que a vida é necessária a seu progresso e que a destruição é necessária para que isso aconteça; então, no que concerne aos minerais, acreditamos que nada disso se aplica.
Voltando ao livro A Gênese, iremos encontrar uma fala de Kardec que, a nosso ver, põe um ponto final sobre como ele via o assunto.
Vejamos quando ele fala da “União do princípio espiritual e da matéria”, no capítulo XI, item 10: Tendo a matéria que ser o objeto de trabalho do Espírito para o desenvolvimento de suas faculdades, era necessário que ele pudesse atuar sobre ela, pelo que veio habitá-la, como o lenhador habita a floresta. Tendo a matéria que ser, ao mesmo tempo, objetivo e instrumento do trabalho, Deus, em vez de unir o Espírito à pedra rígida, criou, para seu uso, corpos organizados, flexíveis, capazes de receber todas as impulsões da sua vontade e de se prestarem a todos os seus movimentos. O corpo é, pois, simultaneamente, o envoltório e o instrumento do Espírito e, à medida que este adquire novas aptidões, reveste outro envoltório apropriado ao novo gênero de trabalho que deve executar, tal qual se faz com o operário, a quem é dado instrumento menos grosseiro, à proporção que ele se vai mostrando apto a executar obra mais bem cuidada. (KARDEC, 2007b, p. 241-242.) (Grifo nosso.
A matéria inerte, que constitui o reino mineral, só tem em si uma força mecânica 
Pelo que podemos deduzir dessa fala, não há como admitir que o princípio inteligente tenha estagiado nos minerais, a não ser contrariando o que aqui foi dito por Kardec.
Na explicação da resposta à pergunta 71, de O livro dos Espíritos, o codificador faz a seguinte consideração: A inteligência é uma faculdade especial, peculiar a algumas classes de seres orgânicos e que lhes dá, com o pensamento, a vontade de atuar, a consciência de que existem e de que constituem uma individualidade cada um, assim como os meios de estabelecerem relações com o mundo exterior e de proverem às suas necessidades.
Podem distinguir-se assim: 1º. – os seres inanimados, constituídos de matéria, sem vitalidade nem inteligência, que são os corpos brutos; 2º. – os seres animados que não pensam, formados de matéria e dotados de vitalidade, porém, destituídos de inteligência; 3º. – os seres animados pensantes, formados de matéria, dotados de vitalidade e tendo a mais um princípio inteligente que lhes dá a faculdade de pensar. (KARDEC, 2007a, p. 96.) (Grifo nosso.)
Classificam-se, portanto, os reinos da natureza em três: o mineral, o vegetal e o animal, na ordem citada por Kardec. Assim, fica claro, pelo que ele coloca, que o reino mineral não tem vitalidade nem inteligência, o que ainda se confirma neste trecho: “A matéria inerte, que constitui o reino mineral, só tem em si uma força mecânica”. (KARDEC, 2007a, p. 327.) (Grifo nosso.)
Buscando-se também a questão 136a, veremos que a hipótese da presença do princípio inteligente no mineral é de todo improvável, porquanto: “A vida orgânica pode animar um corpo sem alma, mas a alma não pode habitar um corpo privado de vida orgânica”. (KARDEC, 2007a, p. 125.) (Grifo nosso.
A escala orgânica segue em todos os seres, do pólipo ao homem, a progressão da inteligência 
Na Revista Espírita 1868, Kardec tece alguns comentários sobre a crença de que a Terra teria uma alma, que é de interesse ao nosso estudo.
Vejamos: […] A Terra é um ser vivo? Sabemos que certos filósofos, mais sistemáticos do que práticos, consideram a Terra e todos os planetas como seres animados, fundando-se sobre o princípio de que tudo vive na Natureza, desde o mineral até o homem. De início, cremos que há uma diferença capital entre o movimento molecular de atração e de repulsão, de agregação e de desagregação do mineral o princípio vital da planta; há efeitos diferentes que acusam causas diferentes, ou pelo menos uma modificação profunda na causa primeira, se ela for única. (Gênese, cap. X, nº 16 a 19.)
Mas admitamos por um instante que o princípio da vida tenha sua fonte no movimento molecular, não se poderia contestar que seja mais rudimentar ainda no mineral do que na planta; ora, daí a uma alma cujo atributo essencial é a inteligência, a distância é grande; ninguém, cremos, pensou em dotar um calhau ou um pedaço de ferro da faculdade de pensar, de querer e de compreender. Mesmo fazendo todas as concessões possíveis a esse sistema, quer dizer, em nos colocando no ponto de vista daqueles que confundem o princípio vital com a alma propriamente dita. A alma do mineral não estaria senão no estado de germe latente, uma vez que nele não se revela por nenhuma manifestação.
Um fato não menos patente do que aquele que acabamos de falar é que o desenvolvimento orgânico está sempre em relação com o desenvolvimento do princípio inteligente; o organismo se completa à medida que as faculdades da alma se multiplicam. A escala orgânica segue constantemente, em todos os seres, a progressão da inteligência, desde o pólipo até o homem; e isso não poderia ser de outra maneira, uma vez que falta à alma um instrumento apropriado à importância das funções que ela deve preencher. De que serviria à ostra ter a inteligência do macaco sem os órgãos necessários à sua manifestação? Se, pois, a Terra fosse um ser animado servindo de corpo a uma alma especial, esta alma deveria ser ainda mais rudimentar do que a do pólipo, uma vez que a Terra não tem mesmo a vitalidade da planta, ao passo que pelo papel que se atribui a essa alma, sobretudo na teoria da incrustação, dela se faz um ser dotado de razão e do livre-arbítrio mais completo, um Espírito superior, em uma palavra, o que não é nem racional nem conforme à lei geral, porque jamais o Espírito foi mais aprisionado e mais dividido.  
(O presente artigo será concluído na próxima edição desta revista.)


PAULO NETO
paulosnetos@gmail.com

Belo Horizonte, MG (Brasil)

Referências bibliográficas:

DENIS, L. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 1989.
KARDEC, A. A Gênese. Araras-SP: IDE, 1993.
KARDEC, A. Livro dos Espíritos – Primeira edição de 1857. Itaim Bibi, SP: Ipece, 2004.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2007.
KARDEC, A. Revista Espírita 1865. Araras, SP: IDE, 2000a.
KARDEC, A. Revista Espírita 1866. Araras, SP: IDE, 1993b.
KARDEC, A. Revista Espírita 1868. Araras, SP: IDE, 1993a.
XAVIER, F. C. Evolução em Dois Mundos. Rio de Janeiro: FEB, 1987.
XAVIER, F. C. No Mundo Maior. Rio de Janeiro: FEB, 1984.
NETO SOBRINHO, P. S. A alma dos animais: estágio anterior da alma humana? - Divinópolis-MG: Panorama Espírita, 2006.


Fonte:http://www.oconsolador.com.br/ano5/233/especial.html

ESPÍRITO E ALMA NA VISÃO ESPÍRITA


Que é Espírito?
Espírito é o princípio inteligente do Universo. É nele que fica armazenado todo conhecimento que adquirimos através das inúmeras encarnações. O Espírito se utiliza da matéria (corpo físico) para expor sua inteligência aos que não tem mediunidade para vê-los, ou seja, a matéria não tem inteligência.

Qual a diferença de Espírito e alma?
Ambos são a mesma coisa. Só utilizamos o termo ESPÍRITO quando este está desencarnado e ALMAquando o Espírito está encarnado.
Onde moram os Espíritos?
Estes seres inteligentes, quando estão desencarnados, povoam o mundo invisível. Muitos ficam em colônias, outros em regiões umbralinas, há quem continue convivendo com os encarnados para obsediar, por apego aos bens materiais, aos familiares e por  outros tantos motivos, depende do grau de entendimento, desprendimento e evolução de cada um. Mas, quando estão encarnados, ou seja, quando revestem temporariamente um corpo carnal aproveitam para se purificar, esclarecer e evoluir.
Espírito tem sexo? 

Não, tanto podem encarnar em um corpo masculino como feminino. Quando estão encarnados, interpretam papéis, como artistas num filme ou novela. Um homem, por exemplo, não É homem, eleESTÁ interpretando o papel de homem, porque veste um corpo masculino. Assim ocorre em relação à mulher.
Há outra coisa no homem além do corpo carnal e do Espírito?
Sim. Há outro corpo que liga o Espírito ao corpo físico que chamamos de Perispírito. Como o Espírito não tem uma forma definida, é o perispírito que lhe dá esta forma. Ele é a roupagem do Espírito. O perispírito é semimaterial, ou seja, ele não tem tanta matéria como o corpo físico, mas não é desmaterializado como o Espírito. É ele que possibilita a comunicação entre o corpo físico e o Espírito e vice-versa.
Numa comunicação espiritual quem aparece ao médium é o Espírito ou o perispírito?
É o Espírito utilizando o perispírito. Como foi dito anteriormente, o Espírito não tem uma forma definida, ele é como uma chama, um clarão, ou uma centelha etérea. Então, geralmente, ele aparece ao médium com a aparência que tinha na última encarnação, mas ele pode modificar a aparência e aparecer mais jovem, com aparência de outras encarnações, etc. E quem proporciona esta moldagem e modificação é o perispírito. 
O Espírito pode ficar visível e palpável aos encarnados?
Na questão 95 do O Livro dos Espíritos os Espíritos disseram à Allan Kardec que o Espírito pode ficar visível e até palpável aos encarnados na forma, como já dissemos, que lhe convém usando o envoltório semimaterial chamado perispírito. Exemplo: Emmanuel não se apresentava com a aparência de sua última encarnação (Manoel da Nóbrega), mas sim com a da encarnação que lhe marcou mais que foi como o senador Públio Lentulus, que viveu na época de Jesus, confirmada no livro "HÁ 2000 MIL ANOS".  
O que seria o corpo físico sem alma?
Seria um corpo de carne sem inteligência. Exemplo: O corpo físico é como uma roupa. Quando vestimo-la tem movimento. Quando a tiramos ela fica inerte, não se mexe, não tem movimento. Com o corpo físico é a mesma coisa. O que dá movimento ao corpo físico é o Espírito ou alma juntamente com o fluido vital.
Então, o corpo físico não existe sem alma?
Existe. Por exemplo: durante o sono ou o coma, a alma sai, mas o corpo físico, apesar de inerte, continua vivo. O corpo físico e a alma estão separados, mas há um cordão fluídico que os mantém ligados. Mas, quando este cordão se rompe, ou seja, quando a vida orgânica se esgota, a alma não poderá habitar mais este corpo. E um corpo sem alma é uma massa de carne sem inteligência.
E o que é fluido vital?

Quando o Espírito encarna, recebe uma carga de fluido vital (fluido da vida), que chamamos de princípio vital, porque é ele que dá princípio á vida. Este fluido é a energia que o Espírito necessitará para sua experiência reencarnatória. Por exemplo: o Espírito que reencarna para viver em torno de 20 anos não receberá a mesma quantidade de fluido de quem reencarna para viver em torno de 60 anos. A quantidade de fluido recebido não é a mesma em todos os seres orgânicos.
O Espírito pode viver no corpo físico além do tempo marcado?
Sim. A vida bem vivida pela causa do Bem pode dar “moratória”,ou seja, uma sobrevida, uma dilatação do tempo de permanência do Espírito no corpo de carne.
Qual a função do fluido vital no organismo físico?
Os órgãos se impregnam do fluido vital e este tem a função de dar a todas as partes dos organismos uma atividade. Mas, quando os elementos essenciais ao funcionamento dos órgãos estão destruídos, ou muito profundamente alterados, o fluido vital se torna impotente para lhes transmitir o movimento da vida, e o ser morre. O fluido vital é para o Espírito encarnado o que a pilha é para um aparelho elétrico que, com o tempo vai descarregando. E assim como há pilha que pode ser recarregada, há corpos que também podem. Então, o Espírito encarnado poderá adquir este fluido vital, no decorrer da vida, para sua manutenção quando absorve automaticamente e inconscientemente por várias portas de entrada, destacando-se a respiração, a alimentação e os centros de força vital, os chamados chacras, através, por exemplo, do passe e da prece. Há pessoas que possuem o fluido em quantidade apenas suficiente e outras em abundância. Quem tem mais pode transmitir a quem tem menos.
Os animais e plantas tem alma?
Os animais, o homem e as plantas são seres orgânicos, ou seja, eles nascem, crescem, se reproduzem por si mesmos e morrem. São providos de órgãos especiais para a realização dos diferentes atos da vida, apropriados às suas necessidades de conservação. Mas, apesar de serem seres orgânicos, as plantas não têm alma, já o homem e animais têm. As plantas não pensam, não sentem dor, só tem vida orgânica. Já os animais têm alma, mas esta é inferior à do homem.
E os seres inorgânicos?
Os seres inorgânicos são todos os que não tem nem vitalidade, nem movimentos próprios e são formados apenas pela agregação da matéria; são os minerais, a água, etc. Estes também não tem alma.

 
Compilação, observações e exemplos de Rudymara


Fonte:http://grupoallankardec.blogspot.com.br/2012/06/o-espirito-na-visao-espirita.html

A ALMA DORME NO MINERAL?
Paulo da Silva Neto Sobrinho

set/2006.
(revisado fev/2011)
(revisado dez/2012)

Sumário: 1. Introdução; 2. O codificador; 3. Estudiosos dos primórdios da codificação: 3.1 - León Denis, 3.2 - Gabriel Delanne; 3.3 - Camille Flammarion, 3.4 - Oliver Joseph Lodge; 4. Estudiosos ulteriores da codificação: 4.1 - Cairbar Schutel, 4.2 - Durval Ciamponi, 4.3 - Dr. Ary Alex, 4.4 - J. Herculano Pires; 5. De onde teria vindo essa ideia?: 5.1 - De culturas que aceitam a transmigração da alma?, 5.2 - Da teoria do pampsiquismo proposta por Geley?, 5.3 – Da escola sufista?, 5.4- Do espírito Adelino da Fontoura?, 5.5 - Da "Revelação da Revelação" de Jean-Baptiste Roustaing?, 5.6 - Da coleção André Luiz (Espírito), psicografia de Francisco Cândido Xavier?, 5.7 - De Joanna de Ângelis (Espírito), pela psicografia de Divaldo P. Franco?; 6. Conclusão.

1. Introdução

É comum ouvirmos, no meio espírita, citarem a frase: "A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem", como sendo de autoria de Léon Denis. Só que ninguém indicava onde, exatamente, ele teria dito isso. Na busca em que nos empenhamos para encontrá-la, acabamos por nos deparar com ela em J. Herculano Pires (1914-1979):
A Ontogênese Espírita, ou seja, a teoria doutrinária da criação dos Seres (Do grego: onto é Ser; logia é estudo, ciência) revela o processo evolutivo a partir do reino mineral até o reino hominal. Essa teoria da evolução é mais audaciosa que a de Darwin. Léon Denis a definiu numa sequência poética e naturalista: A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem. Entre cada uma dessas fases existe uma zona intermediária, como se pode verificar nos estudos científicos. Assim, a teoria espírita da evolução considera o homem como um todo formado de espírito e matéria. A própria evolução é apresentada como um processo dialético de interação entre esses dois elementos primordiais, o espírito e a matéria. Tanto na Ciência como na Filosofia essa teoria da evolução segue o mesmo esquema. Na Religião a encontramos no Oriente. O próprio Gênese, livro da Bíblia, como já vimos, admite essa teoria apresentando-a em termos simbólicos: Deus fez o homem do barro da Terra. Atualmente, com os trabalhos famosos do Padre Teilhard de Chardin, até mesmo no Catolicismo a evolução se impôs em termos aproximados da teoria espírita. (PIRES, 1987, p. 93-94) (grifo nosso).
Não podemos assegurar que tenha sido Herculano Pires o primeiro a mencionar essa frase atribuída a Léon Denis com esse teor; porém, a água na fonte tem bem outro sabor, senão vejamos:
Na planta, a inteligência dormita; no animal, sonha; só no homem acorda, conhece-se, possui-se e torna-se consciente; a partir daí, o progresso, de alguma sorte fatal nas formas inferiores da Natureza, só se pode realizar pelo acordo da vontade humana com as leis Eternas. (DENIS, 1989, p. 123) (grifo nosso).
Obviamente, caro leitor, que "dormir na planta" não é a mesma coisa que "dormir na pedra", que é, justamente, o ponto que causa polêmica em nosso meio, pois dela se tira que o princípio inteligente, em sua evolução progressiva, tenha passado também pelo reino mineral.

Em que pese toda a sabedoria de Herculano Pires, espírita de primeira linha, pelo qual nutrimos o maior respeito, considerado como quem mais entendia Kardec, não encontramos no Codificador algo que venha a apoiar a hipótese de que o princípio inteligente tenha, sem exceção alguma, evoluído por todos os reinos, especialmente, no reino mineral, que é a nossa proposta nesse estudo.

Bom, a questão, que se nos apresenta, é saber o que Kardec disse sobre o assunto e se o seu sucessor, Léon Denis, teria dito algo em contrário. Sobre ele é oportuno informar:
Léon Denis (Foug, 1 de janeiro de 1846 - Tours, 12 de Março de 1927) foi um filósofo espírita e um dos principais continuadores do espiritismo após a morte de Allan Kardec, ao lado de Gabriel Delanne e Camille Flammarion. Fez conferências por toda a Europa em congressos internacionais espíritas e espiritualistas, defendendo ativamente a ideia da sobrevivência da alma e suas consequências no campo da ética nas relações humanas. (WIKIPÉDIA)
Não podemos deixar de lembrar a você, caro leitor, que por ter estado muito mais perto de Kardec do que Herculano Pires, a opinião dele não deve ser relegada a segundo plano. Uma vez que são citados Delanne e Flammarion, também não deixaremos de levar em consideração a opinião deles, por terem sido com Denis, os principais continuadores do Espiritismo, o que será feito oportunamente.

2. O Codificador

Vejamos, então, o que Allan Kardec (1804-1869) pensava sobre a evolução anímica. Inicialmente recorreremos ao que ele disse na Introdução da primeira edição de O Livro dos Espíritos, de abril de 1857:
Qualquer que seja, é um fato que não se pode contestar, pois é um resultado de observação, é que os seres orgânicos têm em si uma força íntima que produz o fenômeno da vida, enquanto que essa força existe; que a vida material é comum a todos os seres orgânicos e que ela é independente da inteligência e do pensamento: que a inteligência e o pensamento são faculdades próprias de certas espécies orgânicas; enfim, que entre as espécies orgânicas dotadas de inteligência e de pensamento, há uma dotada de um senso moral especial que lhe dá incontestável superioridade sobre as outras, é a espécie humana.

Nós chamamos enfim inteligência animal o princípio intelectual comum aos diversos graus nos homens e nos animais, independente do princípio vital, e cuja fonte nos é desconhecida. (KARDEC, 2004, p. 3) (grifo nosso).
Essa fala ele a mantém na segunda edição de O Livro dos Espíritos, publicada em março de 1860; porém, o que achamos importante e queremos realçar é que, já desde a primeira edição, Kardec afirma, sem meias palavras, que "a inteligência e o pensamento são faculdades próprias de certas espécies orgânicas", parece-nos que, com isso, além de deixar de fora os seres inorgânicos, que é exatamente o caso dos minerais, ele ainda não estende a todos os seres orgânicos a inteligência e o pensamento; porém, somente a "certas espécies", o que será confirmado mais à frente, quando citarmos a pergunta 71 constante da segunda edição dessa obra, que será também a fonte que usaremos daqui para frente.

Kardec classifica os minerais como inorgânicos, sem vitalidade e sem movimentos próprios, formam-se apenas pela agregação da matéria (KARDEC, 2007a, p. 91). Baseando-nos nessa sua explicação e somando-se ao fato de que ele exclui os seres inorgânicos de possuírem a inteligência e o pensamento, avaliamos que, s.m.j., não há sustentação doutrinária para se concluir que o princípio inteligente possa animar os minerais.

É importante trazermos a definição que Kardec deu para os seres orgânicos:
Os seres orgânicos são os que têm em si uma fonte de atividade íntima que lhes dá a vida. Nascem, crescem, reproduzem-se por si mesmos e morrem. São providos de órgãos especiais para a execução dos diferentes atos da vida, órgãos esses apropriados às necessidades que a conservação própria lhes impõe. Nessa classe estão compreendidos os homens, os animais e as plantas. (KARDEC, 2007a, p. 91) (grifo nosso).
E, para que se possa diferenciá-los dos inorgânicos, trazemos também a definição desses: "Seres inorgânicos são todos os que carecem de vitalidade, de movimentos próprios e que se formam apenas pela agregação da matéria. Tais são os minerais, a água, o ar, etc". (KARDEC, 2007a, p. 91) (grifo nosso).

Então, segundo Kardec, podemos classificar os seres orgânicos em homens, animais e plantas, cujas características principais de cada um deles é: nascer, crescer, reproduzir-se e morrer, o que, segundo acreditamos, não acontece com os seres inorgânicos, pois, como dito, "carecem de vitalidade". É importante observar que Kardec classifica os minerais como seres inorgânicos, o que nos leva a concluir que, consequentemente, eles são desprovidos de inteligência e pensamento, que "são faculdades próprias de certas espécies orgânicas" (KARDEC, 2007a, p. 18).

Essa "fonte de atividade íntima que lhes dá a vida", certamente, é o princípio vital, sobre o qual Kardec, em A Gênese, cap. X – Gênese Orgânica, esclarece argumentando:
16. - Dizendo que as plantas e os animais são formados dos mesmos princípios constituintes dos minerais, falamos em sentido exclusivamente material, pois que aqui apenas do corpo se trata.

Sem falar do princípio inteligente, que é questão à parte, há, na matéria orgânica, um princípio especial, inapreensível e que ainda não pode ser definido: o princípio vital. Ativo no ser vivente, esse princípio se acha extinto no ser morto; mas, nem por isso deixa de dar à substância propriedades que a distinguem das substâncias inorgânicas. A Química, que decompõe e recompõe a maior parte dos corpos inorgânicos, também conseguiu decompor os corpos orgânicos, porém jamais chegou a reconstituir, sequer, uma folha morta, prova evidente de que há nestes últimos o que quer que seja, inexistente nos outros.

[...]

18. - Combinando-se sem o princípio vital, o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono unicamente teriam formado um mineral ou corpo inorgânico; o princípio vital, modificando a constituição molecular desse corpo, dá-lhe propriedades especiais. Em lugar de uma molécula mineral, tem-se uma molécula de matéria orgânica. (KARDEC, 2007b, p. 227-228) (grifo nosso).
Os seres orgânicos, como dito, têm o princípio vital, necessário para lhes manter a vida, o que não acontece com os inorgânicos, por não terem vida. Essa diferença é fundamental para entendermos o porquê de Kardec admitir que somente certas espécies os seres orgânicos possuem o princípio inteligente.

Um pouco mais à frente em A Gênese, mas ainda no cap. X – Gênese Orgânica, Kardec, explicando a Escala dos Seres Orgânicos, diz:
24. Entre o reino vegetal e o reino animal, nenhuma delimitação há nitidamente marcada. Nos confins dos dois reinos estão os zoófitos ou animais-plantas, cujo nome indica que eles participam de um e outro: serve-lhes de traço de união.

Como os animais, as plantas nascem, vivem, crescem, nutrem-se, respiram, reproduzem-se e morrem. Como aqueles, precisam elas de luz, de calor e de água; estiolam-se e morrem, desde que lhes faltem esses elementos. A absorção de um ar viciado e de substâncias deletérias as envenena. Oferecem como caráter distintivo mais acentuado conservarem-se presas ao solo e tirarem, dele a nutrição, sem se deslocarem.

O zoófito tem a aparência exterior da planta. Como planta, mantém-se preso ao solo; como animal, a vida nele se acha mais acentuada: tira do meio ambiente a sua alimentação.

Um degrau acima, o animal é livre e procura o alimento: em primeiro lugar, vêm as inúmeras variedades de pólipos, de corpos gelatinosos, sem órgãos bem definidos, só diferindo das plantas pela faculdade da locomoção; seguem-se, na ordem do desenvolvimento dos órgãos, da atividade vital e do instinto, os helmintos ou vermes intestinais; os moluscos, animais carnudos sem ossos, alguns deles nus, como as lesmas, os polvos, outros providos de conchas, como o caracol, a ostra; os crustáceos, cuja pele é revestida de uma crosta dura, como o caranguejo, a lagosta; os insetos, aos quais a vida assume prodigiosa atividade e se manifesta o instinto engenhoso, como a formiga, a abelha, a aranha. Alguns se metamorfoseiam, como a lagarta, que se transforma em elegante borboleta. Vem depois a ordem dos vertebrados, animais de esqueleto ósseo, ordem que abrange os peixes, os répteis, os pássaros; seguem-se, por fim, os mamíferos, cuja organização é a mais completa. (KARDEC, 2007b, p. 230-231) (grifo nosso).
É interessante o fato de que Kardec não apresenta nenhum ponto pelo qual se possa estabelecer alguma ligação entre o reino mineral e o vegetal, como aqui, especificamente, ele o faz entre o vegetal para o animal. Ressalta que "como os animais, as plantas nascem, vivem, crescem, nutrem-se, respiram, reproduzem-se e morrem", para com isso enquadrá-los – animais e plantas -, entre os seres orgânicos, aqueles nos quais se encontra alguns dotados de pensamento e inteligência, com isso Kardec mantém-se coerente com o que disse na Introdução da primeira de O Livro dos Espíritos, que citamos no início desse tópico.

No cap. XI de A Gênese é tratado o assunto Encarnação dos Espíritos, do qual transcrevemos:
23. Tomando-se a Humanidade no grau mais ínfimo da escala espiritual, como se encontra entre os mais atrasados selvagens, perguntar-se-á se é aí o ponto inicial da alma humana.

Na opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligente, distinto do princípio material, se individualiza e elabora, passando pelos diversos graus da animalidade. É aí que a alma se ensaia para a vida e desenvolve, pelo exercício, suas primeiras faculdades. Esse seria para ela, por assim dizer, o período de incubação. Chegada ao grau de desenvolvimento que esse estado comporta, ela recebe as faculdades especiais que constituem a alma humana. Haveria assim filiação espiritual do animal para o homem, como há filiação corporal.

Este sistema, fundado na grande lei de unidade que preside à criação, corresponde, forçoso é convir, à justiça e à bondade do Criador; dá uma saída, uma finalidade, um destino aos animais, que deixam então de formar uma categoria de seres deserdados, para terem, no futuro que lhes está reservado, uma compensação a seus sofrimentos. O que constitui o homem espiritual não é a sua origem: são os atributos especiais de que ele se apresenta dotado ao entrar na humanidade, atributos que o transformam, tornando-o um ser distinto, como o fruto saboroso é distinto da raiz amarga que lhe deu origem. Por haver passado pela fieira da animalidade, o homem não deixaria de ser homem; já não seria animal, como o fruto não é a raiz, como o sábio não é o feto informe que o pôs no mundo.

Mas, este sistema levanta múltiplas questões, cujos prós e contras não é oportuno discutir aqui, como não o é o exame das diferentes hipóteses que se têm formulado sobre este assunto. Sem, pois, pesquisarmos a origem do Espírito, sem procurarmos conhecer as fieiras pelas quais haja ele, porventura, passado, tomamo-lo ao entrar na humanidade, no ponto em que, dotado de senso moral e de livre-arbítrio, começa a pesar-lhe a responsabilidade dos seus atos. (KARDEC, 2007b, p. 247-248) (grifo nosso).
Kardec reconhece a coerência da hipótese do princípio inteligente passar pelos diversos graus da animalidade, argumentando que isso representa a manifestação da justiça e bondade de Deus para com os animais; entretanto, não quer se aprofundar no assunto, para se manter no foco do tema a que se propôs, que é sobre a Encarnação dos Espíritos e não sobre a evolução do princípio inteligente.

No livro A Gênese, cap. III, Kardec estuda o Instinto e a Inteligência fazendo diversas considerações, nas quais vamos encontrar alguma coisa para dirimir possíveis dúvidas. Diz lá:
O instinto é a força oculta que solicita os seres orgânicos a atos espontâneos e involuntários, tendo em vista a conservação deles. Nos atos instintivos não há reflexão, nem combinação, nem premeditação. É assim que a planta procura o ar, se volta para a luz, dirige suas raízes para a água e para a terra nutriente; que a flor se abre e fecha alternativamente, conforme se lhe faz necessário; que as plantas trepadeiras se enroscam em torno daquilo que lhes serve de apoio, ou se lhe agarram com as gavinhas. É pelo instinto que os animais são avisados do que lhes convém ou prejudica; que buscam, conforme a estação, os climas propícios; que constroem, sem ensino prévio, com mais ou menos arte, segundo as espécies, leitos macios e abrigos para as suas progênies, armadilhas para apanhar a presa de que se nutrem; que manejam destramente as armas ofensivas e defensivas de que são providos; que os sexos se aproximam; que a mãe choca os filhos e que estes procuram o seio materno. No homem, só em começo da vida o instinto domina com exclusividade; é por instinto que a criança faz os primeiros movimentos, que toma o alimento, que grita para exprimir as suas necessidades, que imita o som da voz, que tenta falar e andar. No próprio adulto, certos atos são instintivos, tais como os movimentos espontâneos para evitar um risco, para fugir a um perigo, para manter o equilíbrio do corpo; tais ainda o piscar das pálpebras para moderar o brilho da luz, o abrir maquinal da boca para respirar, etc. (KARDEC, 2007b, p. 89) (grifo nosso).
Nessa fala de Kardec, fica claro, pelo menos para nós, que ele admite o instinto nas plantas, nos animais e nos homens, exatamente os seres que foram classificados, por ele, como orgânicos. Mas, "o que tem a ver instinto com inteligência?", poderia alguém nos perguntar. Pois bem, essa dúvida foi respondida pelos Espíritos ao afirmarem ser o instinto uma espécie de inteligência, uma inteligência sem raciocínio (KARDEC, 2007a, p. 96). Um pouco mais à frente, ao comentar a resposta à pergunta 75, o codificador explica:
O instinto é uma inteligência rudimentar, que difere da inteligência propriamente dita, em que suas manifestações são quase sempre espontâneas, ao passo que as da inteligência resultam de uma combinação e de um ato deliberado.

O instinto varia em suas manifestações, conforme às espécies e às suas necessidades. Nos seres que têm a consciência e a percepção das coisas exteriores, ele se alia à inteligência, isto é, à vontade e à liberdade. (KARDEC, 2007a, p. 97) (grifo nosso).
Portanto, pela ordem, as plantas, os animais e os homens, quer dizer, os seres orgânicos, voltamos a ressaltar, possuem o instinto, que é uma inteligência rudimentar, variando apenas quanto ao grau de sua manifestação, porém, quanto à inteligência e o pensamento, não são algo genérico, pois que "são faculdades próprias de certas espécies orgânicas" (KARDEC, 2007a, p. 18). É oportuno lembrar que aqui Kardec faz uma distinção entre "inteligência rudimentar" e "inteligência propriamente dita", embora não tenha entrado em detalhes para que possamos compreender melhor essa distinção a que se refere; porém, o que é mais importante, é que aqui, neste ponto, trata-se de sua opinião constante de sua última obra e, diante disso, não podemos deixar de ressaltar que Kardec está mesmo admitindo uma inteligência, ainda que rudimentar, nas plantas. Ora, sendo as plantas classificadas como pertencentes ao reino vegetal, é forçoso, conclui-se que é nele que Kardec localiza o início do processo evolutivo do princípio inteligente.

Levando-se em conta essa posição de Kardec, ela vem corroborar a fala de Léon Denis, dita logo no início, de que "Na planta, a inteligência dormita;... " (DENIS, 1989, p. 123).

Entretanto, até agora, não vimos Kardec atribuindo também aos minerais um instinto e muito menos um princípio inteligente, ou que este tenha, por alguma vez, estagiado nos seres inorgânicos, os quais não vemos como explicar a possibilidade de terem uma inteligência rudimentar, levando-se em conta que não possuem vitalidade; portanto, não estão sujeitos ao "nascer, crescer, reproduzir-se e morrer", ciclo indispensável, segundo acreditamos, daquilo que Kardec disse dos seres orgânicos, para que o progresso intelectual desse princípio inteligente se realize.

Vejamos algo interessante que nos parece confirmar esse nosso modo de pensar, o qual baseamo-nos em Kardec, quando define os seres orgânicos (KARDEC, 2007a, p. 91), trata-se de uma fala do estudioso Manuel de O. Portasio Filho (?- ), na obra Deus, Espírito e Matéria:
"Naître, mourir, renaître encore et progresser sans cesse telle est la loi" ("Nascer, viver, morrer, renascer ainda, progredindo sempre; tal é a lei"). A frase encontra-se esculpida no dólmen de Kardec, no Cemitério Père-Lachaise, em Paris, traduzindo assim o princípio basilar da Doutrina Espírita.

Ela expõe a própria essência do processo evolutivo, que se desdobra em nuanças no mais das vezes ininteligíveis à mente humana. […] (PORTASIO FILHO, 2000, p. 116) (grifo nosso).
Se essa frase, constante do túmulo de Kardec, traduz "o princípio basilar da Doutrina Espírita", e, em razão disso, "ela expõe a própria essência do processo evolutivo", então, s.m.j., aquilo que não se enquadrar nesse princípio, ou seja, no ciclo "nascer, morrer, renascer ainda...", não teria como trilhar pelo caminho da evolução, que é, segundo o que conseguimos depreender de Kardec, o caso dos seres inorgânicos, nos quais se encontram os minerais.

O esclarecimento a respeito do instinto de conservação, pode ajudar a clarear mais ainda essa questão, leiamos em O Livro dos Espíritos:
702. É lei da Natureza o instinto de conservação?
"Sem dúvida. Todos os seres vivos o possuem, qualquer que seja o grau de sua inteligência. Nuns, é puramente maquinal, raciocinado em outros."

703. Com que fim outorgou Deus a todos os seres vivos o instinto de conservação?
"Porque todos têm que concorrer para cumprimento dos desígnios da Providência. Por isso foi que Deus lhes deu a necessidade de viver. Acresce que a vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres. Eles o sentem instintivamente, sem disso se aperceberem."

728. É lei da Natureza a destruição?
"Preciso é que tudo se destrua para renascer e se regenerar. Porque, o que chamais destruição não passa de uma transformação, que tem por fim a renovação e melhoria dos seres vivos."

(KARDEC, 2007a, p. 378 e 389) (grifo nosso).
Do que concluímos que todos os seres vivos que tenham qualquer grau de inteligência, portanto, até mesmo os de "inteligência rudimentar", possuem o instinto de conservação, que é imprescindível para a conservação da vida, uma vez que esta, a vida, é necessária a seu progresso e que a destruição é algo primordial para que isso aconteça; então, no que concerne aos minerais, que, como definido por Kardec, são seres inorgânicos, acreditamos que, s.m.j., nada disso se aplicaria, uma vez que ele não têm vitalidade, conforme o próprio Codificador o define.

Continuando, vejamos, agora, uma questão que complementa essas três anteriores:
728. a) - O instinto de destruição teria sido dado aos seres vivos por desígnios providenciais?
"As criaturas são instrumentos de que Deus se serve para chegar aos fins que objetiva. Para se alimentarem, os seres vivos reciprocamente se destroem, destruição esta que obedece a um duplo fim: manutenção do equilíbrio na reprodução, que poderia tornar-se excessiva, e utilização dos despojos do invólucro exterior que sofre a destruição. Esse invólucro é simples acessório e não a parte essencial do ser pensante. A parte essencial é o princípio inteligente, que não se pode destruir e se elabora nas metamorfoses diversas por que passa." (KARDEC, 2007a, p. 389-390) (grifo nosso).
Da afirmativa de que "a parte essencial é o princípio inteligente" ao se referir aos seres vivos, os Espíritos Superiores, ao que nos parece, estão restringindo o princípio inteligente somente aos seres vivos; então, a questão é saber se os minerais podem ser considerados seres vivos. Baseando-nos em Kardec, podemos dizer que não são, porquanto enquadram-se como seres inorgânicos "[...] que carecem de vitalidade, de movimentos próprios e que se formam apenas pela agregação da matéria". (KARDEC, 2007a, p. 91) (grifo nosso).

Vejamos, por oportuno, também a questão que se segue a essa, que acabamos de comentar:
729. Se a regeneração dos seres faz necessária a destruição, por que os cerca a Natureza de meios de preservação e conservação?
"A fim de que a destruição não se dê antes do tempo. Toda destruição antecipada obsta ao desenvolvimento do princípio inteligente. Por isso foi que Deus fez que cada ser experimentasse a necessidade de viver e de se reproduzir." (KARDEC, 2007a, p. 390) (grifo nosso).
Entendemos que "a necessidade de viver e de reproduzir" é algo indispensável para o desenvolvimento do princípio inteligente, que tem na destruição da matéria que temporariamente se reveste, no caso, o fato de morrer, um elemento imprescindível e complementar aos dois anteriores – viver e reproduzir, para cumprir-se o processo de evolução. Em resumo, isso nada mais é do que o já falado: "nascer, crescer, reproduzir-se e morrer", característica somente dos seres vivos, aqueles classificados como orgânicos.

E em O Livro dos Espíritos, ao trabalhar o conceito de alma, Kardec fala várias coisas, entre elas, destacamos:
Evitar-se-ia igualmente a confusão, embora usando-se do termo alma nos três casos, desde que se lhe acrescentasse um qualificativo especificando o ponto de vista em que se está colocado, ou a aplicação que se faz da palavra. Esta teria, então, um caráter genérico, designando, ao mesmo tempo, o princípio da vida material, o da inteligência e o do senso moral, que se distinguiriam mediante um atributo, como os gases, por exemplo, que se distinguem aditando-se ao termo genérico as palavras hidrogênio, oxigênio ou azoto. Poder-se-ia, assim dizer, e talvez fosse o melhor, a alma vital - indicando o princípio da vida material; aalma intelectual - o princípio da inteligência, e a alma espírita - o da nossa individualidade após a morte. Como se vê, tudo isto não passa de uma questão de palavras, mas questão muito importante quando se trata de nos fazermos entendidos. De conformidade com essa maneira de falar, a alma vital seria comum a todos os seres orgânicos: plantas, animais e homens; a alma intelectual pertenceria aos animais e aos homens; e a alma espírita somente ao homem. (KARDEC, 2007a, p. 19) (grifo nosso).
Nessa época Kardec considerava que a alma intelectual como pertencendo somente aos animais e aos homens, porém, como já vimos, em A Gênese, ele afirma a existência do instinto nas plantas, definindo-o como inteligência rudimentar.

Voltando à obra A Gênese, iremos encontrar uma fala de Kardec, que, a nosso ver, põe em evidência como ele próprio via o assunto. Vejamos, quando ele discorre sobre a "União do princípio espiritual e da matéria", no cap. XI, item 10:
Tendo a matéria que ser o objeto de trabalho do Espírito para o desenvolvimento de suas faculdades, era necessário que ele pudesse atuar sobre ela, pelo que veio habitá-la, como o lenhador habita a floresta. Tendo a matéria que ser, ao mesmo tempo, objetivo e instrumento do trabalho, Deus, em vez de unir o Espírito à pedra rígida, criou, para seu uso, corpos organizados, flexíveis, capazes de receber todas as impulsões da sua vontade e de se prestarem a todos os seus movimentos.

O corpo é, pois, simultaneamente, o envoltório e o instrumento do Espírito e, à medida que este adquire novas aptidões, reveste outro envoltório apropriado ao novo gênero de trabalho que deve executar, tal qual se faz com o operário, a quem é dado instrumento menos grosseiro, à proporção que ele se vai mostrando apto a executar obra mais bem cuidada. (KARDEC, 2007b, p. 241-242) (grifo nosso).
Pelo que podemos deduzir dessa fala, se não estivermos tomado gato por lebre, não há como admitir que o princípio inteligente tenha se estagiado nos minerais, que por terem os seus corpos rígidos, "carecem de vitalidade, e de movimentos próprios e que se formam apenas pela agregação da matéria" (KARDEC, 2007a, p. 91).

Concordamos plenamente com Kardec de que para que o princípio inteligente possa desenvolver-se é necessário que o seu corpo seja flexível, para receber os impulsos de sua vontade e prestar-se a todos os seus movimentos, ou seja, que, realmente, o corpo lhe sirva de instrumento de manifestação.

Deixando de fora os fascículos da Revista Espírita, que seguem até março de 1869, época de sua morte, o livro A Gênese, publicado em janeiro de 1868, se reveste do detalhe de que é a última obra da codificação, onde trata do assunto sobre a União do princípio espiritual e da matéria, transcrito acima. Inclusive, segundo o jornalista e filósofo J. Herculano Pires, é nessa obra, ou seja, A Gênese, que Kardec "tornou clara e precisa a sua posição evolucionista quanto ao problema da evolução das espécies"(PIRES, 2005, p. 10). Por isso, acreditamos que, a essa altura do campeonato, Kardec já tinha informações suficientes para deixar bem claro, caso fosse verdade, que o princípio inteligente passaria pelo reino mineral; porém, não foi o que aconteceu, conforme se vê dessa sua fala acima, pela qual chegamos a conclusão de que, na sua forma de pensar, o ponto inicial do processo de evolução do princípio inteligente se localizaria naqueles seres de "corpos organizados, flexíveis, capazes de receber todas as impulsões da sua vontade e de se prestarem a todos os seus movimentos", o que significa dizer que somente nos seres orgânicos isso pode ocorrer.

Conforme prometido, vejamos agora a questão 71:
71. A inteligência é atributo do princípio vital?
"Não, pois que as plantas vivem e não pensam: só têm vida orgânica. A inteligência e a matéria são independentes, porquanto um corpo pode viver sem inteligência. Mas, a inteligência só por meio de órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la. (KARDEC, 2007a, p. 95) (grifo nosso).
Sendo o ato de pensar algo característico de quem possui a inteligência e vontade de atuar, então, as plantas não os têm; porém, conforme já dito, elas possuem o instinto, e esse foi definido por Kardec como uma "inteligência rudimentar".

Nas considerações a essa resposta, o codificador, desenvolvendo mais o seu raciocínio, diz:
A inteligência é uma faculdade especial, peculiar a algumas classes de seres orgânicos e que lhes dá, com o pensamento, a vontade de atuar, a consciência de que existem e de que constituem uma individualidade cada um, assim como os meios de estabelecerem relações com o mundo exterior e de proverem às suas necessidades.

Podem distinguir-se assim: 1º. - os seres inanimados, constituídos de matéria, sem vitalidade nem inteligência, que são os corpos brutos; 2º. - os seres animados que não pensam, formados de matéria e dotados de vitalidade, porém, destituídos de inteligência; 3º. - os seres animados pensantes, formados de matéria, dotados de vitalidade e tendo a mais um princípio inteligente que lhes dá a faculdade de pensar. (KARDEC, 2007a, p. 96) (grifo nosso).
Ao afirmar que a inteligência é uma faculdade especial, peculiar a algumas classes de seres orgânicos, fica claro que Kardec não a generalizou para todos os seres orgânicos, mas apenas a alguns deles.

Assim, segundo a nossa forma de entender, pelo que Kardec coloca, que o reino mineral, por compor-se de seres inorgânicos, que não têm vitalidade, nem inteligência e nem movimentos próprios (KARDEC, 2007a, p. 91), nele não há, consequentemente, o princípio inteligente, o que ainda se confirma com: "A matéria inerte, que constitui o reino mineral, só tem em si uma força mecânica." (KARDEC, 2007a, p. 327) (grifo nosso).

Embora tenha considerado, como já vimos, que o instinto é uma inteligência rudimentar, comum a todos os seres orgânicos – plantas, animais e homens – percebe-se que aqui Kardec não atribui a todos eles a inteligência, considerada por ele como sendo "uma faculdade especial, peculiar a algumas espécies orgânicas".

Dessa distinção, que Kardec faz dos seres, entendemos que ao dizer:
"1º os seres inanimados, constituídos de matéria, sem vitalidade nem inteligência, que são os corpos brutos", estava se referindo aos minerais;
"2º os seres animados que não pensam, formados de matéria e dotados de vitalidade, porém, destituídos de inteligência," para enquadrar os vegetais;
"3º os seres animados pensantes, formados de matéria, dotados de vitalidade e tendo a mais um princípio inteligente que lhes dá a faculdade de pensar", classifica osanimais.
Se a nossa conclusão, para cada item, estiver correta, podemos tomar a iniciativa de incluir o homem como um ser animado e pertencendo ao terceiro grupo.

Ainda sobre as características dos seres, temos algo a acrescentar, que consta em O Livro dos Espíritos, que vem, de outra forma, explicar e corroborar o que ele disse nas suas considerações à resposta da questão 71:
585. Que pensais da divisão da Natureza em três reinos, ou melhor, em duas classes: a dos seres orgânicos e a dos inorgânicos? Segundo alguns, a espécie humana forma uma quarta classe. Qual destas divisões é preferível?
"Todas são boas, conforme o ponto de vista. Do ponto de vista material, apenas há seres orgânicos e inorgânicos. Do ponto de vista moral, há evidentemente quatro graus."

Esses quatro graus apresentam, com efeito, caracteres determinados, muito embora pareçam confundir-se nos seus limites extremos. A matéria inerte, que constitui o reino mineral, só tem em si uma força mecânica. As plantas, ainda que compostas de matéria inerte, são dotadas de vitalidade. Os animais, também compostos de matéria inerte e igualmente dotados de vitalidade, possuem, além disso, uma espécie de inteligência instintiva, limitada, e a consciência de sua existência e de suas individualidades. O homem, tendo tudo o que há nas plantas e nos animais, domina todas as outras classes por uma inteligência especial, indefinida, que lhe dá a consciência do seu futuro, a percepção das coisas extramateriais e o conhecimento de Deus.

(KARDEC, 2007a, p. 327-328) (grifo nosso).
Levando-se em conta essa explicação de Kardec, pode-se deduzir que encontramos as seguintes características dos seres em cada um dos reinos:
a) no reino mineral: matéria inerte que só tem em si a força mecânica;
b) no reino vegetal: matéria inerte e dotados de vitalidade;
c) no reino animal: matéria inerte, dotados de vitalidade e inteligência instintiva, ou seja, inteligência rudimentar;
d) "no reino hominal": matéria inerte, dotados de vitalidade, instinto e inteligência especial.
A matéria inerte é comum a todos os reinos, possivelmente, ela seja o elo que promove a ligação entre eles, e que faz com que "tudo na natureza se encadeia" (KARDEC, 2007a, p. 336), conforme dito, repetidas vezes, por Kardec.

Dentro dessas explicações, que parecem ser a as mesmas anteriores, talvez mais explícitas, deduzimos que, para Kardec, somente a partir do reino animal é que existe inteligência, portanto, nessa fase de seus conhecimentos, o princípio inteligente iniciar-se-ia nesse ponto a sua escalada evolutiva; porém, não podemos deixar de ressaltar que, mais ao final de sua vida, Kardec afirmou que as plantas possuem instinto, ou seja, elas também têm uma inteligência rudimentar, o que aqui ele só atribuiu aos animais.

Kardec continua insistindo no assunto:
586. Têm as plantas consciência de que existem?
"Não, pois que não pensam; só têm vida orgânica".
589. Algumas plantas, como a sensitiva e a dioneia, por exemplo, executam movimentos que denotam grande sensibilidade e, em certos casos, uma espécie de vontade, conforme se observa na segunda, cujos lóbulos apanham a mosca que sobre ela pousa para sugá-la, parecendo que urde uma armadilha com o fim de capturar e matar aquele inseto. São dotadas essas plantas da faculdade de pensar? Têm vontade e formam uma classe intermediária entre a Natureza vegetal e Natureza animal? Constituem a transição de uma para outra?

"Tudo em a Natureza é transição, por isso mesmo que uma coisa não se assemelha a outra e, no entanto, todas se prendem umas às outras. As plantas não pensam; por conseguinte carecem de vontade. Nem a ostra que se abre, nem os zoófitos pensam: têm apenas um instinto cego e natural."

[...]

(KARDEC, 2007a, p. 328-329) (grifo nosso).
As plantas, seres inanimados, que pertencem ao reino vegetal não pensam, têm apenas vida orgânica, o que, em outras palavras, significa dizer que lhes falta a manifestação plena da inteligência, pois está só se produz quando se une o pensamento com a vontade de atuar. Acreditamos que de uma certa forma Kardec ao estabelecer uma comparação entre as plantas e os animais intermediários entre o reino vegetal e animal - ostras e zoófitos – os quais ele diz possuírem uma inteligência rudimentar, indiretamente, está atribuindo a elas – as plantas – um instinto, o que confirmaria a sua afirmativa em A Gênese, de que elas possuem um instinto rudimentar.

Em A Gênese, cap. III - O bem e o mal, ao falar da destruição dos seres vivos, uns pelos outros, Kardec dá a seguinte explicação:
21. A verdadeira vida, tanto do animal como do homem, não está no invólucro corporal, do mesmo que não está no vestuário. Está no princípio inteligente que preexiste e sobrevive ao corpo. Esse princípio necessita do corpo, para se desenvolver pelo trabalho que lhe cumpre realizar sobre a matéria bruta. O corpo se consome nesse trabalho, mas o Espírito não se gasta; ao contrário, sai dele cada vez mais forte, mais lúcido e mais apto. […].

[...]

22. Uma primeira utilidade, que se apresenta de tal destruição, utilidade, sem dúvida, puramente física, é esta: os corpos orgânicos só se conservam com o auxilio das matérias orgânicas, matérias que só elas contêm os elementos nutritivos necessários à transformação deles. Como instrumentos de ação para o princípio inteligente, precisando os corpos ser constantemente renovados, a Providência faz que sirvam ao seu mútuo entretenimento. Eis por que os seres se nutrem uns dos outros. Mas, então, é o corpo que se nutre do corpo, sem que o Espírito se aniquile ou altere. Fica apenas despojado do seu envoltório. (KARDEC, 2007b, p. 96-97) (grifo nosso).

24. Nos seres inferiores da criação, naqueles a quem ainda falta o senso moral, em os quais a inteligência ainda não substituiu o instinto, a luta não pode ter por móvel senão a satisfação de uma necessidade material. Ora, uma das mais imperiosas dessas necessidades é a da alimentação. Eles, pois, lutam unicamente para viver, isto é, para fazer ou defender uma presa, visto que nenhum móvel mais elevado os poderia estimular. É nesse primeiro período que a alma se elabora e ensaia para a vida. (KARDEC, 2007b, p. 98) (grifo nosso).
Ao Kardec citar somente os animais, considerados irracionais, e os homens como os detentores do princípio inteligente, acreditamos que isso reflete a crença anterior de que nos reinos em que eles se enquadram – animal e hominal –, é que os seres possuem o princípio inteligente.

E, querendo tornar as coisas ainda mais claras, Kardec volta à carga:
607. Dissestes (190) que o estado da alma do homem, na sua origem, corresponde ao estado da infância na vida corporal, que sua inteligência apenas desabrocha e se ensaia para a vida. Onde passa o Espírito essa primeira fase do seu desenvolvimento?
"Numa série de existências que precedem o período a que chamais Humanidade."

a) - Parece que, assim, se pode considerar a alma como tendo sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação, não?
"Já não dissemos que todo em a Natureza se encadeia e tende para a unidade? Nesses seres, cuja totalidade estais longe de conhecer, é que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco e se ensaia para a vida, conforme acabamos de dizer. É, de certo modo, um trabalho preparatório, como o da germinação, por efeito do qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito. Entra então no período da humanização, começando a ter consciência do seu futuro, capacidade de distinguir o bem do mal e a responsabilidade dos seus atos. Assim, à fase da infância se segue a da adolescência, vindo depois a da juventude e da madureza. Nessa origem, coisa alguma há de humilhante para o homem. Sentir-se-ão humilhados os grandes gênios por terem sido fetos informes nas entranhas que os geraram? Se alguma coisa há que lhe seja humilhante, é a sua inferioridade perante Deus e sua impotência para lhe sondar a profundeza dos desígnios e para apreciar a sabedoria das leis que regem a harmonia do Universo. Reconhecei a grandeza de Deus nessa admirável harmonia, mediante a qual tudo é solidário na Natureza. Acreditar que Deus haja feito, seja o que for, sem um fim, e criado seres inteligentes sem futuro, fora blasfemar da Sua bondade, que se estende por sobre todas as suas criaturas."

(KARDEC, 2007a, p. 336-337) (grifo nosso).
Se não estivermos de todo enganados, acreditamos que ao dizer "os seres inferiores da criação" Kardec estaria referindo-se especialmente aos animais, assim como a sua menção aos "seres inteligentes sem futuro", conforme acabamos de explicar, logo acima, quando comentamos o trecho de A Gênese, cap. III - O bem e o mal; porém, conforme estamos insistindo, nessa mesma obra Kardec atribui às plantas uma inteligência rudimentar.

Buscando-se também a questão 136a, vemos que a hipótese do princípio inteligente no mineral seria, s.m.j., de todo improvável, porquanto: "A vida orgânica pode animar um corpo sem alma, mas a alma não pode habitar um corpo privado de vida orgânica" (KARDEC, 2007a, p. 125) (grifo nosso). Ora, o que falta no mineral é, justamente, a vida orgânica, por isso não tem alma, quer dizer, um princípio inteligente que o anima.

Na Revista Espírita 1868, no mês de setembro, Kardec tece alguns comentários sobre a crença de alguns de que a Terra teria uma alma, que são de interesse ao nosso estudo. Vejamos:
[…] A Terra é um ser vivo? Sabemos que certos filósofos, mais sistemáticos do que práticos, consideram a Terra e todos os planetas como seres animados, fundando-se sobre o princípio de que tudo vive na Natureza, desde o mineral até o homem. De início, cremos que há uma diferença capital entre o movimento molecular de atração e de repulsão, de agregação e de desagregação do mineral o princípio vital da planta; há efeitos diferentes que acusam causas diferentes, ou pelo menos uma modificação profunda na causa primeira, se ela for única. (Gênese, cap. X, nº 16 a 19.)

Mas admitamos por um instante que o princípio da vida tenha sua fonte no movimento molecular, não se poderia contestar que seja mais rudimentar ainda no mineral do que na planta; ora, daí a uma alma cujo atributo essencial é a inteligência, a distância é grande; ninguém, cremos, pensou em dotar um calhau ou um pedaço de ferro da faculdade de pensar, de querer e de compreender. Mesmo fazendo todas as concessões possíveis a esse sistema, quer dizer, em nos colocando no ponto de vista daqueles que confundem o princípio vital com a alma propriamente dita. A alma do mineral não estaria senão no estado de germe latente, uma vez que nele não se revela por nenhuma manifestação.

Um fato não menos patente do que aquele que acabamos de falar é que o desenvolvimento orgânico está sempre em relação com o desenvolvimento do princípio inteligente; o organismo se completa à medida que as faculdades da alma se multiplicam. A escala orgânica segue constantemente, em todos os seres, a progressão da inteligência, desde o pólipo até o homem; e isso não poderia ser de outra maneira, uma vez que falta à alma um instrumento apropriado à importância das funções que ela deve preencher. De que serviria à ostra ter a inteligência do macaco sem os órgãos necessários à sua manifestação? Se, pois, a Terra fosse um ser animado servindo de corpo a uma alma especial, esta alma deveria ser ainda mais rudimentar do que a do pólipo, uma vez que a Terra não tem mesmo a vitalidade da planta, ao passo que, pelo papel que se atribui a essa alma, sobretudo na teoria da incrustação, dela se faz um ser dotado de razão e do livre arbítrio mais completo, um Espírito superior, em uma palavra, o que não é nem racional, nem conforme à lei geral, porque jamais o Espírito foi mais aprisionado e mais dividido. A ideia da alma da Terra, entendida nesse sentido, tão bem quanto aquela que faz da Terra um animal, deve, pois, ser alinhada entre as concepções sistemáticas e quiméricas. (KARDEC, 1993j, p. 261-262) (grifo nosso).
Desses argumentos de Kardec, ressaltam-nos, por evidentes, quatro pontos importantes, quais sejam:
1º) estabelece uma diferença entre o movimento molecular de atração e de repulsão, de agregação e de desagregação do mineral e o princípio vital da planta, o que de certa forma é diferenciá-los no aspecto de terem vida;
2º) que o princípio da vida não tem a mesma fonte que o movimento molecular e nem do princípio inteligente;
3º) que um calhau ou um pedaço de ferro tenham a faculdade de pensar, de querer e de compreender;
4º) que o progresso da inteligência é atributo dos seres da escala orgânica, desde o pólipo até o homem, ficando, portanto, de fora dessa lei os seres inorgânicos, entre os quais se encontram os minerais.
Para nós, todos esses pontos estão corroborando a hipótese de que o princípio inteligente não estagiaria no mineral, porquanto, conforme várias vezes dito, ele faz parte dos seres inorgânicos. Dessa fala acima ainda destacamos o que consta neste trecho:
Mas admitamos por um instante que o princípio da vida tenha sua fonte no movimento molecular, não se poderia contestar que seja mais rudimentar ainda no mineral do que na planta; ora, daí a uma alma cujo atributo essencial é a inteligência, a distância é grande; ninguém, cremos, pensou em dotar um calhau ou um pedaço de ferro da faculdade de pensar, de querer e de compreender. Mesmo fazendo todas as concessões possíveis a esse sistema, quer dizer, em nos colocando no ponto de vista daqueles que confundem o princípio vital com a alma propriamente dita. A alma do mineral não estaria senão no estado de germe latente, uma vez que nele não se revela por nenhuma manifestação. (KARDEC, 1993j, p. 261-262) (grifo nosso).
Pelo que se vê, Kardec não aceitava que o mineral tivesse alma, porquanto não diria "mesmo fazendo todas as concessões possíveis" para arrematar "a alma do mineral não estaria senão no estado de germe latente", o "não estaria" é uma condicional, não uma afirmação de que pensava assim. Observarmos que, já no início desse parágrafo, ele se coloca como alguém que não comungava com essa ideia ao dizer "mas admitamos por um instante", para logo a seguir concluir taxativamente: "ora, daí a uma alma cujo atributo essencial é a inteligência, a distância é grande".

Há, é certo, uma coisa comum aos três reinos – mineral, vegetal e animal – é que, em todos eles, os elementos químicos, que formam as suas matérias, são os mesmos, variando, obviamente, nas suas combinações, não temos dúvida de que é aqui que se aplica o "tudo se encadeira na natureza".

Kardec, discorrendo sobre os fluidos espirituais, assim pondera:
Tudo se liga na obra da criação. Outrora consideravam-se os três reinos como inteiramente independentes um do outro, e ter-se-ia rido daquele que tivesse pretendido encontrar uma correlação entre o mineral e o vegetal, entre o vegetal e o animal. Uma observação atenta faz desaparecer a solução de continuidade, e prova que todos os corpos formam uma cadeia ininterrupta; de tal sorte que os três reinos não subsistem, na realidade, senão pelos caracteres gerais mais marcantes; mas sobre seus limites respectivos eles se confundem, ao ponto que se hesita em saber onde um acaba e o outro começa, e no qual certos seres devem ser classificados; tais são, por exemplo, os zoófitos ou animais plantas, assim chamados porque, ao mesmo tempo, têm do animal e da planta.

A mesma coisa tem lugar para o que concerne à composição dos corpos. Por muito tempo, os quatro elementos serviram de base às ciências naturais; caíram diante das descobertas da química moderna, que reconheceu um número indeterminado de corpos simples. A química nos mostra todos os corpos da Natureza formados desses elementos combinados em diversas proporções; é da variedade infinita dessas combinações que nascem as inumeráveis propriedades dos diferentes corpos. [...]

[...]

Todos os corpos da Natureza, minerais, vegetais, animais, animados ou inanimados, sólidos, líquidos ou gasosos, são, pois, formados dos mesmos elementos, combinados de maneira a produzirem a infinita variedade dos diferentes corpos, a ciência vai mais longe hoje; suas investigações a conduzem pouco a pouco à grande lei da unidade. Agora é quase geralmente admitido que os corpos reputados simples não são senão modificações, transformações de um elemento único, princípio universal designado sob o nome de éter, fluido cósmico ou universal; de tal sorte que, segundo o modo de agregação das moléculas desse fluido, e sob a influência de circunstâncias particulares, adquire propriedades especiais que constituem os corpos simples; esses corpos simples, combinados entre si em diversas proporções, formam, como dissemos, a inumerável variedade dos corpos compostos. Segundo esta opinião, o calor, a luz, a eletricidade e o magnetismo não seriam igualmente senão modificações do fluido primitivo universal. Assim esse fluido que, segundo toda a probabilidade, é imponderável, seria ao mesmo tempo o princípio dos fluidos imponderáveis e dos corpos ponderáveis. (KARDEC, 1993i, p. 66-69) (grifo nosso).
Então, aqui, temos, segundo a nossa maneira de ver, aquilo que liga os três reinos da natureza: os elementos químicos que existem nas matérias das quais são formados os seus corpos, que "formam uma cadeira ininterrupta". Essa ligação é o que Kardec demonstra, e como está estabelecida somente no que se refere ao elemento material, por consequência, s.m.j., não poderíamos incluir nela o elemento espiritual, para daí inferir que o princípio inteligente tenha, na sua origem, estagiado no mineral. É o que também tiramos dos textos seguintes nos quais as expressões "tudo se liga" e "tudo se encadeia" são utilizadas:
[…] Se se observa a série dos seres, descobre-se que eles formam uma cadeia sem solução de continuidade, desde a matéria bruta até o homem mais inteligente. Porém, entre o homem e Deus, alfa e ômega de todas as coisas, que imensa lacuna! Será racional pensar-se que no homem terminam os anéis dessa cadeia e que ele transponha sem transição a distância que o separa do infinito? A razão nos diz que entre o homem e Deus outros elos necessariamente haverá, como disse aos astrônomos que, entre os mundos conhecidos, outros haveria, desconhecidos. Que filosofia já preencheu esta lacuna? O Espiritismo no-la mostra preenchida pelos seres de todas as ordens do mundo invisível e estes seres não são mais do que os Espíritos dos homens, nos diferentes graus que levam à perfeição. Tudo então se liga, tudo se encadeia, desde o alfa até o ômega. Vós, que negais a existência dos Espíritos, preenchei o vácuo que eles ocupam. E vós, que rides deles, (KARDEC, 2007a, p. 59) (grifo nosso).

A ação dos seres corpóreos é necessária à marcha do Universo. Deus, porém, na Sua sabedoria, quis que nessa mesma ação eles encontrassem um meio de progredir e de se aproximar Dele. Deste modo, por uma admirável lei da Providência, tudo se encadeia, tudo é solidário na Natureza. (KARDEC, 2007a, p. 123) (grifo nosso).

540. Os Espíritos que exercem ação nos fenômenos da Natureza operam com conhecimento de causa, usando do livre-arbítrio, ou por efeito de instintivo ou irrefletido impulso?
"Uns sim, outros não. Estabeleçamos uma comparação. Considera essas miríades de animais que, pouco a pouco, fazem emergir do mar ilhas e arquipélagos. Julgas que não há aí um fim providencial e que essa transformação da superfície do globo não seja necessária à harmonia geral? Entretanto, são animais de ínfima ordem que executam essas obras, provendo às suas necessidades e sem suspeitarem de que são instrumentos de Deus. Pois bem, do mesmo modo, os Espíritos mais atrasados oferecem utilidade ao conjunto. Enquanto se ensaiam para a vida, antes que tenham plena consciência de seus atos e estejam no gozo pleno do livre-arbítrio, atuam em certos fenômenos, de que inconscientemente se constituem os agentes. Primeiramente, executam. Mais tarde, quando suas inteligências já houverem alcançado um certo desenvolvimento, ordenarão e dirigirão as coisas do mundo material. Depois, poderão dirigir as do mundo moral. É assim que tudo serve, que tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo. Admirável lei de harmonia, que o vosso acanhado espírito ainda não pode apreender em seu conjunto!"

(KARDEC, 2007a, p. 309) (grifo nosso).
E quanto à ligação entre o princípio material e o espiritual ela é, certamente, realizada pelo perispírito:
O Espírito mais não é do que a alma sobrevivente ao corpo; é o ser principal, pois que não morre, ao passo que o corpo é simples acessório sujeito à destruição. Sua existência, portanto, é tão natural depois, como durante a encarnação; está submetido às leis que regem o princípio espiritual, como o corpo o está às que regem o princípio material; mas, como estes dois princípios têm necessária afinidade, como reagem incessantemente um sobre o outro, como da ação simultânea deles resultam o movimento e a harmonia do conjunto, segue-se que a espiritualidade e a materialidade são duas partes de um mesmo todo, tão natural uma quanto a outra, não sendo, pois, a primeira uma exceção, uma anomalia na ordem das coisas.

Durante a sua encarnação, o Espírito atua sobre a matéria por intermédio do seu corpo fluídico ou perispírito, dando-se o mesmo quando ele não está encarnado. [...] (KARDEC, 2007b, 299-300) (grifo nosso).
Nesse ponto, Kardec explica que as manifestações dos espíritos nada têm de "milagroso"; porém, trata-se da ação dos espíritos sobre o mundo material, que acontece dentro do âmbito das coisas naturais. Essa ação é proveniente do perispírito, que tem, ao mesmo tempo, algo de material e espiritual; concluindo, um pouco mais à frente, quanto trata especificamente do perispírito, que:
Assim, tudo no Universo se liga, tudo se encadeia; tudo se acha submetido à grande e harmoniosa lei de unidade, desde a mais compacta materialidade, até a mais pura espiritualidade. A Terra é qual vaso donde se escapa uma fumaça densa que vai clareando à medida que se eleva e cujas parcelas rarefeitas se perdem no espaço infinito. (KARDEC, 2007b, p. 321) (grifo nosso).
Vejamos, agora, três transcrições das obras de Kardec, nas quais é mencionada a questão do princípio inteligente ter passado pelo reino mineral.

A primeira delas, vamos encontrá-la na Revista Espírita 1859, mês novembro, na qual Kardec tece algumas considerações a respeito da existência de pessoas que são médiuns sem o saber aproveitando fragmentos de um poema do sr. Porry, de Marseille, intitulado Uranie, sobre o qual disse: "[...] esse poema é rico em ideias Espíritas que parecem tomadas à própria fonte de O Livro dos Espíritos, e todavia, foi averiguado que, na época que o autor o escreveu, ele não tinha nenhum conhecimento da Doutrina Espírita. […] (KARDEC, 1993e, p. 284) (grifo nosso).

Eis a transcrição do poema:
Urânia

Fragmentos de um poema do senhor de Porry, de Marseille.
Abri-vos aos meus gritos, véus do santuário!
Que o mau trema e o bom se esclareça?
Uma luz divina me inunda, e meu seio agitado
Em abundância dardeja a verdade!
E vós, sérios pensadores, cujos trabalhos célebres
Prometem a luz e dão as trevas,
Que de sonhos mentirosos e de prestígios vãos
Embalais incessantemente as infelicidades humanas,
Concilio de sábios, que tanto de orgulho inflama.
Sereis confundidos pela voz de uma mulher?
Este Deus, que quereis do Universo banir,
Ou que pretendeis loucamente definir.
Do qual vossos sistemas querem sondar a essência,
Malgrado vós, se revela à vossa consciência;
E tal que, entregando-se a sutis debates;
Ousa o negar tão alto, o proclama tão baixo!
Tudo por sua vontade nasce e se renova:
É a base suprema; a vida eterna;
Tudo repousa nele: a matéria e o Espírito;
Que vos retire seu sopro... e o Universo perece;
O ateu disse um dia "Deus não é senão uma quimera;
E, filha do acaso, a vida é efêmera,
O mundo, onde o homem fraco, em nascendo, foi jogado,
Está regido pelas leis da necessidade.
Quando o trespasse apaga os nossos sentidos e nossa alma,
O abismo do nada de novo nos reclama;
A Natureza, imutável em seu curso eterno,
Recolhe nossos restos no seio. maternal.
Usamos curtos instantes que seus favores nos dão;
Que nossas frontes radiosas de rosas se coroem;
Só o prazer é Deus; em nossos barulhentos festins,
Desafiamos a cólera dos móveis destinos!"
Mas quando tua consciência, íntima vingadora,
Insensato! te censura uma culpável embriaguez,
O indigente repelido por um gesto desumano,
Ou o crime impune do qual sujas tua mão,
É do seio escuro da cega matéria
Que jorra em teu coração a importuna luz
Que repõe sempre seus grandes crimes sob teus olhos,
Te apavora e te torna, a ti mesmo, odioso?
Então, do soberano que tua audácia nega
Sentes passar sobre ti a força infinita;
E ele te acossa, te sitia, e, malgrado teus esforços,
Se revela ao teu coração pelo grito do remorso!...
Evitando os humanos, cansado de inquietação,
Procuras das florestas a negra solidão;
E crês, percorrendo seus selvagens desvios,
Escapar a esse Deus que te persegue sempre!
Sobre sua presa em farrapos o tigre feliz dormita
O homem, coberto de sangue, nas trevas vela;
Seu olhar está ofuscado por um horrível clarão;
Seu corpo treme inundado de um frio suor;
Um ruído surdo e sinistro em seu ouvido troveja;
Espectros ameaçadores o escoltam o rodeiam;
E sua voz que formula uma terrível confissão,
Se exclama com terror Graça, graça, ó meu Deus!
Sim, o remorso, carrasco de todo ser que pensa,
Nos revela com Deus nossa imortal essência;
E frequentemente a virtude, de um nobre arrependimento
transforma um vil culpado em glorioso mártir;
Os brutos separam a humana criatura,
O remorso é a chama onde nossa alma se depura;
E pelo seu aguilhão o ser regenera,
Na escala do bem avança um degrau.

…, e do soberbo ateu
… vingadores, a audácia é refutada.
O panteísmo vem expor por sua vez
De seu louco argumento o capcioso desvio:
"Ó mortais fascinados por seu sonho risível,
Onde o encontrareis, esse Grande Ser invisível?
Ele está diante de vossos olhos, esse eterno Grande Todo;
Tudo forma sua essência, nele tudo se resolve;
Deus brilha no sol, enverdece na folhagem,
Ruge no vulcão e troveja na tormenta,
Floresce em nossos jardins, murmura nas águas.
Suspira flacidamente pela voz dos pássaros,
E colore os ares os tecidos diáfanos;
É ele quem nos anima e quem move nossos órgãos;
É ele quem pensa em nós; todos os seres diversos
São ele mesmo; em uma palavra, esse Deus, é o Universo."
O quê! Deus se manifesta a si mesmo contrário!
Ele é a ovelha e lobo, rola e víbora!
Ele se torna alternativamente pedra, planta, animal;
Sua natureza combina o bem e o mal,
Percorre todos os graus do bruto ao arcanjo!
Eterna antítese, ele é luz e lama!
Ele é valente e frouxo, ele é pequeno e grande,
Verídico e mentiroso, imortal e agonizante!...
Ele é ao mesmo tempo opressor e vítima,
Cultiva a virtude e se enrola no crime;
Ele é, ao mesmo tempo, Lametrie e Platão.
Sócrates e Melitus, Marco Aurélio e Nero;
Servidor da glória e da ignomínia!
Ele mesmo, alternativamente, se afirma e se nega!
Contra a sua própria essência ele afia o ferro,
Evoca o nada; e por cúmulo do ultraje,
Sua voz escarnece e amaldiçoa sua magnífica obra!...
Oh não, mil vezes não, esse dogma monstruoso
Jamais pôde germinar num coração virtuoso.
Mergulhado em seus remorsos onde o crime se expia,
O temerário autor da doutrina ímpia,
No seio dos prazeres, se sente apavorado
Pela imagem de um Deus que não podia negar;
E para disso se isentar, blasfêmia da blasfêmia!...
Ele o uniu a este mundo, ele o uniu a si mesmo.
O ateu pelo menos, comprimido com semelhante embaraço,
Ousando negar seu Deus, não o degrada.
.........................
Deus, que a raça humana procurou sem cessar,
Deus, que quer ser adorado e não ser conhecido,
É dos seres diversos o princípio e o fim:
Mas, para subir até ele, qual é, "pois, o caminho
Não é a Ciência, efêmera miragem
Que fascina nossos olhos com sua brilhante imagem,
E que, enganando sempre um poderoso desejo,
Desaparece sob a mão que pensa agarrá-lo.
Sábios, amontoais escombros sobre escombros
E vossos sistemas vãos passam como as sombras!

Este Deus; que sem perecer nenhum ser pode ver,
Cuja essência encerra um terrível poder,
Mas que para seus filhos nutre um amor temo,
A menos de igualá-lo, tu não podes compreendê-lo!
Ah! Para se unir a ele, para reencontrá-lo um dia,
A alma deve tomar emprestadas as asas do Amor.
Lancemos ao vento o orgulho e as cinzas da dúvida;
O próprio Deus aos crentes aplainará o caminho:
Seu amor infinito jamais se afastou,
A alma que o procura com sinceridade,
E que esmigalhando nos pés riqueza e gozo,
Aspira confundir-se com a sua pura essência,
Mas este Deus, que quer bem ao coração humilde e piedoso,
Que bane de seu seio o déspota orgulhoso,
Que se revela ao sábio, que se abandona ao prudente,
Como um amante ciumento não sofre nenhuma partilha.
E, para contentá-lo, é preciso aos prestígios mundanos
Opor constantemente inflexíveis desdéns,
Felizes, pois, seus filhos que, na solitude,
Do bom, do verdadeiro, do belo, fazem seu único estudo!
Feliz, portanto, o homem absorvido inteiramente
No triplo clarão desse divino foco!
No meio das tristezas, cujo cortejo sobeja
No círculo limitado de nosso pobre mundo,
Semelhante ao oásis que floresce no deserto,
O tesouro da Fé para a sua alma está aberto;
E Deus, sem mostrar-se, no seu coração se insinua,
E lhe verte uma alegria ao vulgo desconhecida.
Então, com seu destino o sábio está satisfeito;
Com uma calma inalterável guarda o benefício;
De um véu constelado quando a noite o cerca,
Na sua cama pacífica ele adormece, e saboreia,
Nos sonhos brilhantes com os quais se embriaga seu coração,
Um celeste antegozo da suprema felicidade.

Tua alma que na verdade a ardente sede altera,
Da Criação quer sondar o mistério?...
Como um pintor primeiro concebeu no seu cérebro
A obra-prima encantadora que produz seu pincel,
O Eterno tira tudo de sua própria natureza,
Mas não se confunde com a sua criatura
Que, da inteligência tendo recebido o fogo,
Está livre de falir ou de subir até Deus.
Obra de seu Pensamento, obra de sua palavra,
Cada criação de seu seio parte... e voa,
Num círculo traçado por inflexíveis leis,
Cumprir o destino do qual fez a escolha
Como o artista, Deus pensa antes de produzir.
Como ele, o que criou, poderia destruí-lo;
Ora, fonte inesgotável de seres indiferentes
E de globos semeados no imenso Universo,
Deus, a Força sem freio, de sua Vida eterna:
Às suas criações transmite uma centelha.
O livro ou o quadro pelo artista inventado,
Produto inerte, jaz na imobilidade,
Mas o Verbo jorra de sua Onipotência,
Dele se destaca e se move em sua própria existência,
Sem cessar ele se transforma e jamais perece;
Do inerte metal se elevando ao Espírito,
O Verbo criador na planta dormita,
Sonha no animal, e no homem desperta;
De grau em grau, descendo e subindo,
Da Criação o conjunto radioso,
Sobre as ondas do éter forma uma cadeia imensa
Que o arcanjo termina, que a pedra começa.
Obedecendo às leis que regem seu meio,
Cada elemento se aproxima ou se afasta de Deus;
Seja que ao bem se devote ou que ao mal ele sucumba.
Cada ser inteligente, por sua vontade, sobe ou cai.
Ora, se o homem, habitando a atmosfera do mal,
Se rebaixa pelo crime ao nível do animal,
Em anjo de homem puro se transforma, - e esse anjo
De grau em grau pode tornar-se arcanjo,
No seu trono brilhante esse arcanjo elevado,
Está livre para guardar sua personalidade.
Ou de se fundir no seio da Onipotência
Que se pode assimilar uma perfeita essência.

Assim, mais de um arcanjo, na celeste morada,
Com Deus está reunido por um excesso de amor;
Mas outros, invejando sua glória soberana,
Fascinados pelo orgulho, esse pai do ódio,
Quiseram do Mais Alto discutir os decretos;
E mergulharem na noite que esconde seus segredos:
Esse Deus, cujo olhar os teria colocado em pó,
Ensombra-lhes as lajes de seu ardente raio.
Depois, desfigurados, no Universo errante,
Seguidos pelos assaltos de remorsos devorantes,
Esses anjos que perdem sua audácia funesta,
Não ousam mais se mostrar no adro celeste;
Na vergonha, afiando seu aguilhão amado,
Entregam seu coração rebelde às tormentas do inferno,
Ao passo que o homem puro, cuja prova termina,
De triunfo em triunfo ao paraíso se eleva.
Todos esses mundos diferentes no Universo semeados,
Que ferem teus olhares com suas flechas inflamadas,
Que rola do éter o vago universal,
Assim como os Espíritos, estão agrupados em escalas.
Globos variados esses luminosos feixes
São vastas moradas, celestes naves
Onde vagam no espaço, a enormes distâncias,
Espíritos graduados em imensas coortes.
Há mundos puros e mundos horríveis:
Sem entraves reinam nos globos felizes,
Três princípios divinos, honra, amor, justiça.
Da ordem social cimentam o edifício;
E, sem cessar, queridos de todos seus habitantes,
De sua felicidade são as provas constantes.

De outros globos, entregues a insolentes vertigens,
Anjos condenados seguiram os vestígios:
Esses mundos, artesãos de sua própria infelicidade,
À lei de Deus substituíram pela sua;
E, no seu solo, onde ribomba uma horrível tormenta,
De seus hóspedes impuros a multidão se lamenta.
Nosso globo noviço, em seus passos incertos,
Flutua até nossos dias entre esses dois destinos.
Ultrajando a moral, ultrajando a natureza,
Quando um globo do crime preencheu a medida;
Que seus hóspedes, mergulhados em seus prazeres barulhentos,
Fecharam seus ouvidos aos discursos dos videntes;
Que do verbo divino o mais ligeiro traço,
Nesse mundo enceguecido se dissipa e se apaga
Então do Onipotente a cólera desencadeia
Desce sobre o rebelde a perecer condenado:
Os arcanjos vingadores com suas asas poderosas
Batem a terra ímpia... e seus mares saltitantes,
Com imensa altura ultrapassam os seus níveis,
No seu solo limpo precipitam suas águas;
Vulcões subterrâneos a chama brilhante, ribombante,
Dispersa no éter os restos deste mundo;
E o Ser Soberano, cuja vingança luziu,
Rompe esse globo impuro que nele não mais crê!
Nossa Terra medíocre é uma estação de prova,
Onde o justo sofredor, de suas lágrimas se sacia,
Lágrimas que, por degraus purificam seu coração,
Preparam seu caminho para um mundo melhor.
E não é em vão quando o sono nos mergulha
Nos risonhos transportes da embriaguez de um sonho,
Que por um rápido impulso somos transportados
Num astro novo radiante de claridades;
Que nos cremos errar por vastos bosques
Sem cessar percorridos por um povo de sábios;
Que vemos esse globo iluminado por sóis
Irradiando alternadamente brancos, azuis e vermelhos,
Que, cruzando nos ares suas tintas combinadas,
Colorem esses belos campos com luzes variadas!...
Se teu coração neste mundo se mantém virtuoso,
Tu os atravessarás, esses globos luxuosos
Que a paz alegra, que habita a sabedoria,
Onde reina da felicidade a eterna liberalidade.
Sim, tua alma as vê, essas radiosas moradas
Que os favores do céu embelezam sempre,
Onde o Espírito, se depurando, sobe de grau em grau,
Quando o perverso segue um caminho retrógrado,
E do reino do mal percorrendo os elos,
Desce de círculo em círculo aos abismos infernais.

Espelho onde o Universo reflete a sua imagem,
Esses destinos diferentes nossa alma os pressagia.
A alma, essa viva força que domina os sentidos,
Aos seus menores desejos súbito obediente, -
Que, como um fogo cativo num vaso de argila,
Consome em seus transportes sua veste frágil; -
A alma, que do passado guarda a lembrança
E sabe ler por vezes no obscuro futuro,
Não tem do fogo vital a efêmera centelha
Tu mesmo tu o sentes, tua alma é imortal.
Nos campos do espaço e da eternidade,
Conservando sua permanência e sua identidade,

Não, a alma não morre, mas muda o seu domínio,
E de asilo em asilo sempre passeia Nossa alma,
se isolando do mundo exterior,
Por vezes pode conquistar um sentido superior;
E, no arrebatamento do sono magnético,
Se armar de um novo olho ou do dom profético:
Libertada um instante dos terrestres laços,
Sem obstáculo percorre os campos aéreos;
E, com um ágil pulo, no infinito lançada,
Vê através dos corpos e lê no pensamento.
(KARDEC, 1993e, p. 286-293) (grifo nosso)
É certo que no poema há mesmo muitas ideias espíritas, conforme o disse Kardec, entretanto, quanto ao início do processo evolutivo do princípio inteligente, até a época de publicação desse poema só havia a hipótese dele ter se iniciado no reino animal, só mais tarde, como vimos, é que Kardec coloca-o no reino vegetal.

A segunda, encontramo-la na Revista Espírita 1865, numa mensagem recebida em Paris, na qual não consta o seu autor espiritual:
Vou tocar uma grave questão esta noite, falando-vos das relações que podem existir entre a animalidade e a humanidade. [...]

Mas tudo não se detém em crer somente no progresso incessante do Espírito, embrião na matéria e se desenvolvendo ao passar pelo exame severo do mineral, do vegetal, do animal, para chegar à humanidade, onde somente começa a se ensaiar a alma que se encarnará, orgulhosa de sua tarefa, na humanidade. Existem entre essas diferentes fases laços importantes que é necessário conhecer e que eu chamarei períodos intermediários ou latentes; porque é aí que se operam as transformações sucessivas. Falar-vos-ei mais tarde dos laços que ligam o mineral ao vegetal, o vegetal ao animal; uma vez que um fenômeno que vos espanta nos leva aos laços que ligam o animal ao homem, vou vos entreter com estes últimos.

Entre os animais domésticos e o homem as afinidades são produzidas pelas cargas fluídicas que vos cercam e recaem sobre eles; é um pouco a humanidade que se detém sobre a animalidade, sem alterar as cores de uma ou de outra; daí essa superioridade inteligente do cão sobre o instinto brutal da besta selvagem, e é a esta causa somente que poderão ser devidas estas manifestações que vêm de vos ler. Não se está, pois, enganado ouvindo um grito alegre do animal e conhecendo os cuidados de seu senhor, e vindo, antes de passar ao estado intermediário de um desenvolvimento a outro, trazer-lhe uma lembrança. A manifestação pode, pois, ocorrer, mas ela é passageira, porque o animal, para subir de um degrau, é preciso um trabalho latente que aniquile, para todos, todo sinal exterior de vida. Esse estado é a crisálida espiritual onde se elabora a alma, perispírito informe, não tendo nenhuma figura reprodutiva de traços, quebrando-se num estado de maturidade, para deixar escapar, nas correntes que os carregam, os germes de almas que ali eclodem. Ser-nos-ia, pois, difícil vos falar dos Espíritos de animais do espaço, ele não existe, ou antes sua passagem é tão rápida que é como nula, e que no estado de crisálida, não poderiam ser descritos. (KARDEC, 2000, p. 132-133) (grifo nosso).
No início tem-se como verdade o progresso da alma nos três reinos; porém, pareceu-nos contraditório, quando o autor disse que "este estado é a crisálida espiritual onde se elabora a alma", porquanto estava, nesse momento, referindo-se somente ao reino animal, assunto que se propôs a tratar. Promete, para mais tarde, falar da relação entre o mineral e o vegetal e deste para a do animal, o que, infelizmente, não fez ou nós não a encontramos.

Kardec, ao comentar essa mensagem, muito cautelosamente, diz:
Quando tivermos reunido todos os documentos suficientes, nós os resumiremos em um corpo de doutrina metódico, que será submetido ao controle universal; até lá não são senão balizas colocadas sobre o caminho para clareá-lo. (KARDEC, 2000, p. 133-134) (grifo nosso).
A terceira, consta da Revista Espírita 1867 numa carta escrita pelo Dr. Charles Grégory (?-?), fervoroso adepto do Espiritismo, a Kardec, que, a certa altura de sua defesa da Homeopatia, dá esta opinião:
E depois, como creio que o Espírito do homem, antes de se encarnar na humanidade, sobe todos os graus da escala e passa pelo mineral, a planta e o animal e na maioria dos tipos de cada espécie onde preludia seu completo desenvolvimento como ser humano, quem me diz que, dando-lhe medicamento o que não é mais nem o mineral, nem a planta, nem o animal, mas o que se poderia chamar a sua essência, de alguma sorte seu espírito, não se atua sobre a alma humana composta dos mesmos elementos? Porque, é preciso dizê-lo, o espírito é bem alguma coisa, e uma vez que se desenvolveu e se desenvolve sem cessar, precisou tomar esses elementos de alguma parte. (KARDEC, 1999, p. 169) (grifo nosso).
Como quase sempre fazia, Kardec não deixou também de tecer seus comentários a essa carta, nos quais se pode ver que as observações do Dr. Charles, quanto a Homeopatia, foram consideradas pertinentes; entretanto, ao final de seus comentários, Kardec coloca o seguinte:
Em resumo, não contestamos que certos medicamentos, e a homeopatia mais do que qualquer outra, não produzem alguns dos efeitos indicados, mas não lhes contestamos mais senão os resultados permanentes, e sobretudo tão universais que alguns o pretendem. Um caso em que a homeopatia, sobretudo, pareceria particularmente aplicável com sucesso, é o da loucura patológica, porque aqui a desordem moral é a consequência da desordem física, e que está constatado agora, pela observação dos fenômenos espíritas, que o Espírito não é louco; não se tem o que modificá-lo, mas dar-lhe os meios de se manifestar livremente. A ação da homeopatia pode ser aqui tanto mais eficaz quanto ela atue principalmente, pela natureza espiritualizada de seus medicamentos, sobre o perispírito, que desempenha um papel preponderante nesta afecção.

Teríamos mais de uma objeção a fazer sobre algumas das proposições contidas nesta carta; mas isto nos levaria muito longe; contentamo-nos, pois, em colocar as duas opiniões em frente. Como em tudo, os fatos são mais concludentes do que as teorias, e são eles, em definitivo, que confirmam ou derrubam estas últimas, desejamos ardentemente que o Sr. o doutor Grégory publique um tratado especial prático da homeopatia aplicada ao tratamento das moléstias morais, a fim de que a experiência possa se generalizar e decidir a questão. Mais do que qualquer outro, ele nos parece capaz para fazer esse trabalho ex-professo. (KARDEC, 1999, p. 171-172) (grifo nosso).
Sinceramente, acreditamos que o "teríamos mais de uma objeção a fazer" de Kardec tinha por objetivo a crença de que a alma humana, em sua ascensão rumo à meta final, passa por todos os três reinos, levando-se em conta tudo quanto, em suas obras, vimos de sua maneira de pensar. Obviamente, que não descartamos a possibilidade de estarmos equivocados nessa conclusão.

A quarta, na Revista Espírita 1868, quando lemos algumas considerações de Emile Barbault ao livro A religião e a política na Sociedade moderna de autoria de Frédéric Herrenschneider, que Kardec resolveu divulgar na revista, sem ter feito qualquer tipo de observação. Essa só encontramos mesmo na fala de Emile Barbault, em cujo início consta:
O Sr. Herrenschneider é um antigo saint-simoniano e foi lá que hauriu o seu ardente amor ao progresso. Depois, tornou-se Espírita, e, no entanto, estamos longe de partilhar a sua maneira de ver sobre todos os pontos, e de aceitar todas as soluções que dá. A sua é uma obra de alta filosofia, onde o elemento espírita tem um lugar importante; nós não a examinaremos senão do ponto de vista da concordância e da divergência de suas ideias, no que toca ao Espiritismo. Antes de entrar no exame de sua teoria, algumas considerações preliminares nos parecem essenciais. (KKARDEC, 1993j, p. 183) (grifo nosso)

Dito isto, podemos examinar a obra notável do Sr. Herrenschneider; é a obra de um profundo pensador e de um Espírita convicto, senão completo, mas não aprovamos todas as conclusões às quais chega. (KARDEC, 1993j, p. 187) (grifo nosso).
Vejamos agora o seguinte trecho de suas considerações:
Durante toda essa fase de existência dos seres, que começa na molécula do mineral, prossegue no vegetal, se desenvolve no animal, e se determina no homem, o Espírito recolhe e conserva os conhecimentos pelo seu perispírito; ele adquire, assim, uma certa experiência. Os progressos que se realizam são de uma grande lentidão, e quanto mais eles são lentos, mais as encarnações são multiplicadas.

Como se vê, o autor adota os princípios científicos do progresso dos seres, emitidos por Lamarck, Geoffroy Saint-Hilaire, e Darwin, com esta diferença de que a ação moderadora das formas e dos órgãos animais não é mais somente o resultado da seleção e da concorrência vital, mas é também, e sobretudo, o efeito da ação inteligente do espírito animal, modificando incessantemente as formas e a matéria, que ele reveste para realizar uma apropriação mais conforme com a experiência que adquiriu. (KARDEC, 1993j, p. 187) (grifo nosso).
Como ao final Kardec não faz nenhum comentário, não temos como saber o que ele, de fato, pensava sobre essas considerações de Emile Barbault, porém, não poderíamos deixar de colocá-las.

Em A Gênese, cap. VI – Uranografia Geral, podemos ainda encontrar algo, tratando o reino mineral como "criatura":
Esse fluido penetra os corpos, como um oceano imenso. É nele que reside o princípio vital que dá origem à vida dos seres e a perpetua em cada globo, conforme a condição deste, princípio que, em estado latente, se conserva adormecido onde a voz de um ser não o chama. Toda criatura, mineral, vegetal, animal ou qualquer outra - porquanto há muitos outros reinos naturais, de cuja existência nem sequer suspeitais - sabe, em virtude desse princípio vital e universal, apropriar as condições de sua existência e de sua duração.

As moléculas do mineral têm uma certa soma dessa vida, do mesmo modo que a semente do embrião, e se grupam, como no organismo, em figuras simétricas que constituem os indivíduos.

Muito importa nos compenetremos da noção de que a matéria cósmica primitiva se achava revestida, não só das leis que asseguram a estabilidade dos mundos, como também do universal princípio vital que forma gerações espontâneas em cada mundo, à medida que se apresentam as condições da existência sucessiva dos seres e quando soa a hora do aparecimento dos filhos da vida, durante o período criador.

Efetua-se assim a criação universal. É, pois, exato dizer-se que, sendo as operações da Natureza a expressão da vontade divina, Deus há criado sempre, cria incessantemente e nunca deixará de criar. (KARDEC, 2007b, p. 135-136) (grifo nosso).
O problema, que reside aqui, é que Kardec fez questão de fazer a seguinte observação: "Este capítulo é textualmente extraído de uma série de comunicações ditadas à Sociedade Espírita de Paris, em 1862 e 1863, sob o título - Estudos uranográficos e assinadas GALILEU. Médium: C. F." (KARDEC, 2007b, p. 121). O que nos leva a crer que, dessa forma, ele deixa claro que o assunto não havia passado pelo Controle Universal do Ensino dos Espíritos - CUEE; por isso, deveria ser tratado como hipótese, não como verdade doutrinária.

Aliado a isso, temos ainda a opinião do próprio Camille Flammarion (1842-1925), o médium citado, que não demonstra nenhuma confiança nas comunicações recebidas por ele:
Naquelas reuniões na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, escrevi, por meu lado, páginas sobre astronomia, assinadas "Galileu". Essas comunicações ficavam no escritório da sociedade, e Allan Kardec publicou-as em 1867, sob o título Uranographie génerale (Uranografia Geral), em seu livro intitulado La Genèse (Gênese) (do qual conservei um dos primeiros exemplares, com a dedicatória do autor). Essas páginas sobre astronomia nada me ensinaram. Não tardei em concluir que elas eram apenas o eco daquilo que eu sabia e que Galileu nada tinha a ver com aquilo. Era como uma espécie de sonho acordado. Além disso, minha mão parava quando eu pensava em outros assuntos. (FLAMMARION, 2011, p. 44) (grifo nosso, exceto os títulos das obras).
Um pouco mais à frente, ainda em A Gênese, Cap. VI - Item 19 - A criação universal, encontramos esta outra afirmação do Espírito Galileu:
Aos que desejem religiosamente conhecer e se mostrem humildes perante Deus, direi, rogando-lhes, todavia, que nenhum sistema prematuro baseiem nas minhas palavras, o seguinte: O Espírito não chega a receber a iluminação divina, que lhe dá, simultaneamente com o livre-arbítrio e a consciência, a noção de seus altos destinos, sem haver passado pela série divinamente fatal dos seres inferiores, entre os quais se elabora lentamente a obra da sua individualização. Unicamente a datar do dia em que o Senhor lhe imprime na fronte o seu tipo augusto, o Espírito toma lugar no seio das humanidades. (KARDEC, 2007b, p. 136-137) (grifo nosso).
Acreditamos que para o próprio Flammarion a designação seres inferiores se refere aos seres vivos. Para corroborar isso, trazemos da sua obra filosófica Deus na Natureza, os seguintes trechos:
[…] Pela troca perpétua, operante em todos os seres da Natureza e que a todos os encadeia sob o império de uma comunhão substancial, pela comunicação permanente das coisas entre si, da atmosfera com as plantas e todos os seres que respiram, das plantas com os animais, da água com todas as substâncias organizadas, pela nutrição e assimilação que perpetuam a cadeia das existências, as moléculas entram nos corpos e deles saem, mudam de proprietário a cada instante, mas conservam essencialmente a natureza intrínseca. […] (FLAMMARION, 1990, p. 67) (grifo nosso).

As leis da Natureza regem o movimento dos átomos nos seres vivos, como nos inorgânicos: a mesma molécula passa sucessivamente do mineral ao vegetal e ao animal, neles incorporando-se segundo as leis que organizam todas as coisas. (FLAMMARION, 1990, p. 68) (grifo nosso).

E contudo, a verdadeira realidade é que a vida de todos os seres terrícolas – homens, animais e plantas – é uma e única, sujeita a um mesmo sistema, tendo por ambiente o ar e por base o solo. […] (FLAMMARION, 1990, p. 88) (grifo nosso).
Vamos transcrever de O Livro dos Espíritos várias perguntas e respectivas respostas, pelas quais a evolução do princípio inteligente é tratada somente em relação aos animais, portanto, foram excluídos do processo os minerais e os vegetais:
23. Que é o Espírito?
"O princípio inteligente do Universo".

79. Pois que há dois elementos gerais no Universo: o elemento inteligente e o elemento material, poder-se-á dizer que os Espíritos são formados do elemento inteligente, como os corpos inertes o são do elemento material?
"Evidentemente. Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente, como os corpos são a individualização do princípio material. A época e o modo por que essa formação se operou é que são desconhecidos".

593. Poder-se-á dizer que os animais só obram por instinto?
"Ainda aí há um sistema. É verdade que na maioria dos animais domina o instinto. Mas, não vês que muitos obram denotando acentuada vontade? É que têm inteligência, porém limitada".

Não se poderia negar que, além de possuírem o instinto, alguns animais praticam atos combinados, que denunciam vontade de operar em determinado sentido e de acordo com as circunstâncias. Há, pois, neles, uma espécie de inteligência, mas cujo exercício quase que se circunscreve à utilização dos meios de satisfazerem às suas necessidades físicas e de proverem à conservação própria. [...]

597. Pois que os animais possuem uma inteligência que lhes faculta certa liberdade de ação, haverá neles algum princípio independente da matéria?
"Há e que sobrevive ao corpo".

597. a) - Será esse princípio uma alma semelhante à do homem?
"É também uma alma, se quiserdes, dependendo isto do sentido que se der a esta palavra. É, porém, inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e a do homem distância equivalente à que medeia entre a alma do homem e Deus".

598. Após a morte, conserva a alma dos animais a sua individualidade e a consciência de si mesma?
"Conserva sua individualidade; quanto à consciência do seu eu, não. A vida inteligente lhe permanece em estado latente".

599. À alma dos animais é dado escolher a espécie de animal em que encarne?
"Não, pois que lhe falta livre-arbítrio".

601. Os animais estão sujeitos, como o homem, a uma lei progressiva?
"Sim; e daí vem que nos mundos superiores, onde os homens são mais adiantados, os animais também o são, dispondo de meios mais amplos de comunicação. São sempre, porém, inferiores ao homem e se lhe acham submetidos, tendo neles o homem servidores inteligentes".

Nada há nisso de extraordinário, tomemos os nossos mais inteligentes animais, o cão, o elefante, o cavalo, e imaginemo-los dotados de uma conformação apropriada a trabalhos manuais. Que não fariam sob a direção do homem?

604. a) -A inteligência é então uma propriedade comum, um ponto de contacto entre a alma dos animais e a do homem?
"É, porém os animais só possuem a inteligência da vida material. No homem, a inteligência proporciona a vida moral".

606. a) -Então, emanam de um único princípio a inteligência do homem e a dos animais?
"Sem dúvida alguma, porém, no homem, passou por uma elaboração que a coloca acima da que existe no animal".

610. Ter-se-ão enganado os Espíritos que disseram constituir o homem um ser à parte na ordem da criação?
"Não, mas a questão não fora desenvolvida. Demais, há coisas que só a seu tempo podem ser esclarecidas. O homem é, com efeito, um ser à parte,visto possuir faculdades que o distinguem de todos os outros e ter outro destino. A espécie humana é a que Deus escolheu para a encarnação dos seres que podem conhecê-Lo".

612. Poderia encarnar num animal o Espírito que animou o corpo de um homem?
"Isso seria retrogradar e o Espírito não retrograda. O rio não remonta à sua nascente".
Não reproduzimos as questões 607, 607a e 607b, por já terem sido mencionadas. Além dessas questões, outras mais nós tratamos em nosso livro Alma dos Animais: estágio anterior da alma humana?, o qual sugerimos ao leitor, caso tenha interesse, a sua leitura.

Voltar a lembrar o fato de que Kardec, em A Gênese, atribuiu às plantas o instinto, ou seja, uma inteligência rudimentar, ponto que não podemos jamais esquecer pois é nela que o codificador expressa a sua última posição sobre o tema.

Bom, até aqui nós não conseguimos ver nada dito por Kardec de forma clara, objetiva e conclusiva para apoiarmos a hipótese de que o princípio inteligente tenha, em seu desenvolvimento intelectual e moral, passado pelo reino mineral, muito pelo contrário; entretanto, queremos deixar bem claro que vários companheiros espíritas advogam cada uma dessas duas hipóteses, coisa que além de natural é algo totalmente possível dentro do meio espírita, principalmente se levarmos em consideração essas duas afirmações de Kardec:
[…] Ele [o Espiritismo] deixa, pois, a cada um uma inteira liberdade de exame, em virtude deste princípio, de que a verdade sendo una, deve, cedo ou tarde, se impor sobre o que é falso, e que um princípio fundado sobre o erro cai pela força das coisas. […] (KARDEC, 2000c, p. 306) (grifo nosso).

Cada um é livre para encarar as coisas à sua maneira, e nós, que reclamamos essa liberdade para nós, não podemos recusá-la aos outros. (KARDEC, 1993i, p. 5) (grifo nosso)
Por outro lado, é bom também não deixar de ter em mente que, para Kardec "O Livro dos Espíritos não é um tratado completo do Espiritismo; não faz senão colocar-lhe as bases e os pontos fundamentais, que devem se desenvolver sucessivamente pelo estudo e pela observação". (KARDEC, 1993i, p. 223), ou seja, não fecha questão colocando tudo como pronto e acabado; porém, abre uma porta para futuras considerações provenientes de novos estudos e experiências.

Para que você leitor possa melhor se situar nas transcrições das obras de Kardec, aqui utilizadas, informamos que a ordem cronológica delas é a seguinte:
1857 - KARDEC, A. O Livro dos Espíritos – primeira edição de 1867. São Paulo: IPECE, 2004.
1860 - KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. (segunda edição) Rio de Janeiro: FEB, 2007a.
1861 - KARDEC, A. Revista Espírita 1861. Araras, SP: IDE, 1993f.
1864 - KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2007c.
1865 - KARDEC, A. Revista Espírita 1865. Araras, SP: IDE, 2000c.
1866 - KARDEC, A. Revista Espírita 1866. Araras, SP: IDE, 1993i.
1867 - KARDEC, A. Revista Espírita 1867. Araras, SP: IDE, 1999.
1868 - KARDEC, A. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2007b.
1868 - KARDEC, A. Revista Espírita 1868. Araras, SP: IDE, 1993j.
Isso pode ser importante, porquanto, temos que levar em consideração que a opinião final de Kardec, será a que ele expressa na ultima delas, pois, s.m.j., as nossas ideias, sobre determinado assunto, vão evoluindo de acordo com os novos conhecimentos que vamos adquirindo ao longo do tempo, por essa razão, a última fala deve ser aquela na qual se resume todos esses conhecimentos.

3. Estudiosos dos primórdios da codificação

Traremos vários autores, contemporâneos ou próximos da época de Kardec, que, de uma forma ou de outra, tocaram nesse assunto.

3.1 - León Denis (1846-1927) é o primeiro da lista, cujas obras voltaremos, agora, a nossa atenção, cumprindo o que havíamos prometido no início, pois em duas delas –Depois da Morte e O Problema do ser, do destino e da dor - encontramos algo relacionado ao tema:

a) Depois da Morte (1890):
Tempo chegará em que todos esses vocábulos: materialista, positivista, espiritualista, perderão sua razão de ser, porque o pensamento estará livre das peias e barreiras que lhe impõem escolas e sistemas. Quando perscrutamos o fundo das coisas, reconhecemos que matéria e espírito não passam de meios variáveis e relativos para expressão do que existe unicamente de positivo no Universo, isto é - a força e a vida, que, achando-se em estado latente no mineral, se vão desenvolvendo progressivamente do vegetal ao ente humano, e, mesmo acima deste, nos degraus inumeráveis da escala superior. (DENIS, 1987, p. 97) (grifo nosso).
Denis, pelo que percebemos, advoga, nesse ponto, a evolução do princípio inteligente (caso ele seja compreendido como integrante de "a força e a vida"), a partir do reino mineral; porém, em outras oportunidades pareceu-nos não admitir isso.
Sabemos que, em nosso globo, a vida aparece primeiramente sob os mais simples, os mais elementares aspectos, para elevar-se, por uma progressão constante, de formas em formas, de espécies em espécies, até ao tipo humano, coroamento da criação terrestre. Pouco a pouco, desenvolvem-se e depuram-se os organismos, aumenta a sensibilidade. Lentamente, a vida liberta-se dos liames da matéria; o instinto cego dá lugar a inteligência e a razão. Teria cada alma percorrido esse caminho medonho, essa escala de evolução progressiva, cujos primeiros degraus afundam-se num abismo tenebroso? Antes de adquirir a consciência e a liberdade, antes de se possuir na plenitude de sua vontade, teria ela animado os organismos rudimentares, revestido as formas inferiores da vida? Em uma palavra: teria passado pela animalidade? O estudo do caráter humano, ainda com o cunho da bestialidade, leva-nos a supor isso.

O sentimento da justiça absoluta diz-nos também que o animal, tanto quanto o homem, não deve viver e sofrer para o nada. Uma cadeia ascendente e continua liga todas as criações, o mineral ao vegetal, o vegetal ao animal, e este ao ente humano. Liga-os duplamente, ao material como ao espiritual. Não sendo a vida mais que uma manifestação do espírito, traduzida pelo movimento, essas duas formas de evolução são paralelas e solidárias.

A alma elabora-se no seio dos organismos rudimentares. No animal está apenas em estado embrionário; no homem, adquire o conhecimento, e não mais pode retrogradar. Porém, em todos os graus ela prepara e conforma o seu invólucro. As formas sucessivas que reveste são a expressão do seu valor próprio. A situação que ocupa na escala dos seres está em relação direta com o seu estado de adiantamento. Não se deve acusar Deus por ter criado formas horrendas e desproporcionadas. Os seres não podem ter outras aparências que não sejam as resultantes das suas tendências e dos hábitos contraídos. Acontece que almas, atingindo o estado humano, escolhem corpos débeis e sofredores para adquirirem as qualidades que devem favorecer a sua elevação; porém, na Natureza inferior nenhuma escolha poderiam praticar e o ser recai forçosamente sob o império das atrações que em si desenvolveu.

Essa explicação pode ser verificada por qualquer observador atento. Nos animais domésticos as diferenças de caráter são apreciáveis, e até os de certas espécies parecem mais adiantados que outros. Alguns possuem qualidades que se aproximam sensivelmente das da Humanidade, sendo suscetíveis de afeição e devotamento. Como a matéria e incapaz de amar e sentir, forçoso é que se admita neles a existência de uma alma em estado embrionário. Nada há aliás maior, mais justo, mais conforme a lei do progresso, do que essa ascensão das almas operando-se por escalas inumeráveis, em cujo percurso elas próprias se formam: pouco a pouco se libertam dos instintos grosseiros e despedaçam a sua couraça de egoísmo para penetrarem nos domínios da razão, do amor, da liberdade. É soberanamente justo que a mesma aprendizagem chegue a todos, e que nenhum ser alcance o estado superior sem ter adquirido aptidões novas.

No dia em que a alma, libertando-se das formas animais e chegando ao estado humano, conquistar a sua autonomia, a sua responsabilidade moral, e compreender o dever, nem por isso atinge o seu fim ou termina a sua evolução. Longe de acabar, agora é que começa a sua obra real; novas tarefas chamam-na. As lutas do passado nada são ao lado das que o futuro lhe reserva. Os seus renascimentos em corpos carnais suceder-se-ão. De cada vez, ela continuará, com órgãos rejuvenescidos, a obra do aperfeiçoamento interrompida pela morte, a fim de prosseguir e mais avançar. Eterna viajora, a alma deve subir, assim, de esfera em esfera, para o Bem, para a Razão infinita, alcançar novos níveis, aprimorar-se sem cessar em ciência, em critério, em virtude. (DENIS, 1987, p. 132-134) (grifo nosso).
Apesar de afirmar que há uma cadeia ascendente tanto no aspecto material quanto no espiritual, ligando todos os seres da criação, ao dizer sobre a elaboração da alma, Denis, nessa sua fala, a coloca no reino animal.

Ao falar da evolução perispiritual, Denis faz as seguintes considerações:
As relações seculares entre os Espíritos e os homens, confirmadas, explicadas pelas recentes experiências do Espiritismo, demonstram a sobrevivência do ser sob uma forma fluídica mais perfeita.

Essa forma indestrutível, companheira e serva da alma, testemunho de suas lutas e de seus sofrimentos, participa de suas peregrinações, eleva-se e purifica-se com ela. Gerado nos últimos degraus da animalidade, o ser perispiritual sobe lentamente a escala das espécies, impregnando-se dos instintos das feras, das astúcias dos felinos, e também das qualidades, das tendências generosas dos animais superiores. Até então mais não é que um ser rudimentar, um esboço incompleto. Chegando à Humanidade, começa a ter sentimentos mais elevados; o espírito irradia com maior vigor e o perispírito ilumina-se com claridades novas. De vidas em vidas, à proporção que as faculdades se dilatam, que as aspirações se depuram, que o campo dos conhecimentos se alarga, ele se enriquece com sentidos novos. Como a borboleta que sai da crisálida, assim também o corpo espiritual desprende-se de seus andrajos de carne, sempre que uma encarnação termina. A alma, inteira e livre, retoma posse de si mesma e, considerando, em seu aspecto esplendido ou miserável, o manto fluídico que a cobre, verifica seu próprio estado de adiantamento. (DENIS, 1987, p. 183) (grifo nosso).
Da colocação de que o perispírito foi gerado nos últimos degraus da animalidade, acabamos por concluir, que, s.m.j., Denis tem no reino animal como sendo o princípio da evolução da alma humana.

b) O Problema do Ser, do Destino e da Dor (1905):
O homem é, pois, ao mesmo tempo, espírito e matéria, alma e corpo; mas talvez espírito e matéria não sejam mais do que simples palavras, exprimindo de maneira imperfeita as duas formas da vida eterna, a qual dormita na matéria bruta, acorda na matéria orgânica, adquire atividade, se expande e se eleva no espírito. (DENIS, 1989, p. 63) (grifo nosso).
Aqui a frase é bem semelhante àquela que lhe atribuem, colocada no início do texto, entretanto, ele fala da "vida eterna", que é algo abrangente e, necessariamente, pode não significar especificamente o princípio inteligente.
A lei do progresso não se aplica somente ao homem; é universal. Há, em todos os reinos da Natureza, uma evolução que foi reconhecida pelos pensadores de todos os tempos. Desde a célula verde, desde o embrião errante, boiando à flor das águas, a cadeia das espécies tem-se desenrolado através de séries variadas, até nós.(108)

Cada elo dessa cadeia representa uma forma da existência que conduz a uma forma superior, a um organismo mais rico, mais bem adaptado às necessidades, às manifestações crescentes da vida; mas, na escala da evolução, o pensamento, a consciência e a liberdade só aparecem passados muitos graus. Na planta a inteligência dormita; no animal ela sonha; só no homem acorda, conhece-se, possui-se e torna-se consciente; a partir daí o progresso, de alguma sorte fatal nas formas inferiores da Natureza, só se pode realizar pelo acordo da vontade humana com as leis Eternas.
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(108) Os seres monocelulares encontram-se ainda hoje aos bilhões, em cada organismo humano.
Não foi de uma única célula que saiu a série das espécies; foi antes a multidão das células que se agrupou para formar seres mais perfeitos e, de degrau em degrau, convergir para a unidade.

(DENIS, 1989, p. 122-123) (grifo nosso)
Agora, dá uma reviravolta dizendo que é na planta que a inteligência dormita, com isso dá uma pista para definir qual é realmente a sua posição, que, parece-nos ser mais para deixar de fora o reino mineral, caso não estejamos forçando a barra, em virtude do que concluímos baseando-nos em Kardec.

3.2 - Gabriel Delanne (1857-1926), contemporâneo de Léon Denis, filho de Alexandre Delanne, amigo íntimo de Allan Kardec, dedicou-se ao aspecto científico do Espiritismo, cujas conclusões trazemos para análise. Especificamente, desenvolveu um estudo sobre o assunto na obra A Evolução Anímica, e também falou alguma coisa nestas duas outras: O Espiritismo perante a ciência e A Reencarnação. Vejamo-las, pela ordem de publicação:

a) O Espiritismo perante a ciência (1885):
O que nos falta dizer é como o perispírito pode ter adquirido todas as qualidades necessárias ao funcionamento de uma maravilha como é o corpo humano. É preciso que estabeleçamos por que processo esta organização fluídica pode dirigir as diferentes categorias de ações orgânicas que compõem a vida.

Segundo acreditamos, quanto mais o espírito se eleva mais se lhe depura o invólucro. Podemos, pois, dizer, olhando para o passado, que, quanto mais grosseiro é o invólucro, menos adiantado é o espírito; donde a conclusão de que a alma humana, antes de animar um organismo tão perfeito como o corpo humano, teve que passar pela fieira animal: Não pretendemos que o princípio inteligente tenha sido obrigado a atravessar a fase vegetal, porque nas plantas não encontramos sinal algum de sensibilidade bem nitidamente acusada. Os movimentos de certas dioneias, como a mimosa pudica, vulgarmente chamada sensitiva, não bastam para estabelecer esta propriedade nas raças vegetais. Tomaremos, pois, como ponto de partida das evoluções do princípio inteligente os mais rudimentares animais. (DELANNE, 1993, p. 310) (grifo nosso).
Vê-se, então, que, para Delanne, o ponto de partida da evolução do princípio inteligente é o reino animal.

Logo no início dessa obra, encontramos algo que pode nos indicar aquilo que faz a ligação entre os três reinos:
O corpo do homem rejeita o que nutre a planta; a planta transforma o ar, que nutre o animal; o animal nutre o homem, e os seus resíduos, levados pelo ar à superfície da terra vegetal, renovam e entretêm a vida das plantas. Todos os mundos: vegetais, minerais, animais, se unem, se penetram, se confundem e transmitem a vida por um movimento que é dado ao homem verificar e compreender. Eis por que - diz ele - "circulação da matéria é a alma do Mundo". (DELANNE, 1993, p. 18) (grifo nosso).
Não seria o "tudo na natureza se encadeia", dito por Kardec?

b) A Evolução anímica (1895)
[…] O Espírito, transitando pela matéria vivente, desde as primitivas eras do mundo, conseguiu paulatinamente, a transformação progressiva e aperfeiçoada. Cremos seja ele o agente de evolução das formas orgânicas e, daí, a razão do perispírito, conservando-lhe as leis. Nem foi senão lentíssima e progressivamente que essas leis se lhe incrustaram na contextura. (DELANNE, 1989, p. 53) (grifo nosso).

Preciso, é, portanto, demonstrarmos a unidade do princípio pensante no homem e no animal, e estabelecermos que não há transições bruscas entre um e outro; que a lei de continuidade não se interrompe, que o homem não constitui um reino à parte no seio da natureza, e que só mediante uma evolução contínua, por esforços consecutivos, chega a atingir o ponto culminante na criação. (DELANNE, 1989, p. 56) (grifo nosso).

Do homem ao macaco, deste ao cão; da ave ao réptil e deste ao peixe; do peixe ao molusco, ao verme, ao mais ínfimo dos colocados nas fronteiras extremas do mundo orgânico com o mundo inanimado, nenhuma passagem é brusca. O que se dá é sempre uma degradação insensível. Todos os seres se tocam, formam uma cadeia de vida, que só nos parece interrompida pelo desconhecimento das formas extintas ou desaparecidas. Nessa hierarquia dos seres, o homem reivindica o primeiro lugar a que tem, certo, incontestável direito; mas, isso não o coloca fora da série, e quer simplesmente dizer que eleé o mais aperfeiçoado dos animais. (DELANNE, 1989, p. 62) (grifo nosso).

A descendência animal do homem impõe-se com evidência luminosa a todo pensador imparcial. Somos, evidentemente, o último ramo aflorado da grande árvore da vida, e resumimos, acumulando-os, todos os caracteres físicos, intelectuais e morais, assinalados isoladamente em cada um dos indivíduos que perfazem a séries dos seres. (DELANNE, 1989, p. 83) (grifo nosso).

A Natureza opera sempre em continuidade nas manifestações sucessivas que perfazem o conjunto dos fenômenos terrestres.

Já no reino mineral se torna possível encontrar o traço de uma futura vida orgânica. O cristal é quase um ser vivente, visto que difere completamente da matéria amorfa, tendo as moléculas orientadas por uma ordem geométrica, fixa e, por tanto, uma tal ou qual individualidade. Nele existe os primeiros lineamentos da reprodução, visto como a mínima de suas parcelas, mergulhada num soluto idêntico, permitirá o desenvolvimento regular e indefinido dessa partícula, constituindo um cristal semelhante ao primeiro. Não há, finalmente, uma só parte do seu bloco, cuja avaria não se possa reparar. (DELANNE, 1989, p. 184-185) (grifo nosso).

[…] No mundo inorgânico tudo é cego, passivo, fatal; jamais se verifica progresso, não há mais que mudanças de estados, as quais em nada modificam a natureza íntima da substância. No ser inteligente há aumento de poder, desenvolvimento de faculdade latente, eclosão do ser, a traduzir-se por exaltação íntima do indivíduo. (DELANNE, 1989, p. 234) (grifo nosso).
É no seio tépido dos mares primitivos, sob a ação da luz, do calor e de uma pressão hoje difícil, senão impossível de reproduzir-se, que se formou essa massa viscosa chamada protoplasma, primeira manifestação da vida inteligente, que deve desenvolver-se progressiva e paralelamente, e produzir a inumerável multidão de formas vegetais e animais, para chegar, após uma série de séculos ou milênios, à obra tão pacientemente perseguida: - a aparição do ser consciente – o homem. (DELANNE, 1989, p. 238) (grifo nosso).

A evolução terrestre

Não encerrando os terrenos primitivos qualquer traço de matéria organizada, temos por certo que a vida surgiu na Terra em um dado momento. Vimos que ela, a vida, não é mais que uma modificação da energia, a preludiar-se naturalmente na construção geométrica dos cristais que se organizam, reparam as fraturas e reproduzem-se acidentalmente, quando, cindidos por uma força exterior, se mergulha em água-mãe a parte lascada.

Essa matéria, porém, é inerte, desprovida de espontaneidade; torna-se-lhe necessária a adjunção do princípio intelectual para poder animar-se. É um problema que fica resolvido com o protoplasma. Não há individualidade nessas massas gelatinosas, moles, viscosas, que tomam indiferentemente todas as formas; mas, logo que se opera uma condensação na massa, como sucedeu com as nebulosas, essa condensação chama-se núcleo. Depois, o protoplasma reveste-se de uma camada mais densa e é o começo do invólucro membranoso. A partir desse momento, está o ser vivo constituído; é a célula que há de ser molécula vital, de que se formam todos os seres organizados. Animais ou vegetais, do mais simples ao mais complexo, não passam de associação de células mais ou menos diferenciadas. Todo o trabalho futuro consistirá nesse agrupamento, e os meios utilizados pela Natureza, para variar a sua obra primitiva, são bem simples, resumem-se em duas proposições: seleção natural ou, melhor dito – luta, pela vida, e influência do meio, cuja ação é enérgica para variar as formas, a alimentação e os instintos. (DELANNE, 1989, p. 238-239) (grifo nosso).

O princípio pensante percorreu, lentamente, todas as escalas da vida orgânica, e foi por meio de uma ascensão ininterrupta, em transcurso de séculos inumeráveis, que ele pôde pouco a pouco, demoradamente, fixar no invólucro fluídico todas as leis da vida vegetativa, orgânica e psíquica.

Foi-lhe preciso rematerializar-se um sem-número de vezes para que todos esses movimentos, sentidos, conscientes, desejados, chegassem à inconsciência e ao automatismo perfeito, que caracterizam as reações vitais e as ações reflexas. Não é de improviso que o ser, seja qual for, chega a esse resultado, pois a Natureza não faz milagres, e opera sempre do simples para o complexo. Para que um ser tão complexo quanto o homem, que reúne os caracteres mais elevados de todas as criaturas vivas, possa existir, importa, absoluta e necessariamente, tenha percorrido toda a série, cujos diferentes estados ele em si resume. (DELANNE, 1989, p. 244-245) (grifo nosso).
Por estas várias passagens podemos ver que Delanne continua firme em manter-se na ideia de que o princípio inteligente iniciou seu processo evolutivo no reino animal, que, como reiteradas vezes já vimos, faz parte dos seres orgânicos.

Achamos oportuno colocar a definição de protoplasma:
Protoplasma é a parte viva da célula. É um sistema físico-químico de natureza coloidal e pode passar facilmente do estado sólido ao líquido. Os principais constituintes químicos do protoplasma são as proteínas (ácidos aminados, polipeptídeos etc.), os carboidratos, os lipídios, as substâncias minerais e a água. O protoplasma é uma substância viva que tem a propriedade da assimilação e sofre suas consequências (crescimento, divisão etc.). O protoplasma reage aos excitantes mecânicos, físicos e químicos; pode emitir pseudópodes e sofre atrações e repulsões.Existem três propriedades importantes dos protoplasmas no sistema nervoso: irritabilidade, condutibilidade e contratilidade. O protoplasma, segundo estudos, foi a primeira matéria viva a habitar o orbe terrestre após as agitações das energias físico-químicas, e das colisões telúricas incandescentes na formação terrestre. E após cessar as agitações do princípio da formação do globo, e ambientar a pressão atmosférica, de forma que oferecesse o ambiente mínimo para a existência de vida na terra, pôde-se assim dar início a primeira forma de vida terrestre, que foi o protoplasma. (Wikipédia) (grifo nosso).
Nessa obra de Delanne, também, vemos um trecho que corrobora o "tudo na natureza se encadeia", mencionado um pouco atrás:
[…] Quanta grandeza nessa marcha lenta, porém firme, para chegar ao homem, florescência da força criadora, joia que resume e sintetiza todo o progresso, receptáculo de todas as formas, colônia viva, hierarquizada de todas as formas de vida, pois que nele concorrem, e se prestam mútuo auxílio, todos os reinos. A estrutura óssea é o mundo mineral, mas quão melhorado, vitalizado! Os sais, inertes in natura, aí estão vivos, mutáveis e permutáveis, mas conservando, em seu trânsito, o caráter essencial – a solidez!

Depois, é o mundo vegetal nas células que apresentam variedade e opulência incapazes de serem ultrapassadas por qualquer planta. Em seguida, é o reino animal que fornece sucessivamente os melhores órgãos, nos quais encontramos o esboço de aperfeiçoamento, de espécie em espécie, até atingir o tipo definitivo da humanidade. […] (DELANNE, 1989, p. 76-77) (grifo nosso).
Também para Delanne, ao que nos parece, é a matéria que faz estreita ligação entre os três reinos.

c) A reencarnação (1927):
Em nossos dias existem, ainda, representantes de todas as mentalidades possíveis. Desde as plantas até o homem, passando por todo o reino animal, há uma série gradual e contínua, que parte da inconsciência quase total até à plena luz da razão que ilumina os homens superiores. (DELANNE, 1987, p. 71) (grifo nosso).

Formação e desenvolvimento gradual do espírito

Se bem que a natureza íntima do princípio pensante nos seja ainda desconhecida, somos obrigados a procurar-lhe as origens em todos os seres vivos, por ínfimos que nos possam parecer. Sem dúvida, a individualidade desse princípio não é aparente nas formas inferiores, mas há uma necessidade lógica de ver em todas as manifestações vitais uma ação desse princípio espiritual, mesmo quando ele está, ainda, indistinto nos seres que estão na base da escala orgânica, como eu o dizia na memória apresentada ao Congresso Espírita, em 1898.

Somos, pois, obrigados, pela força da lógica, a buscar no reino vegetal o exórdio da evolução anímica, porque a forma que as plantas tomam e conservam durante a vida implica a presença de um duplo perispiritual, que preside às trocas e mantém a fixidez do tipo. (DELANNE, 1987, p. 72) (grifo nosso).
Delanne, ao que tudo indica, muda de ideia, embora não tenha deixado isso expresso, para, agora, situar o início da evolução do princípio inteligente não mais no reino animal; mas, sim, no vegetal, onde lhe fixa o início do processo evolutivo rumo ao reino hominal, estágio anterior a angelitude.

3.3 - Camille Flammarion, manifestou uma opinião a respeito do assunto, vamos encontrá-la na obra Estamos prontos, ditada pelo Espírito Hammed, pela psicografia de Francisco do Espírito Santo Neto, no seguinte trecho:
Diz Camille Flammarion (5): "A existência do Espírito na Natureza, nas leis do cosmo, no homem, nos animais e nas plantas é manifesta. Ela deve bastar para estabelecer a religião natural. E tal religião será incomparavelmente mais sólida que todas as formas dogmáticas".
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5 Camille Flammarion, Mémoires Biographiques et Philosophiques d'un Astronome, Ernest Flammarion Editeu, 1911.
(ESPIRITO SANTO NETO, 2012, p. 73) (grifo nosso)
Pelo visto, Flammarion não aceitava a existência do Espírito nos minerais.

Aproveitamos o momento para também colocarmos as considerações de Hammed, autor espiritual, que acabamos de citar:
Todavia, não carregamos somente as características denominadas rudes ou embrutecidas, mas também propriedades e atributos em germe, como solidariedade, organização, altruísmo, prudência, cooperação, empatia e outros tantos, provenientes dessa mesma herança – isto é, as fases evolutivas (ato de nascer – aprendizado, ato de morrer – aprendizado, ato de renascer – aprendizado) – em que o princípio inteligente serve-se dessa linhagem, seguindo por intermédio das experiências imensamente recapituladas, rumo à plataforma da humanidade.

Hoje atribuímos essas qualidades apenas aos homens, ignorando que elas também são um legado de nossos ancestrais do reino animal, ou seja, os embriões de consciência ou espíritos em evolução, constituindo, assim, as bases evolutivas da conduta atual da coletividade humana. (ESPÍRITO SANTO NETO, 2012, p. 25) (grifo nosso)
Entendemos que, para esse orientador, o início do processo evolutivo do princípio inteligente tem seu início no reino animal.

3.4 - Oliver Joseph Lodge (1851-1940), físico e escritor inglês, autor da obra Raymund, da qual transcrevemos:
Seja lá o que for a vida, é para nós uma abstração porque essa palavra constitui um termo geral indicativo de uma coisa comum a todos os animais e plantas, mas não existente de modo direto no mundo inorgânico. Para compreendermos a vida temos de estudar as coisas vivas e ver o que há nelas de comum. Um organismo é vivo quando afeiçoa a matéria de uma forma especial e utiliza-se da energia para os fins próprios – sobretudo o crescimento e a reprodução. Um organismo vivo, enquanto permanece vivo defende a sua complicada estrutura contra a deterioração e a desagregação. (LODGE, 2012, p. 193) (grifo nosso).
É interessante que aqui encontramos o que vimos várias vezes em Kardec, sobre a questão dos seres inorgânicos não terem vida. Da afirmativa de Lodge de que "um organismo é vivo quando afeiçoa a matéria", deduzimos que isso não ocorre no reino mineral.

4. Estudiosos ulteriores da codificação

Vejamos alguns destacados estudiosos brasileiros que surgiram após a consolidação da Doutrina Espírita:

4.1 - Cairbar Schutel (1868-1938)
A alma não podia deixar de ter o seu começo, o seu nascimento, no reino animal, nos seres da criação, onde passou por todas as transformações indispensáveis ao seu progresso; onde evoluiu, chorando ali, trabalhando acolá, brincando além, para após essas alternativas de tristezas, de gemidos, de lutas e de alegrias, despontar na Humanidade, onde mediante o seu progresso, mais esclarecida e dotada de outros atributos prepara o glorioso surto de gênio para a posse da Vida na Imortalidade! (SHUTEL, 1982, p. 31) (grifo nosso).

Não é nos templos, nem nas academias, que encontraremos o registro da nossa individualidade, mas, sim, na escala inferior dos seres, no reino animal, de que o nosso corpo carnal é o mais característico exemplar.

Poderá alguém negar esta verdade, que se evidencia aos olhos de todos os que querem ver?

Examine o leitor, com espírito perscrutador, o reino animal e o reino hominal, e verá que não encontra entre estes reinos limites distintamente traçados.

No extremo do reino animal com o reino vegetal, estão os zoófitos ou animais plantas, nome que indica pertencerem eles a ambos os reinos, servindo-lhes de tração de união. E no extremo do reino animal com o reino hominal encontramos o orangotango, o chimpanzé, o gorila, que a tal ponto apresentam as maneiras do homem que, por muito tempo, foram designados sob o nome de homens dos bosques. (SHUTEL, 1982, p. 43) (grifo nosso).
Caibar Schutel coloca, de forma bem categórica, que o início da evolução da alma só poderia ser no reino animal.

4.2 - Durval Ciamponi (1930- )
Nós, particularmente, baseados nos autores citados e na Codificação Espírita, admitimos que o início da evolução da alma, na Terra, se deu no protoplasma primitivo (matéria orgânica que continha fluido vital). Mas com isso não queremos dizer que o princípio inteligente tenha sido criado naquele instante, somente porque havia condições propícias para início da sua evolução neste mundo.

Emmanuel (2), diz: "com essa massa gelatinosa, nascia no orbe o protoplasma e, com ele, lançara Jesus à superfície do mundo o germe sagrado dos primeiros homens". Ainda afirma que o "protoplasma foi embrião de todas as organizações do globo terrestre" e que "os primeiros habitantes da Terra, no plano material, são as células albuminoides, as amebas e todas as organizações unicelulares".

Dizemos, em sentido figurado, que o protoplasma foi a chocadeira apropriada para receber a mônada do plano espiritual em sua primeira "encarnação" no orbe terrestre, ou na linguagem de André Luiz - "as mônadas celestes exprimem-se no mundo através da rede filamentosa do protoplasma".
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(2) EMMANUEL (Espírito). A Caminho da Luz, cap. I e II, Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Edição FEB, Rio de Janeiro – RJ, 1975.

(CIAMPONI, 2001, p. 34) (grifo nosso).

[...] preferimos ficar com a ideia mais simples, com os Espíritos, quando afirmam que espírito e matéria são distintos (LE, 25). Embora a união entre ambos seja necessária para a manifestação da alma, isto não quer dizer que em todo "átomo primitivo", princípio material, exista um princípio espiritual.

Kardec, em toda a Codificação, deixa entrever que o princípio inteligente é distinto do princípio material. No item 83, LE, ao questionar a ideia panteísta ou não do Espiritismo, deixa claro seu pensamento a respeito da existência de "massa" material distinta da inteligente de onde provieram os espíritos. Igualmente, nos itens 60 a 70 fica clara a distinção entre o que é princípio espiritual e os reinos formados pelo princípio material: reino orgânico e reino inorgânico. Esta diferença aparece bem definida no LE, 585, onde os Espíritos afirmam: "encarados sob o aspecto material, não há senão seres orgânicos e seres inorgânicos", Kardec conclui, depois, que "a matéria inerte, que constitui o reino mineral, não possui mais do que uma força mecânica". Ao se tomar ao pé da letra a ideia do item 540 de que a todo átomo primitivo está associado um princípio espiritual, somente porque o arcanjo dele começou, tem-se, por dedução lógica, que não há reino inorgânico e que os dois princípios, material e espiritual, são apenas as duas faces de um mesmo ser.

Preferimos, pois, entender que os Espíritos estejam falando no LE, 540, de "átomo", no sentido de "indivisível", isto é, do corpo material mais simples para início da peregrinação evolutiva da alma. É a ideia da "mônada", como criação divina na sua forma mais simples e ignorante possível (LE, 115), seja em relação ao corpo (res extensa), seja em relação ao espírito (res cogitans). Se assim é, a resposta do LE, 540, se completaria: É assim que tudo serve, tudo se encadeia na natureza desde a mônada primitiva até o arcanjo, pois ele mesmo começou pela mônada.

Em todo O Livro dos Espíritos e em toda a Codificação se fala que o princípio inteligente está associado ao princípio material, qualquer que seja o grau de evolução em que se encontra, e também que o princípio vital é o elemento intermediário entre o espírito e a matéria (LE, 65, 135, 135a, 257), mas não diz que o princípio material está sempre associado ao espiritual.

Reino Inorgânico e Reino Orgânico

O principal problema do homem é saber onde termina o reino inorgânico, urdido pelo pensamento Divino e sustentado pelas forças de atração, e começa o reino orgânico, onde há vida ou matéria animalizada capaz de permitir sua "manipulação" por um princípio espiritual, inicialmente por instinto e depois por sua inteligência.

A ciência diz que no reino inorgânico não há vida. Uma pedra é um objeto inanimado e sem vida, não se reproduz, não responde a estímulos, não se movimenta e não se alimenta em nenhuma situação. Em O Livro dos Espíritos, questões ligadas ao princípio vital, item "Seres Orgânicos e Inorgânicos", se diz que "inorgânicos são os seres que não possuem vitalidade nem movimentos próprios, sendo formados apenas pela agregação da matéria: os minerais, a água, o ar etc.", de acordo com o que diz a ciência. Na questão 585 repetem a mesma informação.

Não há, pois, como aceitar a ideia de que a vida começa no reino mineral, sentido defendido por muitos espíritas, quando se referem à expressão de Léon Denis, de que a "alma dorme na pedra".

O máximo que se pode admitir, semelhante com a expressão de Denis, é a citação de Delanne, Evolução Anímica, Cap. I, quando diz "alma e perispírito formam um todo indivisível, constituindo, no conjunto, as partes ativa e passiva, as duas faces do princípio pensante". Na introdução do livro, diz a mesma coisa. "Todos os Espíritos, qualquer que seja o grau de seu progresso, são, portanto, revestidos de um invólucro invisível e imponderável".

É bom lembrar que esta permanente ligação do espírito à matéria é racionalmente lógica. Mas não se fala aqui da matéria bruta, inerte, amorfa, onde existe apenas a força de atração entre seus elementos constitutivos, e sim da matéria primitiva, fluídica, certamente associada ao princípio espiritual no momento da criação, formando para ele seu corpo primitivo de ação, isto é, seu primeiro perispírito ou corpo mental.

Repetimos: o princípio inteligente criado está sempre associado à matéria, mas nem sempre o princípio material está associado ao espiritual. Consequentemente poderemos ter corpo material sem um princípio inteligente.

Igualmente não se pode dizer que a vida começa no reino mineral com base no item 18 do cap. VI, de A Gênese, somente porque ali está escrito que o fluido universal penetra todos os corpos, dando nascimento à vida dos seres. Há diferentes interpretações no que está escrito no item 18 e no item 19.

Galileu diz, no item 18, que as moléculas do mineral têm certa soma do princípio vital, admitindo, como consequência, as "gerações espontâneas sobre cada mundo, à medida que se manifestam as condições de existência sucessiva dos seres, quando soa a hora da aparição, dos filhos da vida, durante o período criador". No item 19, Galileu fala da criação do espírito que não chega à iluminação senão depois de haver passado pela série divinamente fatal dos seres inferiores, entre os quais elabora lentamente a obra de sua individualidade.

Galileu, no item 18, fala do surgimento da vida na matéria, isto é, da matéria animada, orgânica, do protoplasma primitivo, ao passo que no item 19 refere-se à criação do princípio inteligente, no mundo espiritual.Não há, pois, como concluir, desta lição de Galileu, que a primeira vivência da criatura espiritual se deu no reino inorgânico ou mineral. (CIAMPONI, 2001, p. 67-70) (grifo do original, a não ser o do sétimo parágrafo que é nosso).
Em resumo o pensamento de Ciamponi é: "Não há, pois, como aceitar a ideia de que a vida começa no reino mineral, sentido defendido por muitos espíritas, quando se referem à expressão de Léon Denis, de que a 'alma dorme na pedra'". Aliás, um pouco mais à frente ele completa: "Não conseguimos localizar onde Léon Denis escreveu essa frase, para uma análise mais profunda" (CIAMPONI, 2001, p. 74), exatamente o que aconteceu conosco, cuja busca foi totalmente infrutífera.

4.3 - Dr. Ary Alex (1916-2001)
Atuação do Princípio Inteligente não Começa nos Minerais

Perguntaram-me se a atuação do princípio inteligente começava a partir dos minerais. Respondi: não. Aos amigos leitores do JE, ante o debate que se abriu em sua edição de agosto/99, com a mesma pergunta, digo, antes de respondê-la que é mister lembrar as características dos seres vivos.

Já há séculos, distribuíram tudo quanto existe na Terra em três reinos: mineral, vegetal e animal. Tentou a vaidade humana criar para o homem um quarto reino - seria o reino hominal, o que não se justifica, pois o homem está enquadrado no reino animal.

SERES BRUTOS E SERES VIVOS - Os vegetais e os animais, dadas as qualidades que os aproximam, podem ser agrupados com o rótulo de seres organizados. Para os cientistas, existe uma barreira intransponível entre os seres brutos (inorgânicos) e os seres vivos, pois as propriedades peculiares à vida só se encontram nos animais e vegetais.

Este é um ponto em que o Espiritismo está inteiramente de acordo com as ciências biológicas. O Espiritismo ensina que a matéria precisa ser impregnada pelo fluido vital para que possa ser utilizada pelo espírito (nos seres inferiores) costuma-se chamar de "princípio espiritual".

Gabriel Delanne, em seu livro A Evolução Anímica, explica a diferenciação entre seres brutos e vivos com uma clareza meridiana. Mas em que qualidade reside a diferença entre eles? Podemos responder que não há uma qualidade que, sozinha, permita distinguir os minerais dos seres vivos, mas um conjunto de caracteres o permite: forma, propriedades físico-químicas, metabolismo, irritabilidade e evolução.

a) FORMA: Geralmente os seres brutos não têm forma própria, ao passo que os vivos possuem forma específica. Por exemplo: quando falamos "areia", não estamos determinando forma alguma, nem quantidade; quando dizemos "mosca", estamos nos referindo a um ser que tem forma e tamanho certos. Se a areia tivesse um principio inteligente ou espiritual, ele corresponderia a um grão de areia ou a toda a areia do litoral?

b) PROPRIEDADES FÍSICO-QUÍMICAS: Os minerais apresentam composição química simples, sendo as moléculas formadas de poucos átomos, ao passo que a substância viva é complexa. Suas moléculas possuem milhares de átomos, como o caso da hemoglobina e das proteínas em geral. A composição dos seres brutos, além de simples, é estável, enquanto que a instabilidade caracteriza os vivos, pois a matéria organizada está em constante renovação.

Mas não é só. Para haver vida, é preciso haver protoplasma, componente das células, formado principalmente por proteínas. Na Terra, só pôde surgir a vida no momento em que, na atmosfera, por meio das descargas elétricas, uniram-se metano, amônia, água e hidrogênio, formando-se os primeiros aminoácidos (Experiências de Urey e Miller). Estes se combinaram, formando proteínas, as quais se aglomeraram nos coacervados e estes originaram células (Oparim, cientista russo). Todas as células têm cromossomos e ADN, que não existem nos minerais.

c) IRRITABILIDADE: Frente aos estímulos do meio exterior, os seres vivos reagem, por meio de movimentos, produção de secreções, reações agressivas ou tantas outras. Os minerais não têm irritabilidade: podemos bater numa pedra, aquecê-la, dar choques elétricos, que não teremos resposta alguma.

d) METABOLISMO: O ser vivo retira do meio ambiente os alimentos de que necessita, incorporando-os ao seu organismo (anabolismo). No desgaste vital, decompõem-se substâncias do seu corpo, produzindo-se resíduos, que são eliminados (catabolismo). A glicose é queimada, produzindo energia, gás carbônico e água. Os minerais não têm metabolismo. Uma pedra do pico do Jaraguá, lá está, do mesmo jeito, há muitos milhões de anos.

e) EVOLUÇÃO: Todo ser vivo nasce, cresce, vive, reproduz-se e morre. Os minerais não apresentam esse ciclo vital: eles não nascem e nem morrem - sua duração é ilimitada. Imaginemos, por um desvario da imaginação, que um bloco de granito tivesse um princípio espiritual. Coitado dele - ficaria preso, imutável, sem evoluir, durante muitos milhões de anos.

Imagine mais, se cada átomo ou partícula atômica componente do bloco tivessem também um agente estruturador, como se diz atualmente, a comandar-lhe o equilíbrio íntimo - coitado deles.

Uma das leis que o Espiritismo prega é a sublime lei da Evolução: todos os seres evoluem permanentemente, desde a ameba até o homem; todos eles, através de múltiplas vivências no mundo físico, estão se aperfeiçoando, estão aprendendo, estão plasmando corpos cada vez mais perfeitos, enquanto o espírito vai progredindo sempre. A evolução da forma é concomitante com a evolução do espírito.

Delanne, em seu livro A Evolução Anímica, cap. 1, A Vida, diz: "Organização e evolução não podem ser compreendidas só pelo jogo das leis físico-químicas. Os materialistas, com o negarem a existência da alma, privam-se voluntariamente de noções indispensáveis à compreensão dos fenômenos vitais do ser animado; e os filósofos espiritualistas por sua vez, empregando o senso íntimo como instrumento único de investigação, não conheceram a verdadeira natureza da alma; de sorte que, até agora não lhes foi possível conciliar numa explicação comum, os fenômenos físicos e os mentais".

Continua Delanne: "No mundo inorgânico, tudo é cego, passivo, fatal; jamais se verifica progresso; não há mais que mudanças de estados, que em nada modificam a natureza íntima da substância".

AS FRONTEIRAS DA VIDA - Embora sejam tão evidentes essas diferenças entre os seres brutos e os seres vivos, podem surgir certas dúvidas. Quantas vezes já foram a nós trazidas estas objeções: e os cristais, que têm formas próprias, serão vivos? E os vírus?

Realmente, os cristais têm formas características: as suas moléculas se agregam formando cubos, pirâmides de bases hexagonais ou octogonais, e assim por diante. Porém aqui a única semelhança é a forma, mas esta é consequência apenas de leis físicas de atração, que levam as moléculas do cristal a se agruparem formando figuras geométricas. Os cristais não têm nenhuma das outras qualidades dos seres vivos: são formados geralmente de moléculas pequenas; não nascem, nem crescem, nem morrem, permanecendo indefinidamente, até que um agente externo dissolva as moléculas no líquido que os abriga. Não reagem aos estímulos externos, não têm metabolismo e não evoluem.

Os fogos de artifício traçam no céu desenhos interessantes, de variadas cores e tamanhos. Vamos dizer que têm vida porque plasmaram figuras?

Quanto aos vírus, o problema já é mais difícil. Vejamos um resumo do que nos ensina Luc Montagner, um dos maiores virologistas do mundo, que conseguiu identificar o vírus da AIDS (Vírus e Homens, Luc Montagner. Tradução de Maria Luiza Borges - Jorge Zahar Editor -1995). Diz ele: "No fim do século XIX, quando a origem bacteriana das doenças infecciosas foi reconhecida, o termo vírus ou vírus filtrantes passou a ser aplicado a agentes transmissíveis, que são invisíveis ao microscópio e passam através dos filtros de porcelana, que retêm as bactérias. Foi assim que se demonstrou a origem viral de doenças que afetam plantas, como o mosaico do tabaco, e outras responsáveis por doenças animais e humanas, como a gripe, a poliomielite, a varíola etc.. A invenção do microscópio eletrônico permitiu observá-los diretamente".

Continua Montagner: "Os vírus são seres vivos? Não exatamente, porque só existem no interior das células de que são parasitas. O programa genético está inscrito na banda magnética formada pelo ARN ou pelo ADN. Ele é centenas de milhares de vezes mais curto que aquele que contém o programa genético da célula. Para poder sobreviver no exterior da célula, o vírus está encerrado numa casca de proteínas, a qual por vezes está cercada por um invólucro de lipídios".

Penetrando célula, o vírus começa a se reproduzir, usando o material da própria célula. Enzimas específicas produzem milhares de cópias do ADN, cujo mecanismo não citaremos, por desnecessário. Todas elas são mensagens que dirigem a síntese das proteínas virais. Formam-se nossos vírus, que saem das células, indo infectar outras.

Estudando esses fatos, os biologistas e infectologistas ficaram na dúvida se poderiam ou não considerar os vírus como seres vivos. Primeiro, porque só conseguem viver dentro de células, reproduzindo-se às custas do material destas. Segundo porque não têm as demais características dos seres vivos.

A CODIFICAÇÃO E OS NEGOCODIFICADORES - Kardec, em O Livro dos Espíritos, livro I, cap. IV, Principio Vital, comentando a questão 71, explica: "Podemos fazer a seguinte distinção: 1º) os seres inanimados, formados somente de matéria, sem vitalidade, nem inteligência: são os corpos brutos; 2º) os seres animados não pensantes, formados de matéria e dotados de vitalidade, mas desprovidos de inteligência; 3º) os seres animados pensantes, formados de matéria, dotados de vitalidade e tendo ainda um principio inteligente que lhes dá a faculdade de pensar".

Na resposta à questão 136-a, os Espíritos disseram que "a vida orgânica pode animar um corpo sem alma, mas a alma não pode habitar um corpo sem vida orgânica". Portanto, o principio espiritual não pode habitar um mineral.

Como introdução ao estudo do Princípio Vital, a partir da questão 60, Kardec escreve que "os seres orgânicos são os que trazem em si mesmos uma fonte de atividade íntima, que lhes da a vida: nascem, crescem, reproduzem-se e morrem. Compreendem os animais e as plantas. Os seres inorgânicos são os que não possuem vitalidade nem movimentos próprios, sendo formados apenas pela agregação da matéria: os minerais, a água, o ar etc..."

Apesar de Kardec e Delanne ensinarem, de maneira tão peremptória, que o princípio espiritual não habita o mineral, por este não lhe oferecer as condições de utilização ou de agitabilidade... ideias orientais, infiltradas no movimento espírita, vêm lançando a confusão neste terreno.

Dizem, por exemplo, que tudo no Universo tem vida, desde o átomo até as estrelas; que em tudo há a manifestação divina, através de um princípio espiritual, que impregna toda a matéria. Não, não e não. O átomo, a molécula, os minerais, a água, o ar, estão simplesmente sujeitos às leis físicas, não às leis do Espírito. Não queiramos ver nas leis de tração, que regem o Universo do átomo às estrelas, qualquer coisa de espiritual.

Também nas afinidades químicas, como a que faz os átomos de cloro buscarem uma combinação com os de sódio, formando o cloreto de sódio, ou sal de cozinha. Nessa combinação não há amor ou afinidade psíquica, como dizem os sonhadores, mas simplesmente afinidade química.

Mas não são só os orientais, nas suas meditações nos píncaros do Himalaia, que dizem isto. Infelizmente, pensadores do mais alto gabarito estão querendo fazer uma simbiose entre ideias desses religiosos místicos em êxtase com a física quântica. Tais pensadores lembra a atuação de um "agente estruturador externo ao Universo material, para que se forme a mais elementar das subpartículas atômicas", dando origem ao átomo. Por exemplo, diz Carlos de Brito Imbassahy, em A Bioenergia no Campo do Espírito, item 2.1, que experiências no acelerador do LEP mostravam "que algo comandava as ações dessas partículas, como se tivessem uma alma ou espírito próprio, evidentemente distinto do que se considera alma animal".

Haverá, então, dois dirigentes da estruturação material, um que agiria nos átomos e outro nos seres vivos? Não, o assunto já é complexo demais; não vamos complicar mais ainda. Essas são elucubrações teóricas de mentes cultas e avançadas, mas inteiramente destoantes dos ensinos da Codificação. Mineral não tem vida, não abriga nenhum princípio espiritual.

A matéria, como ensina Kardec, é apenas substância usada pelos Espíritos para sua trajetória no mundo terreno. Não evolui, não tem individualidade ou personalidade. Não queiramos inovar, em terreno tão escorregadio."

"7o. JORNAL ESPÍRITA, SETEMBRO DE 1999 - EM DEBATE"

(Site O Portal do Espírito) (grifo nosso).
A posição do Dr. Ary Alex é clara: não, o princípio inteligente não passa pelo reino mineral, isso trata-se tão somente de "ideias orientais, infiltradas no movimento espírita".
4.4 - J. Herculano Pires
Alguns etnólogos e mitólogos, como André Lang e Max Freedom Long, citados por Ernesto Bozzano, chegaram a aceitar a possibilidade de traços e características animais em raças humanas. Essas suposições, de origem evidentemente totêmicas, não passam do plano especulativo. O homem não se define pela sua aparência corporal, onde as marcas da animalidade ancestral podem aparecer de maneira generalizada e não específica. O espírito humano, que é a essência do homem e a única ficha de sua identidade evolutiva, revela em toda parte e em todos os tempos a sua unidade espiritual. Essa unidade não provém da forma corporal, mas da consciência. A diferenciação das espécies, particularmente das superiores, torna-se pregnante nas suas características psíquicas. A unidade do espírito humano é perfeita e invariável em todas as raças do passado e do presente. Porque as espécies superiores, tanto nos reinos mineral, vegetal, animal e humano, revelam sempre a supremacia espiritual da espécie, que se despe das heranças da ganga das metamorfoses para se fixar no plano superior da vida. A animalidade humana revela apenas a deficiência do progresso espiritual e da vitória do espírito no ser em desenvolvimento. As potencialidades do ser, suficientemente definido no processo evolutivo como desta ou daquela espécie, sofrem naturalmente atrasos acidentais, dando aos observadores desprovidos de dados de observações de pesquisas mais completas a impressão de resíduos das espécies superadas. […] (PIRES, 2005, p. 43-44) (grifo nosso).

[…] A alma é a subjetividade que se oculta no corpo, como a orquídea nas ramagens de uma árvore, e ali se entrança com as fibras vegetais para, servindo-se da seiva como de um combustível sutil, florir em expressões de sonho e beleza na primavera. Se não conhecêssemos o processo parasitário, certamente confundiríamos puras parasitas com as flores genésicas da árvore que se definirão em frutos. Hegel distinguiu o reino vegetal como um sistema de pura e permanente doação. Herdamos do mineral a estabilidade aparentemente fixa e resistente de nossas estruturas ósseas, dos vegetais a sensibilidade perceptiva e dos animais e motilidade vibrante que supera de muito a lenta movimentação dos tropismos. Nosso corpo possui as características desses três reinos, mais a alma, que acrescenta a essas heranças a produção epifenomênica da nossa estrutura ôntica, que não deriva da matéria, mas do espírito. Vivemos como um ser espiritual e não como pedra, planta ou animal. (PIRES, 2005, p. 56-57) (grifo nosso).
Segundo o que pudemos entender, Herculano Pires aceita a possibilidade do princípio inteligente, na sua escalada evolutiva, ter passado pelo reino mineral, embora em uma de suas falas, a da segunda transcrição, isso parece-nos não ter ocorrido.

Vejamos em Mediunidade: vida e comunicação. Conceituação da mediunidade e análise geral dos seus problemas atuais, uma outra de suas obras:
Essa colocação dos problemas mediúnicos sugere um conceito da mediunidade que nos leva às próprias raízes do Espiritismo. A Mediunidade nos aparece como o fundamento de toda a realidade. O momento dofiat, da Criação do Cosmos, é um ato mediúnico. Quando o espírito estrutura a matéria para se manifestar na Criação, constrói o elemento intermediário entre ele e a realidade sensível ou material. A matéria se torna o médium do espírito. Assim, a vida é uma permanente manifestação mediúnica do espírito que, por ela, se projeta e se manifesta no plano sensível ou material. O Inteligível, que é o espírito, o princípio inteligente do Universo, dá a sua mensagem inteligente através das infinitas formas da Natureza, desde os reinos mineral, vegetal e animal, até o reino hominal, onde a mediunidade se define em sua plenitude. A responsabilidade do Homem, da Criatura Humana, expressão mais elevada do Médium, adquire dimensões cósmicas. Ele é o produto multimilenar da evolução universal e carrega em sua mediunidade individual o pesado dever de contribuir para que a Humanidade realize o seu destino cósmico. A compreensão deste problema é indispensável para que os médiuns aprendam a zelar pelas suas faculdades. (PIRES, 1987, p. 15-16) (grifo nosso).

Cada fase da evolução, definida num dos reinos da Natureza, caracteriza-se por condições próprias, como resultantes do desenvolvimento de potencialidades dos reinos anteriores. Só nas zonas intermediárias, que marcam a passagem de uma fase para a outra, existe misturas das características anteriores com as posteriores. Por exemplo: entre o reino vegetal e o reino animal, há a zona dos vegetais carnívoros; entre o reino animal e o reino hominal, a zona dos antropóides. No reino mineral, dividido do vegetal por espécies indefinidas em que se destacam os vegetais-minerais, as investigações científicas descobriram a geração espontânea dos vírus nas estruturas cristalinas. A teoria da evolução se confirma na pesquisa científica por dados evidentes e significativos. Os vírus se situam na encruzilhada dos reinos mineral, vegetal e animal, como uma espécie de ensaio para os desenvolvimentos futuros.(PIRES, 1987, p. 94) (grifo nosso).
Mantém-se na sua opinião original de que o princípio inteligente passa pelo reino mineral.

5. De onde teria vindo essa ideia?

Não logramos êxito em nossa tentativa visando precisar a origem dessa ideia; porém, algumas possibilidades temos para apresentar.

5.1 - De culturas que aceitam a transmigração da alma?:

Vejamos a definição de transmigração dada pelos enciclopedistas Russell Norman Champlim (1933- ) e João Marques Bentes (1932- ):
TRANSMIGRAÇÃO

Essa palavra vem do latim, trans, "cruzar", e migrare, "migrar", um termo aplicado às reencarnações da alma humana. Essa palavra com frequência é empregada como sinônimo de reencarnação. Algumas vezes, todavia, refere-se a uma espécie especial de renascimento, em que, supostamente, a alma humana pode encarnar-se em um corpo animal, e não meramente humano. Outras vezes, esse vocábulo alude à alegada fornada do homem através de todas as formas de existência, a começar pelo reino mineral, avançando para o reino vegetal, então tomando corpo de animais irracionais, e, finalmente, assumindo forma humana, a partir do que a alma humana experimentaria existências demoníacas e divinas. (CHAMPLIN e BENTES, 1985f, p. 608-609) (grifo nosso).
Podemos também confirmar em Bruce Edward Goldberg (1948- ), que informa que, no oriente, se acreditava como início da evolução anímica o reino mineral:
A doutrina de transmigração se insere no pensamento cármico oriental. Transmigração é a passagem da alma humana do reino mineral para os animais inferiores e, finalmente, para o homem. Muitos filósofos orientais rejeitam esta doutrina, assim como a maior parte dos seus seguidores ocidentais. Mesmo aqueles que aceitam a transmigração acham que é impossível voltar à forma do animal inferior uma vez chegada à forma humana. Pessoalmente não aceito a transmigração, e em nenhuma das 25.000 regressões e progressões que dirigi pessoalmente, jamais se revelou qualquer existência não humana. (GOLDBERG, 1993, p. 31) (grifo nosso).

Em certas escolas hindus e budistas da filosofia oriental se menciona a transmigração. De acordo com estas crenças orientais, nossa alma primeiro se encarna em minerais, depois em plantas, então, em animais inferiores e, finalmente, habita a forma humana. Esta transmigração de minerais à forma humana não é aceita, atualmente, nem pela maioria dos filósofos orientais. Eu, pessoalmente, não a aceito e nunca tive provas para sustentar tal teoria. (GOLDBERT, 1993, p. 234) (grifo nosso).
Na tradição Tibetana, encontramos algo bem parecido:
Um Deus-Átomo dorme em cada pedra. Logo, desperta em cada planta. Move-se em cada animal; pensa em cada homem e ama em cada anjo. Por conseguinte, devemos tratar cada pedra como se fora um vegetal. A cada vegetal com o um animal querido. Cada animal como um ser humano e todo ser humano como a um anjo. (RUSSO, s/d, p. 112).
E, por último, apresentamos a informação de Zalmino Zimmermann (?- ) de que
Hermes Trismegisto já ensinava, no antigo Egito, que "a pedra se converte em planta; a planta em animal; o animal em homem, em Espírito; o Espírito, em Deus". E o ensinamento hinduísta, que remonta a milhares de anos, tem sua versão poética da evolução: "A alma dorme na pedra, sonha na planta, agita-se no animal e desperta no homem". […] (ZIMMERNANN, 2000, p. 277) (grifo nosso).
5.2 - Da teoria do pampsiquismo proposta por Geley:

Apresentamos essa teoria do Dr. Gustave Geley (1868-1924), conforme o prof. Herculano Pires relata:
Gustave Geley, em seu livro Do Inconsciente ao Consciente, lançou a teoria do pampsiquismo, segundo a qual todas as coisas e seres encerram em si mesmos um dínamo-psiquismo inconsciente que se desenvolve na temporalidade. A psique, ou alma, constituiria assim a essência dinâmica de todas as coisas. Do minério à humanidade se processaria incessantemente o desenvolvimento psíquico universal. Mas Kardec, muito antes de Geley, explicara, em O Livro dos Espíritos, obra básica do Espiritismo, que o espírito se apresenta no Cosmos como um elemento fundamental de toda a realidade conhecida. O Universo inteiro se constitui de dois elementos fundamentais, o espírito e a matéria, de cuja interação resultam, num processo dialético hegeliano, todas as coisas e todos os seres, conhecidos e desconhecidos. […] (PIRES, 2005, p. 41) (grifo nosso).
Tentamos encontrar essa obra de Geley, que é citada no texto; mas, infelizmente, ainda não foi traduzida para o português. Pelo que aqui consta, Herculano Pires, ao que nos parece, comungava dessa ideia. Particularmente acreditamos que o pampsiquismo não se coaduna com o pensamento de Kardec, que foi categórico em afirmar que os corpos inorgânicos não têm vida.

A definição de pampsiquismo, conforme a Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia, é:
Essa palavra vem do grego pan, "tudo", e psuché, "alma". O vocábulo indica que todas as coisas são possuidoras de alma, de algum elemento imaterial, usualmente incluindo a ideia de algum nível de inteligência. […] De acordo com esse ponto de vista, não há tal coisa como matéria inanimada, embora possa haver formas de vidas ativas e altamente inteligentes; mas estaria vivo o próprio humilde átomo, ainda que dormente. E de átomos é que todas as coisas se compõem. Alguns estudiosos têm exposto essa ideia como necessária a qualquer teoria da evolução. Se a matéria é viva, então não é preciso qualquer grande salto de fé para crer-se que a matéria viva poderia ter progredido até formas mais elevadas de vida, com altas expressões de inteligência. (CHAMPLIN e BENTES, 1995, p. 37) (grifo nosso).
Entre vários filósofos, que acreditavam no pampsiquismo, os autores Russell N. Champlin (1933- ) e J. M. Bentes (1932- ) citam: Giordano Bruno (1548-1600), Tomasso Campenella (1568-1639), Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Segundo o Dicionário Houaiss, foi Leibniz quem notabilizou essa doutrina.

Embora, como dito, não tenhamos encontrado a obra de Gustave Geley, referenciada por Herculano Pires, localizamos uma outra de sua autoria, que julgamos oportuno citá-la aqui. Trata-se da obra Resumo da Doutrina Espírita, da qual transcrevemos:
Ciência perfeitamente maleável e susceptível de aperfeiçoamento, só deve avançar passo a passo, repelindo as deduções distantes e as observações apressadas e duvidosas, limitando-se a expor os factos e os pontos bem estabelecidos:

Esses pontos são os seguintes:

1º – No estado atual dos nossos conhecimentos, não podemos admitir o puro materialismo, nem o puro espiritualismo, pois tudo nos leva a crer que não há matéria sem inteligência, nem inteligência sem matéria. Na molécula mineral, vegetal ou animal; na planta, no animal, no homem; no espírito desencarnado, mesmo de grande elevação; no universo, considerado no seu conjunto; numa palavra, em tudo quanto existe, a matéria e a inteligência estão unidas em proporções diversas.

2º – O Universo, no sentido de totalidade, uma vez considerado em partes isoladas, está submetido à evolução progressiva e contínua, tendo em conta que há evolução para o princípio material e evolução para o princípio psíquico.

Esta dupla evolução é homogênea. Uma não pode verificar-se sem a outra. Na base da evolução, a Alma é simples elemento de vida, inteligência que, mercê de tempo, será poderosa. É a chamada força difusa, que associa e mantém as moléculas minerais em forma definida.

No período maduro da evolução, a alma é um princípio vivente, consciente e livre, que só conserva da sua associação com a matéria o mínimo de aspecto orgânico estritamente necessário à manutenção da sua individualidade.

(GELEY, 2009, p. 32) (grifo nosso).
Vê-se que, para Geley, toda matéria tem inteligência, confirma-se, portanto, sua crença no pampsiquismo. Não conseguimos entendê-lo quando diz que "na molécula mineral, vegetal ou animal" e ao reafirmar já não mais parte do mineral mas do vegetal: "na planta, no animal, no homem;", assim, nessa segunda afirmativa deixa de fora o mineral.

5.3 - Da escola sufista?

Quem nos fornece essa informação é o escritor Francisco Aranda Gabilan (?- ) na sua obra Entre o Pecado e a Evolução, da qual transcrevemos o seguinte trecho em que fala de Maulâna Djalal ad-Din Rûmi, nascido no século XIII (1207):
Quanto ao estilo e escola, era sufista, ou seja, representa a parte interior e mística do Islã, que acredita que o espírito humano é uma emanação do divino e que toda a aventura do homem é um só esforço desse espírito para se reintegrar a Deus. Esse movimento – sufismo – data do século VIII e se desenvolveu sobretudo na Pérsia; […] (GABILAN, 2002, p. 20).
Gabilan apresenta esse poema de Rûmi, no qual cita o mineral como ponto de partida da evolução do ser:
Desde que chegaste ao mundo só ser;
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro foste mineral;
Depois, te tornaste planta,
E mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti?
Finalmente, fostes feito homem,
Com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
Vê quão perfeito se tornou!
Quando tiveres cumprido tua jornada,
Decerto hás de regressar como anjo;
Depois disso, terás terminado de vez com a terra,
E tua estação há de ser o céu

(GABILAN, 2002, p. 21)
O problema reside tem tomar uma forma poética de dizer uma coisa como se fosse uma realidade.

5.4 - Do espírito Adelino da Fontoura?:

Recorremos mais uma vez a Gabilan, que nos informa sobre um poema de Adelino na obra Antologia dos Imortais, pela psicografia de Chico Xavier, intitulado 'Jornada":
Fui átomo, vibrando entre as forças do Espaço,
Devorando amplidões, em longa e ansiosa espera...
Partícula, pousei... Encarcerado, eu era
Infusório do mar em montões de sargaço.
Por séculos fui planta em movimento escasso,
Sofri no inverno rude e amei na primavera;
Depois fui animal, e no instinto da fera
Achei a inteligência e avancei passo a passo...
Guardei por muito tempo a experssão dos gorilas,
Pondo mais fé nas mãos e mais luz nas pupilas,
A lutar e chorar, para, então, compreendê-las!...
Agora, homem que sou, pelo Foro Divino,
Vivo de corpo em corpo a forjar destino
Que me leve a transportar o clarão das estrelas!...

(GABILAN, 2002, p. 22)
Vale a mesma consideração do item anterior, pois, aqui também trata-se de um poema.

5.5 - Da "Revelação da Revelação" de Jean-Baptiste Roustaing (1805-1879):
A vida universal está assim, por toda a natureza, em germens eternos, graças a essa quinta-essência dos universal fluidos, que somente a vontade de Deus anima, conformemente as necessidades da harmonia universal, as necessidades de todos os mundos, de todos os remos, de todas as criaturas no estado material ou no estado fluídico.

Ao serem formados os mundos primitivos, na sua composição entram todos os princípios, de ordem espiritual, material e fluídica, constitutivos dos diversos reinos que os séculos terão de elaborar.

O princípio inteligente se desenvolve ao mesmo tempo que a matéria e com ela progride, passando da inércia a vida. Deus preside ao começo de todas as coisas, acompanha paternalmente as fases de cada progresso e atrai a si tudo o que haja atingido a perfeição.

Essa multidão de princípios latentes aguarda, no estado cataléptico, em o meio e sob a influência dos ambientes destinados a fazê-los desabrochar, que o Soberano Mestre lhes dê destino e os aproprie ao fim a que devam servir, segundo as leis naturais, imutáveis e eternas por ele mesmo estabelecidas.

Tais princípios sofrem passivamente, através das eternidades e sob a vigilância dos Espíritos prepostos, as transformações que os hão de desenvolver, passando sucessivamente pelos reinos mineral, vegetal e animal e pelas formas e espécies intermediárias que se sucedem entre cada dois desses reinos.

Chegam dessa maneira, numa progressão contínua, ao período preparatório do estado de Espírito formado, isto é, ao estado intermédio da encarnação animal e do estado espiritual consciente. Depois, vencido esse período preparatório, chegam ao estado de criaturas possuidoras do livre arbítrio, com inteligência capaz de raciocínio, independentes e responsáveis pelos seus atos. Galgam assim o fastígio da inteligência, da ciência e da grandeza.

Em sua origem, a essência espiritual, princípio de inteligência, Espírito em formação, passa primeiro pelo reino mineralAnima o mineral, se deste modo nos podemos exprimir, servindo-nos dos únicos recursos que oferece a linguagem humana apropriada às vossas inteligências limitadas. Tudo, com efeito, na Natureza, tem existência, porquanto tudo morre. Ora, aquilo que morre traz em si o princípio de vida, sendo consequentemente animado por uma inteligência relativa.

Esta palavra - inteligência - pode causar surpresa, tratando-se da vida de uma coisa inerte. Certamente, em tal caso, não há nem pensamento, nem ação. A essência espiritual, nesse estado, se mantém inconsciente de seu ser. Ela é, eis tudo.

No estado então de simples essência de vida, absolutamente inconsciente de seu ser, ela constrói o mineral, a pedra, o minério, atraindo e reunindo os elementos dos fluidos apropriados, por meio de uma ação magnética atraente, dirigida e fiscalizada pelos Espíritos prepostos.

Quanto mais inconsciente é o Espírito no estado de formação, tanto mais direta e incessante é a ação desses Espíritos.

Guardai bem na memória, pois que o dizemos aqui para não mais o repetirmos: em qualquer dos reinos, mineral, vegetal, animal e humano, nada é sem o concurso dos Espíritos do Senhor, que todos têm uma função a desempenhar, uma vigilância a exercer. Não há Espíritos prepostos à formação de um determinado mineral, de um determinado vegetal, de um determinado ser do reino animal, ou do reino humano. Os Espíritos têm uma ação geral e conforme às leis naturais e imutáveis, que ainda não vos é permitido nem possível compreender. A vigilância eles a exercem sobre as massas.

O mineral morre quando é arrancado do meio em que o colocara o autor da natureza. A pedra tirada da pedreira, o minério extraído da mina, deixando de existir, do mesmo modo que a planta separada do solo, perdem a vida natural.
A essência espiritual, que residia nas paredes do mineral, retira-se daí por uma ação magnética, dirigida e fiscalizada pelos Espíritos prepostos, e é transportada para outro ponto.

O corpo do mineral, seus despojos, são utilizados pela humanidade, de acordo com o que suas necessidades lhe impõem.

Não vos admireis de que a coesão subsista no mineral, por séculos muitas vezes, depois que dele se retirou a essência espiritual que foi necessária à sua formação.

Cada espécie de matéria tem suas propriedades relativas, segundo leis naturais e imutáveis que ainda não podeis compreender.
O corpo humano, em certas condições, não conserva coesas todas as suas partes materiais, embora o Espírito já se tenha retirado dele?

Não se observam, entre os vegetais, casos de longa duração material? Certas plantas não conservam as aparências da vida, a frescura dos tons e a rijeza da haste, muito tempo depois de separadas do solo que as alimentava e, por conseguinte, do princípio latente da inteligência que nelas residia?

Tudo na Natureza se mantém e se encadeia e tudo se faz em proveito e utilidade do Espírito que se tornou consciente de seu ser.

Os corpos mortos, sejam pedra, planta, ser do reino animal ou do reino humano, têm que concorrer para a harmonia universal, desempenhando as funções que lhes são assinadas.

A essência espiritual, que no mineral reside, não é uma individualidade, não se assemelha ao pólipo que, por cissiparidade, se multiplica ao infinito. Ela forma um conjunto que se personifica, que se divide, quando há divisão na massa em consequência da extração, e atinge desse modo a individualidade, como sucede com o princípio que anima o pólipo, com o princípio que anima certas plantas. A essência espiritual sofre, no reino mineral, sucessivas materializações, necessárias a prepará-la para passar pelas formas intermédias, que participam do mineral e do vegetal. Dizemos - materializações, por não podermos dizer - encarnações para estrear-se como ser.

Depois de haver passado por essas formas e espécies intermediárias, que se ligam entre si numa progressão contínua, e de se haver, sob a influência da dupla ação magnética que operou a vida e a morte nas fases de existências já percorridas, preparado para sofrer no vegetal a prova, que a espera, da sensação, a essência espiritual, Espírito em estado de formação, passa ao reino vegetal.

É um desenvolvimento, mas ainda sem que o ser tenha consciência de si. A existência material é então mais curta, porém mais progressiva. Não há nem consciência, nem sofrimento. Há sensação.

Assim, a árvore da qual se retira um galho experimenta uma espécie do eco da seção feita, mas não sofrimento. E como que uma repercussão que vai de um ponto a outro, sucedendo o mesmo quando a planta é violentamente arrancada do solo, antes de completado o tempo da maturidade.

Repetimos: há sensação, não há consciência nem sofrimento. E um abalo magnético o que a árvore experimenta, abalo que prepara o Espírito em estado de formação para o desenvolvimento do seu ser.

Morto o vegetal, a essência espiritual é transportada para outro ponto e, depois de haver passado, sempre em marcha progressiva, pelas necessárias e sucessivas materializações, percorre as formas e espécies intermediárias, que participam do vegetal e do animal. Só então, nestas últimas fases de existência, que são as em que aquela essência começa a ter a impressão de um ato exterior, ainda que sem consciência de sua causa e de seus efeitos, há sensação de sofrimento.

Sob a direção e a vigilância dos Espíritos prepostos, o Espírito em formação efetua assim, sempre numa progressão contínua, o seu desenvolvimento com relação à matéria que o envolve e chega a adquirir a consciência de ser.

Preparado para a vida ativa, exterior, para a vida de relação, passa ele ao reino animal.

Torna-se então princípio inteligente de uma inteligência relativa, a que chamais – instinto; de uma inteligência relativa às necessidades físicas, à conservação, a tudo o que a vida material exige, dispondo de vontade e de faculdades, mas limitadas àquelas necessidades, àquela conservação, à vida material, à função que lhe é atribuída, à utilidade que deve ter, ao fim a que é destinado em a natureza, sob os pontos de vista da conservação, da reprodução e da destruição, na medida em que haja de concorrer para a vida e para a harmonia universais.

Sempre em estado de formação, pois que não possui ainda livre arbítrio, inteligência independente capaz de raciocínio, consciência de suas faculdades e de seus atos, o Espírito, sem sair do reino animal, seguindo sempre uma marcha progressiva contínua e de acordo com os progressos realizados e com a necessidade dos progressos a realizar, passa por todas as fases de existência; sucessivas e necessárias ao seu desenvolvimento e por meio das quais chega às formas e espécies intermediárias, que participam do animal e do homem. Passa depois por essas espécies intermediárias, que, pouco a pouco, insensivelmente, o aproximam cada vez mais do reino humano, porquanto, se é certo que o Espírito sustenta a matéria, não menos certo é que a matéria lhe auxilia o desenvolvimento.

Depois de haver passado por todas as transfigurações da matéria, por todas as fases de desenvolvimento para atingir um certo grau de inteligência, o Espírito chega ao ponto de preparação para o estado espiritual consciente, chega a esse momento que os vossos sábios, tão pouco sabedores dos mistérios da natureza, não logram definir, momento em que cessa o instinto e começa o pensamento.

Quando se vos falou do Espírito no estado de infância, no estado, por conseguinte, de ignorância e de inocência; quando se vos disse que o Espírito era criado simples e ignorante, tratava-se, está bem visto, da fase de preparação do Espírito para entrar na humanidade. Fora inconsequente, então, dar esclarecimentos sobre a origem do Espírito. Notai que ela foi deixada na obscuridade. Ainda hoje seria cedo para desenvolver esse ponto. Utilizai-vos, porém, do que vos dizemos, porquanto, ao tempo em que este vosso trabalho aparecer aos olhos de todos, os Espíritos encarnados já se acharão mais dispostos a receber o que então, e mesmo hoje(13), tomariam por uma monstruosidade, ou por uma tolice ridícula.

Atingindo o ponto de preparação para entrarem no reino humano, os Espíritos se preparam, de fato, em mundos ad-hoc, para a vida espiritual consciente, independente e livre. É nesse momento que entram naquele estado de inocência e de ignorância. A vontade do soberano Senhor lhes dá a consciência de suas inocência e faculdades e, por conseguinte, de seus atos, consciência que produz o livre arbítrio, a vida moral, a inteligência independente e capaz de raciocínio, a responsabilidade.

Chegado deste modo à condição de Espírito formado, de Espírito pronto para ser humanizado se vier a falir, o Espírito se encontra num estado de inocência completa, tendo abandonado, com os seus últimos invólucros animais, os instintos oriundos das exigências da animalidade.

A estátua acabou de receber as formas. Sob a direção e a vigilância dos Espíritos prepostos, o Espírito formado se cobre dos fluidos que lhe comporão o invólucro a que chamais - perispírito, corpo fluídico que se torna, para ele, o instrumento e o meio ou de realizar um progresso constante e firme, desde o ponto de partida daquele estado até que haja atingido a perfeição moral, que o põe ao abrigo de todas as quedas; ou de cair, caso em que o perispírito lhe será também instrumento de progresso, de reerguimento, mediante encarnações e reencarnações sucessivas, expiatórias a princípio e por fim gloriosas, até que atinja aquela perfeição moral.
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13. Mês de abril de 1863.

(ROUSTAING, 1984, p. 292-305) (grifo nosso).

Observai como tudo se encadeia na imensa Natureza que o Senhor vos faz descortinar. Observai como em todos os reinos há espécies intermediárias, que ligam entre si todas as espécies, umas participando do mineral e do vegetal, da pedra e da planta; outras do vegetal e do animal, da planta e do animal; outras, enfim, do animal e do homem. São elos preciosos que tudo ligam, que tudo mantêm e pelos quais atravessa o Espírito no estado de formação. Passando sucessivamente por todos os reinos e por aquelas espécies intermediárias, o Espírito, mediante um desenvolvimento gradual e contínuo, ascende da condição de essência espiritual originária à de Espírito formado, à vida consciente, livre e responsável, à condição de homem. São elos preciosos que tudo ligam, que prendem as coisas umas às outras, a fim de que o homem possa mais facilmente compreender a unidade dessa criação tão grande, tão grande, que a inteligência humana é incapaz de apreendê-la e cujos mistérios se recusa a admitir, por não conseguir desvendá-los com seus olhos de toupeira. (ROUSTAING, 1984, p. 319-320) (grifo nosso).

Um único é, originariamente, o ponto de partida para todos os Espíritos: - formação primitiva e rudimentar pela quinta-essência dos fluidos, substância tão sutil que dela, por nenhuma expressão, podem as vossas inteligências limitadas fazer ideia, quinta-essência que a vontade de Deus anima para lhe dar o ser e que constitui a essência espiritual (principio de inteligência) destinada a tornar-se, por uma progressão continua, Espírito, Espírito formado, isto é, inteligência independente, dotada de livre arbítrio, consciente de sua vontade, de suas faculdades e de seus atos.

Segue-se a encarnação, ou melhor, a co-materialização dessa essência espiritual mediante a sua união íntima com a matéria inerte, primeiramente no reino mineral e nas espécies intermediárias que participam do mineral e do vegetal, depois no reino vegetal e nas espécies intermediárias que participam do vegetal e do animal. Desse modo, numa contínua marcha progressiva, se opera o seu desenvolvimento, que a prepara e conduz às raias da consciência da vida.

Em seguida vem a encarnação no reino animal, depois nas espécies intermediárias que, do ponto de vista do invólucro material, participam do animal e do homem, adquirindo assim aquela essência (Espírito em estado de formação), sempre em progressão contínua, a consciência da vida ativa exterior, da vida de relação. O desenvolvimento intelectual que a levará aos limites do período preparatório que precede o recebimento do livre arbítrio, da vida moral, independente e responsável, característica do livre pensador. (ROUSTAING, 1984, p. 355-356) (grifo nosso).
Colocamos essas transcrições da obra de Roustanig, porque as encontramos em nossa pesquisa; porém, pedimos ao leitor que, para aceitá-las ou não, leve em conta as considerações que Kardec fez na Revista Espírita 1866 (p. 190-192), das quais transcrevemos o seguinte trecho:
O autor dessa nova obra acreditou dever seguir um outro caminho; em lugar de proceder por graduação, quis alcançar o objetivo de um golpe. Tratou, por certas questões que não julgamos oportuno abordar ainda, e das quais, consequentemente lhe deixamos a responsabilidade, assim como aos Espíritos que os comentaram. Consequente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa caminhada sobre o desenvolvimento da opinião, não daremos, até nova ordem, às suas teorias, nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de sancioná-las ou de contradizê-las. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais aos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todos os casos, têm necessidade da sanção do controle universal, e até mais ampla confirmação não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita. (KARDEC, 1993i, p. 190-191) (grifo nosso).
De nossa parte ainda questionamos o subtítulo "Revelação das Revelações", que segundo Roustaing, é "os quatro evangelhos, explicados em espírito e verdade pelos Evangelistas com a assistência dos Apóstolos e de Moisés", como sendo uma dele dizer que sua obra está acima da revelação Espírita, o que nos afigura pouco provável, porquanto, não há lógica alguma os Espíritos passarem duas revelações simultâneas, com uma sobrepujando a outra. Por que motivo então, não passaram já a segunda? Será que o "João Evangelista" que aparece entre as assinaturas em O Livro dos Espíritos (KARDEC, 2007a, p. 63) e em duas mensagens, uma em O Evangelho Segundo o Espiritismo (KARDEC, 2007c, p. 167) e a outra em A Gênese (KARDEC,2007b, p. 392) é o mesmo que assistiu a Roustaing? Além dessas manifestações encontramos naRevista Espírita 1861, o registro da ata da sessão geral de 14 de dezembro de 1860, da Sociedade Espírita de Paris, na qual se tem notícia de que "A Senhorita J... teve várias comunicações de João Evangelista" (KARDEC, 1993f, p. 5). Será que o espírito João Evangelista estava sofrendo de transtorno psicótico, se for o mesmo que se manifestou nas duas revelações?

5.6 - Da coleção André Luiz (espírito), psicografia de Francisco Cândido Xavier (1910-2002):

Vários autores citam do livro No Mundo Maior e do Evolução em Dois Mundos, da série André Luiz, respectivamente, os seguintes trechos: "A crisálida de consciência, que reside no cristal a rolar na corrente do rio, aí se acha em processo, libertatório;..." (XAVIER, 1984, p. 45) e "Das cristalizações atômicas e dos minerais, dos vírus e do protoplasma, das bactérias e das amebas, das algas e dos vegetais [...], o princípio espiritual atingiu espongiários e celenterados da era paleozoica, esboçando a estrutura esquelética". (XAVIER, 1987, p. 33).

Vale a pena ver, nessas duas obras, os textos mencionados:

1) No mundo maior
Interrompi o estudo comparativo, depois de acurada perquirição, e fixei Calderaro em silenciosa interrogativa.

O prestimoso mentor argumentou, sorridente:

– Depois da morte física, o que há de mais surpreendente para nós é o reencontro da vida. Aqui aprendemos que o organismo perispirítico que nos condiciona em matéria mais leve e mais plástica, após o sepulcro, é fruto igualmente do processo evolutivo. Não somos criações milagrosas, destinadas ao adorno de um paraíso de papelão. Somos filhos de Deus e herdeiros dos séculos, conquistando valores, de experiência em experiência, de milênio a milênio. Não há favoritismo no Templo Universal do Eterno, e todas as forças da Criação aperfeiçoam-se no Infinito. A crisálida de consciência, que reside no cristal a rolar na corrente do rio, aí se acha em processo liberatório; as árvores que por vezes se aprumam centenas de anos, a suportar os golpes do Inverno e acalentadas pelas carícias da Primavera, estão conquistando a memória; a fêmea do tigre, lambendo os filhinhos recém-natos, aprende rudimentos do amor; o símio, guinchando, organiza a faculdade da palavra. Em verdade, Deus criou o mundo, mas nós nos conservamos ainda longe da obra completa. Os seres que habitam o Universo ressumbrarão suor por muito tempo, a aprimorá-lo. Assim também a individualidade. Somos criação do Autor Divino, e devemos aperfeiçoar-nos integralmente. O Eterno Pai estabeleceu como lei universal que seja a perfeição obra de cooperativismo entre Ele e nós, os seus filhos.

O mentor silenciou por instantes, sem que me acudisse ânimo suficiente para trazer qualquer comentário aos seus elevados conceitos.

Logo após, indicou-me a medula espinhal e continuou:

– Creio ociosa qualquer alusão aos trabalhos primordiais do nosso longo drama de vida evolutiva. Desde a ameba, na tépida água do mar, até o homem, vimos lutando, aprendendo e selecionando invariavelmente. Para adquirir movimento e músculos, faculdades e raciocínios, experimentamos a vida e por ela fomos experimentados, milhares de anos. As páginas da sabedoria hinduísta são escritos de ontem, e a Boa-Nova de Jesus-Cristo é matéria de hoje, comparadas aos milênios vividos por nós, na jornada progressiva. (XAVIER, 1984, p. 45-46) (grifo nosso).
Como é que um cristal, que rola no leito de um rio, "morre" para que a crisálida, que possivelmente esteja nele, passe para o estágio evolutivo seguinte? Quando nós usamos esses cristais, incrustando-os nas paredes de nossas casas, a crisálida ficaria ali presa indefinidamente? Devemos proteger os cristais como estamos procurando fazer em relação aos seres vivos dos outros reinos da natureza? Esses são alguns quesitos que poderíamos fazer ao nobre assistente de André Luiz.
Interrompeu-se o Assistente por alguns segundos, como a dar-me tempo para refletir.

Em seguida, continuou, atencioso:

– Na verdade, não há nisso mistério algum. Voltemos aos ascendentes em evolução, O princípio espiritual acolheu-se no seio tépido das águas, através dos organismos celulares, que se mantinham e se multiplicavam por cissiparidade. Em milhares de anos, fez longa viagem na esponja, passando a dominar células autônomas, impondo-lhes o espírito de obediência e de coletividade, na organização primordial dos músculos. Experimentou longo tempo, antes de ensaiar os alicerces do aparelho nervoso, na medusa, no verme, no batráquio, arrastando-se para emergir do fundo escuro e lodoso das águas, de modo a encetar as experiências primeiras, ao sol meridiano. Quantos séculos consumiu, revestindo formas monstruosas, aprimorando-se, aqui e ali, ajudado pela interferência indireta das Inteligências superiores? Impossível responder, por enquanto. Sugou o seio farto da Terra, evolucionando sem parar, através de milênios, até conquistar a região mais alta, onde conseguiu elaborar o próprio alimento.

Calderaro fixou em mim significativo olhar e perguntou:

– Compreendeste suficientemente?

Ante o assombro das ideias novas que me fustigavam a imaginação, impedindo-me o minucioso exame do assunto, o esclarecido companheiro sorriu e continuou:

– Por mais esforços que envidemos por simplificar a exposição deste delicado tema, o retrospecto que a respeito fazemos sempre causa perplexidade. Quero dizer, André, que o princípio espiritual, desde o obscuro momento da criação, caminha sem detença para frente. Afastou-se do leito oceânico, atingiu a superfície das águas protetoras, moveu-se em direção à lama das margens, debateu-se no charco, chegou à terra firme, experimentou na floresta copioso material de formas representativas, ergueu-se do solo, contemplou os céus e, depois de longos milênios, durante os quais aprendeu a procriar, alimentar-se, escolher, lembrar e sentir, conquistou a inteligência. Viajou do simples impulso para a irritabilidade, da irritabilidade para a sensação, da sensação para o instinto, do instinto para a razão. Nessa penosa romagem, inúmeros milênios decorreram sobre nós. Estamos, em todas as épocas, abandonando esferas inferiores, a fim de escalar as superiores. O cérebro é o órgão sagrado de manifestação da mente, em trânsito da animalidade primitiva para a espiritualidade humana. (XAVIER, 1984, p. 57-59) (grifo nosso).
Nesse trecho da obra, ficamos com a impressão de que o assistente de André Luiz já não mais fala nada do reino mineral; porém, que progredia através de organismos celulares, que, como se sabe, fazem parte dos seres vivos.

2) Evolução em dois mundos
A imensa fornalha atômica estava habilitada a receber as sementes da vida e, sob o impulso dos Gênios Construtores, que operavam no orbe nascituro, vemos o seio da Terra recoberto de mares mornos, invadido por gigantesca massa viscosa a espraiar-se no colo da paisagem primitiva.

Dessa geleia cósmica, verte o princípio inteligente, em suas primeiras manifestações...

Trabalhadas, no transcurso de milênios, pelos operários espirituais que lhes magnetizam os valores, permutando-os entre si, sob a ação do calor interno e do frio exterior, as mônadas celestes exprimem-se no mundo através da rede filamentosa do protoplasma de que se lhes derivaria a existência organizada no Globo constituído.

Séculos de atividade silenciosa perpassam, sucessivos...

NASCIMENTO DO REINO VEGETAL — Aparecem os vírus e, com eles, surge o campo primacial da existência, formado por nucleoproteínas e globulinas, oferecendo clima adequado aos princípios inteligentes ou mônadas fundamentais, que se destacam da substância viva, por centros microscópicos de força positiva, estimulando a divisão cariocinética.

Evidenciam-se, desde então, as bactérias rudimentares, cujas espécies se perderam nos alicerces profundos da evolução, lavrando os minerais na construção do solo, dividindo-se por raças e grupos numerosos, plasmando, pela reprodução assexuada, as células primevas, que se responsabilizariam pelas eclosões do reino vegetal em seu início.

Milênios e milênios chegam e passam...

FORMAÇÃO DAS ALGAS — Sustentado pelos recursos da vida que na bactéria e na célula se constituem do líquido protoplásmico, o princípio inteligente nutre-se agora na clorofila, que revela um átomo de magnésio em cada molécula, precedendo a constituição do sangue de que se alimentará no reino animal.

O tempo age sem pressa, em vagarosa movimentação no berço da Humanidade, e aparecem as algas nadadoras, quase invisíveis, com as suas caudas flexuosas, circulando no corpo das águas, vestidas em membranas celulósicas, e mantendo-se à custa de resíduos minerais, dotadas de extrema motilidade e sensibilidade, como formas monocelulares em que a mônada já evoluída se ergue a estágio superior.

Todavia, são plantas ainda e que até hoje persistem na Terra, como filtros de evolução primária dos princípios inteligentes em constante expansão, mas plantas superevolvidas nos domínios da sensação e do instinto embrionário, guardando o magnésio da clorofila como atestado da espécie.

Sucedendo-as, por ordem, emergem as algas verdes de feição pluricelular, com novo núcleo a salientar-se, inaugurando a reprodução sexuada e estabelecendo vigorosos embates nos quais a morte comparece, na esfera de luta, provocando metamorfoses contínuas, que perdurarão, no decurso das eras, em dinamismo profundo, mantendo a edificação das formas do porvir.

DOS ARTRÓPODOS AOS DROMATÉRIOS E ANFÍTRIOS — Mais tarde, assinalamos o ingresso da mônada, a que nos referimos, nos domínios dos artrópodos, de exosqueleto quitinoso, cujo sangue diferenciado acusa um átomo de cobre em sua estrutura molecular, para, em seguida, surpreendê-la, guindada à condição de crisálida da consciência, no reino dos animais superiores, em cujo sangue — condensação das forças que alimentam o veículo da inteligência no império da alma — detém a hemoglobina por pigmento básico, demonstrando o parentesco inalienável das individuações do espírito, nas mutações da forma que atende ao progresso incessante da Criação Divina.

Das cristalizações atômicas e dos minerais, dos vírus e do protoplasma, das bactérias e das amebas, das algas e dos vegetais do período pré-câmbrico aos fetos e às licopodiáceas, aos trilobites e cistídeos aos cefalópodes, foraminíferos e radiolários dos terrenos silurianos, o princípio espiritual atingiu espongiários e celenterados da era paleozoica, esboçando a estrutura esquelética.

Avançando pelos equinodermos e crustáceos, entre os quais ensaiou, durante milênios, o sistema vascular e o sistema nervoso, caminhou na direção dos ganóides e teleósteos, arquegossauros e labirintodontes para culminar nos grandes lacertinos e nas aves estranhas, descendentes dos pterossáurios, no jurássico superior, chegando à época supracretácea para entrar na classe dos primeiros mamíferos, procedentes dos répteis teromorfos.

Viajando sempre, adquire entre os dromatérios e anfitérios os rudimentos das reações psicológicas superiores, incorporando as conquistas do instinto e da inteligência. (XAVIER, 1987, p. 31-34) (grifo nosso).

AUTOMATISMO E HERANÇA — Assim como na coletividade humana o indivíduo trabalha para a comunidade a que pertence, entregando-lhe o produto das próprias aquisições, e a sociedade opera em favor do indivíduo que a compõe, protegendo-lhe a existência, no impositivo do aperfeiçoamento constante, nos reinos menores o ser inferior serve à espécie a que se ajusta, confiando-lhe, maquinalmente, o fruto das próprias conquistas, e a espécie labora em benefício dele, amparando-o com todos os valores por ela assimilados, a fim de que a ascensão da vida não sofra qualquer solução de continuidade.

Se, no círculo humano, a inteligência é seguida pela razão e a razão pela responsabilidade, nas linhas da Civilização, sob os signos da cultura, observamos que, na retaguarda do transformismo, o reflexo precede o instinto, tanto quanto o instinto precede a atividade refletida, que é base da inteligência nos depósitos do conhecimento adquirido por recapitulação e transmissão incessantes, nos milhares de milênios em que o princípio espiritual atravessa lentamente os círculos elementares da Natureza, qual vaso vivo, de forma em forma, até configurar-se no indivíduo humano, em trânsito para a maturação sublimada no campo angélico.

Desse modo, em qualquer estudo acerca do corpo espiritual, não podemos esquecer a função preponderante do automatismo e da herança na formação da individualidade responsável, para compreendermos a inexequibilidade de qualquer separação entre a Fisiologia e a Psicologia, porquanto ao longo da atração no mineral, da sensação no vegetal e do instinto no animal, vemos a crisálida de consciência construindo as suas faculdades de organização, sensibilidade e inteligência, transformando, gradativamente, toda a atividade nervosa em vida psíquica. (XAVIER, 1987, p. 38-39) (grifo nosso).

GENEALOGIA DO ESPÍRITO – [...]

Em verdade, porém, para não cairmos nas recapitulações incessantes, em torno de apreciações e conclusões que a ciência do mundo tem repetido à saciedade, acrescentaremos simplesmente que as leis da reprodução animal, orientadas pelos Instrutores Divinos, desde o casulo ferruginoso do leptótrix, através da retração e expansão da energia nas ocorrências do nascimento e morte da forma, recapitulam ainda hoje, na organização de qualquer veículo humano, na fase embriogênica, a evolução tilogenética de todo o reino animal, demonstrando que além da ciência que estuda a gênese das formas, há também uma genealogia do espírito.

Com a Supervisão Celeste, o princípio inteligente gastou, desde os vírus e as bactérias das primeiras horas do protoplasma na Terra, mais ou menos quinze milhões de séculos, a fim de que pudesse, como ser pensante, embora em fase embrionária da razão, lançar as suas primeiras emissões de pensamento contínuo para os Espaços Cósmicos. (XAVIER, 1987, p. 52-53) (grifo nosso).
Muito técnicas essas considerações de André Luiz, que não nos permite, por falta de conhecimento, delinear o seu pensamento com segurança, pois, em princípio, pareceu-nos que aponta o reino mineral como sendo o início da evolução da mônada; entretanto, pelo último parágrafo, tem-se a impressão de que, para ele, o ponto inicial já não é mais o reino mineral. E para complicar mais ainda, vemos duas outras falas nas quais essa visão parece-nos existir:
É assim que o tato nasceu no princípio inteligente, na sua passagem pelas células nucleares em seus impulsos amebóides; que a visão principiou pela sensibilidade do plasma nos flagelados monocelulares expostos ao clarão solar; que o olfato começou nos animais aquáticos de expressão mais simples, por excitações do ambiente em que evolviam; que o gosto surgiu nas plantas, muitas delas armadas de pelos viscosos destilando sucos digestivos, e que as primeiras sensações do sexo apareceram com algas marinhas providas não só de células masculinas e femininas que nadam, atraídas uma para as outras, mas também de um esboço de epiderme sensível, que podemos definir como região secundária de simpatias genésicas. (XAVIER, 1987, p. 40-41) (grifo nosso).

[…] Com a Supervisão Celeste, o princípio inteligente gastou, desde os vírus e as bactérias das primeiras horas do protoplasma na Terra, mais ou menos quinze milhões de séculos, a fim de que pudesse, como ser pensante, embora em fase embrionária da razão, lançar as suas primeiras emissões de pensamento contínuo para os Espaços Cósmicos. (XAVIER, 1987, p. 53) (grifo nosso).
A referência às células nucleares, vírus e bactérias, nos remete à ideia de que se fala de seres vivos, se for esse o caso, então os seres inorgânicos estariam de fora, via de consequências os minerais, que são classificados como tais.

Com relação ao tato vejamos o que consta em A caminho da Luz, ditado pelo Espírito Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, que discorrendo sobre os primeiros habitantes da Terra, afirma:
Dizíamos que uma camada de matéria gelatinosa envolvera o orbe terreno em seus mais íntimos contornos. Essa matéria, amorfa e viscosa, era o celeiro sagrado das sementes da vida. O protoplasma foi o embrião de todas as organizações do globo terrestre, e, se essa matéria, sem forma definida, cobria a crosta solidificada do planeta, em breve a condensação da massa dava origem ao surgimento do núcleo, iniciando-se as primeiras manifestações dos seres vivos.

Os primeiros habitantes da Terra, no plano material, são as células albuminóides, as amebas e todas as organizações unicelulares, isoladas e livres, que se multiplicam prodigiosamente na temperatura tépida dos oceanos.

Com o escoar incessante do tempo, esses seres primordiais se movem ao longo das águas, onde encontram o oxigênio necessário ao entretenimento da vida, elemento que a terra firme não possuía ainda em proporções de manter a existência animal, antes das grandes vegetações; esses seres rudimentares somente revelam um sentido - o do tato, que deu origem a todos os outros, em função de aperfeiçoamento dos organismos superiores. (A caminho da luz, p. 26-27) (grifo nosso).
A impressão que nos fica é que para Emmanuel a origem do processo se incia em seres primordiais, que, certamente, estão entre os orgânicos.

3) Missionários da Luz
– Não se esqueça, André, de que a reencarnação significa recomeço nos processos de evolução ou de retificação. Lembre-se de que os organismos mais perfeitos da nossa Casa Planetária procedem inicialmente da ameba. Ora, recomeço significa "recapitulação" ou "volta ao princípio". Por isso mesmo, em seu desenvolvimento embrionário, o futuro corpo de um homem não pode ser distinto da formação do réptil ou do pássaro. O que opera a diferenciação da forma é o valor evolutivo, contido no molde perispirítico do ser que toma os fluidos da carne. Assim, pois, ao regressar à esfera mais densa, como acontece a Segismundo, é indispensável recapitular todas as experiências vividas no longo drama de nosso aperfeiçoamento, ainda que seja por dias e horas breves, repetindo em curso rápido as etapas vencidas ou lições adquiridas, estacionando na posição em que devemos prosseguir no aprendizado. Logo depois da forma microscópica da ameba, surgirão no processo fetal de Segismundo os sinais da era aquática de nossa evolução e, assim por diante, todos os períodos de transição ou estações de progresso que a criatura já transpôs na jornada incessante do aperfeiçoamento, dentro da qual nos encontramos, agora, na condição de humanidade. (XAVIER, 1986, p. 234) (grifo nosso).
Dessa fala do instrutor Alexandre a André Luiz de que os organismos mais perfeitos procedem inicialmente da ameba, não vimos outra coisa senão que o processo evolutivo do corpo tenha se iniciado na ameba, um ser unicelular, que não se trata de um mineral.

5.7 - De Joanna de Ângelis (espírito):

O que se segue transcrevemos do livro Conflitos Existenciais, capítulo 10 – Violência, ditado por Joana de Ângelis, pela psicografia de Divaldo P. Franco:
No processo antropossociopisicológico da evolução, o princípio espiritual adquire experiências, emoções e conhecimento através do trânsito pelos diferentes reinos da Natureza, nos quais desabrocham os recursos divinos que se lhe encontram em germe.

Dormindo no mineral, lentamente exteriorizam-se-lhe as energias de aglutinação molecular, ampliando as possibilidades no despertar do vegetal, quando cresce em recursos de sensibilidade, a fim de liberar os instintos no trânsito animal, desabrochando as faculdades da inteligência, da razão, da consciência na fase humana, e avançando para a conquista da intuição que se dá no período angélico. (FRANCO, 2005, p. 115) (grifo nosso).
Mais à frente encontramos, nessa mesma obra:
É necessário que haja a morte orgânica, a fim de que ocorram alterações, aperfeiçoamentos. Tem sido por meio do processo nascer, viver, morrer, que as formas aprimoram-se através dos milhões de anos, em sucessivas experiências, agasalhando o princípio espiritual que as vem modelando, na busca de melhor estrutura e mais perfeita harmonia. (FRANCO, 2005, p. 229) (grifo nosso).
Exatamente, o argumento que utilizamos para "resistir" que o princípio inteligente tenha passado pelo reino mineral. Diante disso, s.m.j., achamos que ao falar que o "processo nascer, viver, morrer, que as formas aprimoram-se" Joanna entra em conflito com o que ela mesmo disse sobre o princípio inteligente dormir no mineral.

6. Conclusão

Pelo que se pode ver, não há ainda, no meio Espírita, uma posição nítida em relação ao assunto. Entretanto, levando-se em conta as opiniões do Codificador, que mais ressalta o ponto inicial como sendo o reino vegetal, estaríamos, pelo menos por enquanto, mais para defender essa posição.

Quanto à questão de ter passado pelo reino animal, para nós é pacífica. Fora tudo que já apresentamos, podemos ainda trazer a opinião pessoal do próprio Codificador, mencionada pelo seu amigo, o Capitão Bourgués, autor do livro "Psychologie Transformiste-Evolution de l’Intelligence", conforme citação de Charles Trufy, Causeries Spirities constante da obra Da Bíblia aos nossos dias, de Mário Cavalcanti de Melo (?-?):
Quando Kardec fez sua viagem espírita em 1862, nos veio visitar em Provins, onde nos encontrávamos acampados; tivemos a alegria de ter o mestre alguns dias conosco. Em sua palestra ele não nos escondeu nossa origem animal, e nos falou do progresso que devia fazer o espírito para chegar à perfeição. Ele nos recomendou, sobretudo, de aprofundar todos os ramos da Ciência, assegurando-nos que nos elevaríamos por ela, e que encontraríamos no Livro dos Espíritos os elementos para tudo conhecer e tudo abraçar. (MELO, 1954, p. 95) (grifo nosso).
Certamente, que se Kardec fosse da opinião que o princípio inteligente tivesse passado pelo reino mineral teria dito isso; porém, ele só afirma a nossa origem animal, a não ser que tomemos a declaração acima como inverídica. Quanto à questão do reino vegetal, o pensamento de Kardec passa a aceitar mais para o final de sua vida, conforme vimos e, por várias vezes, insistimos em lembrar esse fato.

Temos uma opinião bem interessante que é a do companheiro Luiz Gonzaga Pinheiro (?- ), autor do livro Perispírito e suas modelações, do qual transcrevemos:
O princípio inteligente não pode agir diretamente sobre a matéria, a não ser revestindo-se de outro tipo de matéria semicondensada que possibilite o intercâmbio de informações e sensações de um para o outro.

O início de nosso estudo sobre o perispírito começa neste ponto, onde o princípio inteligente aliando-se aos cristais demora-se por séculos, forçando a matéria a obedecer a uma geometria definida, tornando seu esboço perispiritual maleável, gravando no mesmo, formas e linhas precisas.

Quanto aos corpos brutais, tais como os minerais (rochas, Ferro, Zinco, Ouro, dentre outros) abstenho-me de comentários, mesmo porque não encontro pouca lógica na união do princípio inteligente na matéria bruta, onde ele ficaria apático sem nenhuma aprendizagem. Na condição de prisioneiro em matéria bruta ele permaneceria adormecido, estático, sem registros, a não ser que esteja desenvolvendo uma afinidade de ordem química.

A dificuldade em se admitir o princípio inteligente adormecido na matéria bruta deve-se as transformações que ela sofre, às vezes, irreversíveis. Alguém poderá sustentar que o princípio inteligente encontra-se inerte na matéria. Mas em que tipos de materiais? O Ferro é trabalhado pelo fogo e serve às necessidades humanas. De outra feita sofre oxidação e é consumido pela ferrugem. A rocha é desgastada pelas intempéries e virá pó. Outro tanto vai para as construções de estradas e residências. O Ouro é transformado em joias para adornar a vaidade e fomentar a cobiça, ou fica preso em cofres fortes. O Zinco atende as necessidades da construção civil. Poder-se-ia dizer que nesses materiais o princípio inteligente estaria adormecido: E o que ocorreria com ele, caso habitasse esses materiais, quando os mesmos sofrem transformações irreversíveis tais como a queima da madeira? Uma lei não pode ser estabelecida em cima de incertezas. Ou o princípio inteligente encontra-se adormecido nos minerais ou não. Apelando para o senso prático, perguntamos: por que estaria, para nada aprender ou em nada contribuir?

Onde a matéria bruta inicia um princípio de organização formal (não falo de átomos e moléculas) obedecendo a formas geométricas em sua divisão, é que iniciaremos o nosso estudo, colocando aí a união dos dois princípios, material e inteligente, gênese da mais admirável de todas as sagas do universo, a busca da autonomia espiritual. (PINHEIRO, p. 36-37) (grifo nosso).
Deixamos propositalmente para o final, para demonstrar que, embora aceitando que o princípio inteligente tenha estagiado no reino mineral, Pinheiro, diferentemente de muitos autores espíritas, delimita-o apenas nos cristais. Não descartamos haver uma grande possibilidade de que outros estudiosos espíritas também possam ter essa mesma opinião.

Uma coisa tem que ficar clara, para todos nós, é sobre isto que Kardec disse, que, aqui, fazemos questão de repetir: "O Livro dos Espíritos não é um tratado completo do Espiritismo; não faz senão colocar-lhe as bases e os pontos fundamentais, que devem se desenvolver sucessivamente pelo estudo e pela observação". (KARDEC, 1993i, p. 223), portanto, o assunto poderá estar ainda em aberto para uma posterior decisão. Quem sabe se já não estamos a caminho dela?...
Físicos quânticos afirmam que o elétron que viaja, sem um caminho visível, entre as órbitas do átomo, em seus saltos quânticos, apresenta um "comportamento". A uma partícula elementar que apresenta comportamento entende-se que essa partícula, mesmo de forma simples e rudimentar, se apresenta "inteligente".

Essa forma de inteligência é ainda desconhecida, tanto que explicá-la pela ciência acadêmica é tarefa ainda impossível. Porém, é possível inferir pelos postulados da Doutrina Espírita, que há inteligência na matéria, possibilitando a sua relação com o "princípio inteligente". (AUNI, 2011, p. 182-184) (grifo nosso).
Certamente que a aceitação dessa hipótese levantada por Adams Auni (?- ) vai demorar, entretanto, mais dia, menos dia a verdade virá à tona, vencendo todos os obstáculos que lhe surgem pela frente. Aí vale o adágio popular: "quem sobreviver verá". 
 
Paulo da Silva Neto Sobrinho
set/2006.
(revisado dez/2012) 
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(A versão original, bem reduzida, com apenas sete páginas, foi publicada na Revista Espiritismo e Ciência, Ano 4, nº 46, p. 29-32).
 Fonte:http://www.aeradoespirito.net/ArtigosPN/A_ALMA_DORME_NO_MINERAL_PN.html

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