terça-feira, 9 de abril de 2013

JOÃO GUIMARÃES ROSA - AFORISMOS EM GRANDE SERTÃO : VEREDAS



"O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima."



Aforismos em Grande Sertão: veredas


"O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima." (pág.01)


"Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade..." (pág.01)


"O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte." (pág.01)


"E me inventei neste gosto de especular idéia." (pág.03)


"Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças - eu digo. Pois não ditado: menino - trem do diabo? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes. ... O diabo na rua, no meio do redemoinho." (pág.04)


"Tudo é e não é..." (pág.05)


"O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta... vem o pão, vem a mão, vem o cão." (pág.05)


"Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa." (pág.08)


"Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente – dá susto de saber – nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza..." (pág.08)


"...universinho nosso aqui. Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!" (pág.11)


"Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou." (pág.15)


"Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso..." (pág.17)


"Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe? Tem seus motivos. Agora – digo por mim – o senhor vem, veio tarde. Tempos foram, os costumes demudaram. Quase que, de legítimo leal, pouco sobra, nem não sobra mais nada." (pág.17)


"Sempre, nos gerais, é a pobreza, à tristeza. Uma tristeza que até alegra..." (pág.17)


"Os lugares sempre estão aí em si, para confirmar." (pág.19)


"Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra. Vaqueiros..." (pág.22)


"Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. ... Viver nem não é muito perigoso?" (pág.26)


"Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente – o escuro, escuros." (pág.26)


"Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?" (pág.29)


"... – o senhor vá ver. Hoje, mudou de nome, mudaram. Todos os nomes eles vão alterando. ...Nome de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado...." (pág.32)


"... Viver é muito perigoso." (pág.38)


"Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato..." (pág.44)


"Vereda em vereda, como os buritis ensinam, a gente varava para após."(pág.45)


"No sertão, até enterro simples é festa." (pág.46)


"A colheita é comum, mas o capinar é sozinho." (pág.46)


"... O estatuto de misérias e enfermidades...." (pág. 47)


"... Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - ..." (pág.48)


"O sertão é do tamanho do mundo." (pág.60)


"Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto." (pág.69)


"As pessoas, e as coisas, não são de verdade! E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades? Será que, nós todos, as nossas almas já vendemos?" (pág.82)


"O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam..." (pág.82)


“Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe." (pág.82)

"Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada..." (pág.92)


"O que ele queria era botar na cabeça, duma vez o que os livros dão e não." (pág.109)


"O real roda e põe adiante. - 'Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todo.” (pág.118)


"Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois." (pág.118)


"Sozinho sou, sendo, de sozinho careço, sempre nas estreitas horas – isso procuro." (pág.131)


"...digo. Esta vida está cheia de ocultos caminhos. Se o senhor souber, sabe; não sabendo, não me entenderá." (pág.132)


"...Sertão é isto o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo." (pág.134)


"Artes que morte e amor têm paragens demarcadas. No escuro..." (pág.135)


"Amigo era o braço, e o aço! Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por que é que é." (pág.155)


"Mas a natureza da gente é muito segundas-e – sábados. Tem dia e tem noite, versáveis, em amizade de amor." (pág.155)


"Só é possível o que em homem se vê, o que por homem passa." (pág.156)


"...Senhor sabe: de bel-ver, bel-fazer e bel-amar." (pág.167)


“Vou para os Gerais! Vou para os Gerais!” (pág.180)


"Vou longe. Se o senhor já viu disso, sabe: se não sabe, como vai saber? São coisas que não cabem em fazer idéia." (pág.183)


"Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesmo nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é." (pág.207)


"Do vento. Do vento que vinha, rodopiado, Redemoinho: senhor sabe – a briga de ventos. Quando um esbarra com outro, e se enrolam, o doido do espetáculo." (pág.213)


"A fantasia, minha agora, nesta conversa – o senhor me atalhe. Se não, o senhor me diga: preto é preto? branco é branco? Ou: quando é que a velhice começa, surgindo de dentro da mocidade." (pág.214)


– “Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima – me disseram. Mas, de repente, chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada...” (pág.226)


– “O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei...”
– “Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo...”
– “O senhor não é do sertão. Não é da terra...” (pág.227)


"Ah, este Norte em remanência: progresso forte, fartura para todos, a alegria nacional!...
A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro..." (pág.243)


"Sertão sempre. Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera: digo." (pág.249)


"O senhor vê, nos Gerais longe: nuns lugares, encostando o ouvido no chão, se escuta barulho de fortes águas, que vão rolando debaixo da terra. O senhor dorme em sobre um rio?" (pág.255)


"... Sertão é o sozinho... Sertão: é dentro da Gente." (pág.270)


"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende." (pág.271)


"Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor." (pág.272)


"Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num compito." (pág.273)


"O sertão tem medo de tudo. Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem – que Ele é bondade adiante, quero dizer. O senhor escute o buritizal. E meu coração vem comigo." (pág.273)


"Esses Gerais em serras planas, beleza por ser tudo tão grande, repondo a gente pequenino." (pág.276)


"O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatilho?" (pág.300)


"O Sertão é sem lugar." (pág.310)


"Catrumanos do sertão. Do fundo do sertão. O sertão: o senhor sabe..." (pág.343)


"Sertão, - se diz -, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem." (pág.355)


“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas" (pág.363)


"O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo." (pág.382)


“O sertão é bom. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado...” – ele seo Ornelas dizia. – “O sertão é confusão em grande demasiado sossego...” (pág.400)


“Oxalá, o senhor via, o senhor venha... O sertão carece ... Isto consoante que quiser, a esta casa Deus o traga...” (pág.401)


"Pouco se vive, e muito se vê... – Um outro pode ser a gente; mas a gente não pode ser um outro, nem convém..." (pág.405)


"Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só - a inteira - cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber?" (pág.427)


"...O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão, lá acolá é a caatinga..." (pág.432)


"O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa... Aquilo eu repeli?" (pág.437)


"Travessia – do sertão – a toda travessia... Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias!" (pág.443)


"... Só que o sertão é grande ocultado demais..." (pág.446)


- “Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: - ... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.” (pág.460)


"O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente..." (pág.461)


"... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento. E os brabos bichos, do fundo dele..." (pág.479)


"Sei o grande sertão? Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas..." (pág.508).


"Sertanejos, mire e veja: o sertão é uma espera enorme." (pág.509)


"O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca..." (pág.518)

- “Tu não acha que todo o mundo é doido? Que um só deixa de doido ser é em horas de sentir a completa coragem ou o amor? Ou em horas em que consegue rezar?” (pág.520)

"O senhor vê aonde é o sertão? Beira dele, meio dele?... Tudo sai mesmo de escuros buracos, tirando o que vem do céu." (pág.527)


"Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia." (pág.538)
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ROSA, João Guimarães, "Grande Sertão: veredas", 36ª impressão, Editora Nova Fronteira, 1988.
 
 
 


"Tenho medo de tentar comparações. Não direi, por isso, que a obra de Guimarães Rosa é a maior da literatura brasileira de todos os tempos. Direi porém que nenhuma outra, de nenhum escritor, me deu até hoje, entre brasileiros, a mesma idéia de tratar-se de criação absolutamente genial."
- Sérgio Buarque de Hollanda


Ilustração,de Poty - 1.ª orelha, pictograma, capa e folha de
rosto da primeira edição de Grande Sertão, mapa e dedicatórias.

"A raridade com que se entremostra nas seiscentas páginas de Grande Sertão: Veredas valoriza a presença do mar como símbolo cujo sentido não se revela claramente, mas que roça com um largo sopro de poesia trechos de grande intensidade emocional.Romance de rios, romance de afluentes espraiados no sertão, sem saída para o oceano, o mar nele aparece como o grande desconhecido, mistério que se associa à morte, à eternidade, ao fim de tudo, quando a vida deságua no infinito."
- Manoel Cavalcante Proença

 


O LIVRO
 
O Grande Sertão: veredas é considerado uma das mais significativas obras da literatura brasileira e lusófona. Publicada em 1956, inicialmente chama atenção por sua dimensão – mais de 600 páginas – e pela ausência de capítulos. É o único romance escrito por Guimarães Rosa, publicado no mesmo ano que Corpo de Baile.
[...]


"Grande sertão: veredas é desses livros inesgotáveis, que podem ser lidos como se fossem uma porção de coisas: romance de aventuras, análise da paixão amorosa, retrato original do sertão brasileiro, invenção de um espaço quase mítico, chamada à realidade, fuga da realidade, reflexão sobre o destino do homem, expressão de angústia metafísica, movimento imponderável de carretilha entre real e fantástico e assim por diante."
- Antônio Cândido

“O que houve que se deu. Que vi. Com a sede sofrida, um incha, padece nas vistas, chega fica cego. Mas vi. Foi num átimo. Como que por distraído: num dividido de minuto, a gente perde o tino por dez anos. Vi: ele – o chapéu que não quebrava bem, o punhal que sobressaia muito na cintura, o monho, o mudar das caras... Ele era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez uma careta, que sei que brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio pessoa!...”
- João Guimarães Rosa, in: GSV.

 
Fonte:http://www.elfikurten.com.br/