AFINAL , O QUE É PERVERSÃO

Afinal, o que é Perversão?

Este texto se propõe a uma investigação estrutural do conceito de Perversão para Freud. Considerando a polissemia que a palavra comporta, reportando a componentes morais, históricos, médicos e à trajetória de Freud na busca de uma definição do sintoma perverso, entendemos que não é irrelevante a tentativa de uma delimitação epistemológica do campo da perversão, que vá além de uma descrição fenomenológica de casos para um estudo teórico da construção deste conceito.

Meya Culpa - José d'Almeida e Maria Flores
Perversão: A origem do interesse científico e a gênese do conceito

Possível passo inicial para essa investigação seria uma breve recapitulação do processo de apropriação científica do termo “Perversão”. Segundo Castro (2004), a busca do conhecimento científico sobre a sexualidade veio responder a uma demanda positivista e jurídica sobre as alienações mentais e as práticas socialmente bizarras no século XIX. Sendo assim, pode-se dizer que a medicina legal, em sua origem, propõe uma visão de juízo moral sobre os comportamentos sexuais, tendo como parâmetro regras fisiológicas, com um forte conteúdo de função social normativa. Segundo Fleig (2008), “(...) o perverso se caracterizaria como aquele cujo comportamento se afastaria do que estaria prescrito pela natureza. No campo sexual, segundo a doutrina da Igreja, a natureza indica sua estrita finalidade: a reprodução”(Id.,2008,p.15).
Dessa forma, qualquer comportamento que desviasse dos objetivos de perpetuação da espécie seriam considerados patológicos. A partir desse momento então a ciência, incorporada pela Medicina e apoiada pelo poder judiciário, passa a definir a moral da época, postulando quais práticas eróticas são naturais e quais são prejudiciais e patológicas (Pereira, 2009). A idéia de “defeito moral” produz por fim a figura do sujeito perverso, retratada a partir principalmente de uma convergência entre crueldade e desvio da genitalidade. Pode-se dizer que essa figura, entregue pela medicina ao campo jurídico, veio responder a uma demanda social de culpabilização (Frota Neto e Rudge, 2009). O perverso incorpora o papel social de bode expiatório, ao torno do qual se produz uma coesão entre os outros sujeitos, calcada na afirmação das diferenças entre ele – o perverso - e todos os outros.
Foucault (1976) ressalta que esse período inicial da teorização sobre as perversões, e pode-se dizer que mais precisamente a obra de Krafft-Ebing, teve sua importância por situar as práticas sexuais pela primeira vez como objeto do rigoroso discurso científico. Trata-se de um período significativo, mas que ainda é marcado por uma perspectiva que traz a sexualidade como uma instância de “caráter patológico em potencial” e não como parte constitutiva do sujeito, já que o discurso estaria focado apenas nos comportamentos desviantes das normas vigentes. Aí já estão demarcados alguns pontos de divergência entre o conhecimento médico sobre o assunto e a posterior construção psicanalítica.

A origem da construção do saber psicanalítico sobre a perversão: uma primeira visão

Seguido de uma rápida gênese científica do termo, buscaremos agora uma gênese do conceito psicanalítico de perversão. Segundo Castro (2004), “num primeiro momento de construção teórica freudiana, a expressão perversão sexual designava a qualidade aberrante da própria sexualidade”, o que, em algum nível, encontrava-se em consonância com a visão médica vigente. Vamos observar como a escuta psicanalítica do sintoma perverso foi aos poucos modificando esse entendimento até que Freud chegasse à noção de perversão como condição básica da sexualidade.
Podemos entender em Freud duas concepções distintas sobre o termo perversão: a primeira está ligada à estrutura básica da sexualidade infantil e a segunda irá se reportar ao momento da Castração e do Complexo de Édipo, fortes componentes culturais na constituição do sujeito psíquico.
Partindo da primeira concepção, expressa nos três ensaios sobre a sexualidade (1905), podemos caracterizar a neurose como o negativo da perversão. A idéia principal desse primeiro momento do desenvolvimento da teoria é que a Perversão estaria configurada a partir de um predomínio das pulsões parciais (pré-genitais) sobre a genitalidade. Dessa forma, o sujeito que desviava do comportamento sexual da norma (genital e direcionado aos fins de reprodução), produzindo um investimento libidinal em um objeto de desejo perverso, não teria feito a entrada no Complexo de Édipo, o que por fim permite dizer que o Perverso não experimentaria o medo da castração.
Também na obra Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud traz a existência da atividade sexual infantil, sendo ela modelo para a sexualidade adulta, bem como a condição da criança de “perversa polimorfa”, que aos poucos seria moldada de acordo com padrões e normas ditadas pela cultura. Essa noção da cultura sobrepondo-se à perversão remete à origem do termo como sendo uma fuga da norma social.
A noção de pulsão é essencial para o entendimento da sexualidade em Freud. Ela pode ser descrita como uma descarga de energia que flui continuamente impulsionando o sujeito na busca de sua satisfação. O objeto, segundo Freud (1996[1915]), “É o que há de mais variável na pulsão e, originalmente, não está ligado a ela, só lhe sendo destinado por ser peculiarmente adequado a tornar possível a satisfação”. Por isso não existe um objeto único ao qual o sujeito deverá ligar-se para satisfazer suas fantasias, havendo, portanto, uma normalidade subjacente a diversas práticas sexuais que poderiam ser consideradas “depravadas”.

O Fetichismo: A posterior elaboração sobre o processo da Desmentida

Com o texto do Fetichismo, em 1927, Freud apresenta uma leitura diferente do que designa a perversão e neste momento há a ruptura ainda mais brusca com a visão médico-jurídica, pois ela vai além da idéia de uma fixação sexual infantil que não teria sido recalcada. O texto talvez seja ponto crucial para o entendimento da visão freudiana sobre o assunto, pois traz o conceito que designa a forma como o sujeito perverso lida com a castração: a Verleugnung ou a Desmentida, em tradução do alemão para o português.
A Desmentida, ou Recusa, refere-se ao momento da descoberta da criança sobre a diferença dos sexos e a constatação da falta do membro masculino nas meninas e ao mesmo tempo da inexistência de um falo real, que no seu imaginário teria um dia existido na mãe como objeto de plena satisfação e que lhe fora tão prezado, devido à própria posição fálica assumida pela mãe. Ao buscar um substituto para esse pênis que não existe, o sujeito então nega a sua inexistência, nega a própria falta. Produz-se aí a posição que Lacan denomina como a clivagem do eu, pois o sujeito se constitui a partir de duas verdades que são conflitantes mas que não anulam-se: “Ela tem o falo/ Ela não tem o falo”. O verbo recusar ou desmentir já assinala a presença de um saber negado pela criança, ou seja, o que existe não é uma ausência de recalque, mas uma tentativa de esconder a falta que muitas vezes a revela.
Freud (1927) traz que a intensidade do investimento libidinal ao objeto fetiche é tantas vezes tão exacerbada justamente por configurar um esforço muito grande (e constante) para manter esta falta tapada, pois a premissa inicial, de que a mãe não tem o falo, está sempre presente e concomitante à essa substituição.
A Desmentida surge também com um caráter de defesa e proteção narcísica do próprio sujeito: se a mãe é castrada, é por que alguém a castrou; é possível, portanto que ele também venha a sofrer a castração. Ao estabelecer um substituto do pênis materno que “tape” a sua falta, o sujeito distancia a possibilidade da sua própria castração. Além disso, defende-se também da angústia de ser engolido, pois a mãe enquanto castrada poderia apropriar-se da criança colocando-a na posição do objeto fálico perdido.
A saída dessa recusa da renúncia à satisfação pulsional se dará de forma a substituir o pênis percebido como faltante na mulher por um fetiche. Por isso, conforme seu artigo de 1927, Freud irá considerar o Fetichismo como um paradigma que explica o funcionamento da perversão. A construção do fetiche se funda no mecanismo de deslocamento e manutenção da contradição marcando o perverso numa posição de mestre do seu saber e do seu gozo.
Estabelecer e nomear a forma através da qual o sujeito defende-se da castração (da falta, a partir do conceito lacaniano) é o que permite situar a Perversão não mais como um agrupamento de comportamentos sexualmente “desajustados”, mas sim como uma estrutura de funcionamento psíquico, da mesma forma que o são a neurose e a psicose. Como consequência, é possível uma leitura mais abrangente dos sintomas, já que estes carregariam consigo uma verdade do paciente a ser desvelada, verdade esta que possui certa lógica interna e que não pode ser denominada apenas como um defeito moral ou desvio de conduta.
Fica demarcada aí a principal diferença entre os dois períodos da construção psicanalítica sobre a perversão: este segundo, mais definitivo, seria baseado na afirmação de que o perverso está sim inserido no complexo de Édipo, inclusive a entrada do sujeito em tal estrutura psíquica se dá por essa via, mesmo que exista uma resolução diferente do complexo em comparação à neurose. Se há entrada no complexo, fica claro que há também o medo da castração, sendo este o fator impulsionador da escolha do objeto de fetiche ou das outras formas de estabelecimento do sintoma através do processo da Desmentida.



O Conceito de Véu e as variadas modalidades perversas

Ao descrever a Verleugnung para o fetiche, o texto possibilita que se construa uma visão mais ou menos universal do mesmo processo em outras formas de sintoma perverso, pois independente da maneira como este se apresenta, a posição subjetiva perversa se fundaria sempre a partir da Desmentida.
Lacan (1956-1957/1995) adicionou ao conceito freudiano de Verleunung o conceito de véu. O véu seria um anteparo, colocado sobre aquilo que falta, e que se configura como um elemento com duas funções: ele é ao mesmo tempo o que esconde a falta, mas também é o que designa, que dá uma “imagem” àquilo que a princípio não existe. Com relação ao véu (ou cortina) Lacan diferencia duas posições em que o sujeito pode situar-se. Ou ele coloca-se mesmo diante do véu, sujeito que vê aquilo que o véu esconde, ao mesmo tempo em que mostra (e vê-se também constantemente capturado por essa imagem), ou pode situar-se atrás do véu. Nessa segunda posição, há uma identificação direta do sujeito com a mãe (e com o que lhe falta), já que coloca-se atrás do véu que cobre o nada com o qual se identifica.
Julien (2004) descreve e situa as modalidades de perversão, as formas do sintoma perverso, de acordo com o critério dessa diferença de posição com relação ao véu. O Fetichismo é a modalidade que talvez seja mais facilmente relacionada ao sujeito que coloca-se diante do véu: o objeto de fetiche, em suas variadas formas (pés, cabelo, calcinha ou até o curioso “brilho do nariz” descrito por Freud no texto sobre o Fetichismo), é colocado sobre a falta fálica e o anteparo da sua imagem é o próprio sujeito, captado por ela.
No Masoquismo o sujeito também situa-se diante do véu. Essa modalidade perversa é descrita por Freud em seu texto “Espanca-se uma criança” (1919). O Outro possui o símbolo fálico e demonstra sua potência na subjugação do sujeito. O gozo masoquista encontra-se nesta submissão ao poder fálico do outro, “personificado” pelo chicote ou por outro instrumento qualquer que cumpra a função de demonstrar potência. O nome “Masoquismo” tem sua origem na obra de Léopold de Sacher Masoch, que descreveu a sua satisfação em ser subjugado por essas vias durante o ato erótico.
O Voyeurismo também faz parte do grupo de perversões em que o sujeito situa-se diante do véu. O Voyeur é aquele que abre uma fenda nesse véu, fenda esta que permite que ele tenha acesso direto à intimidade do outro, sendo que a introdução em seu mundo privado é o que permite o contato do perverso com o desejo e o gozo alheio, em uma posição de objeto. O sujeito coloca-se como a própria fenda, buscando uma posição de cumplicidade do Outro, que ele fique interessado e participe deste ritual de demonstração.
Por fim, Julien traz a homossexualidade feminina também como modalidade em que o sujeito situa a cortina à sua frente e entre ele e o falo faltante. Freud descreve o caso de uma jovem homossexual intitulado como “Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina” (1920). Essa jovem, durante o complexo de Édipo que se estendeu até a aolescência, desejava engravidar e ter um filho do seu pai. O que acontece, no entanto, é a gravidez de sua mãe no mesmo período, e o nascimento de um irmão mais novo. A menina, decepcionada pelo investimento do pai em outra mulher que não ela, volta-se à figura da mãe (incorporada posteriormente pela mulher mais velha à qual se vincula). Ela passa a ser a criança desta senhora, como substituição à sua falta fálica.
No grupo das perversões em que o sujeito situa-se atrás do véu, identificando-se com a mãe e com seu falo que não há, Julien coloca o transvestismo, o sadismo, o exibicionismo e a homossexualidade masculina.
O transvestismo diz respeito a uma identificação do sujeito com a mãe que tem o falo, o que o levaria a utilizar roupas femininas. É mais uma maneira de esconder a falta do objeto. Pode-se descrever a imagem do travesti desta forma: é uma “mulher” que possui o pênis no real, sendo que o órgão passa a carregar consigo o valor também de elemento fálico simbólico.
O sujeito sádico também identifica-se com a mãe fálica, pois é ele que possui o instrumento do poder fálico que vem a subjugar o outro. É importante ressaltar aqui que, segundo Deleuze, o Sadismo não deve ser definido por uma relação de complementaridade com o Masoquismo, nem como seu inverso (Julien, 2004). Dessa forma, quebra-se o mito de que existe o sadomasoquismo, já que essas duas instâncias são independentes.
Da mesma forma, o exibicionismo não estaria em relação complementar ao voyeurismo. Para o entendimento do exibicionismo também é trazido o conceito de fenda, já que o sujeito entreabre o campo de visão do outro, oferecendo à sua visão aquilo que ele possui: o falo. Nesse momento ele está identificado com a mãe não-castrada e revela ao outro aquilo o que é suposto que ele não tenha.
A homossexualidade masculina, por fim, se daria quando o sujeito, ao fim do complexo de Édipo, e à altura em que deve substituir a mãe por outro objeto de desejo, produz uma inversão: passa a identificar-se com a mãe e dirigir-se a objetos que tomariam o lugar antes ocupado pelo seu próprio eu, sobre os quais a partir deste momento ele pode investir o mesmo amor que a mãe até então investira nele próprio.



Reflexão: A importância da escuta clínica como princípio para o estabelecimento de um diagnóstico estrutural

A descrição dos tipos de perversão fazem pensar que essas classificações talvez ainda situem-se muito na lógica do que é sexual (e desviante da norma). Como estabelecer um diagnóstico de perversão em sujeitos que em todos os outros âmbitos de sua vida psíquica possuem um funcionamento neurótico e situam-se como tal? Refere-se que o neurótico também pode possuir “traços perversos”, pois às vezes há, na neurose, traços masoquistas ou voyeuristas, por exemplo, e o que diferenciaria um funcionamento neurótico do perverso seria a rigidez com que o perverso coloca sua escolha objetal como condição para o gozo. Mas mesmo assim, se for uma rigidez restrita ao campo sexual, não pode dizer respeito apenas a uma “modalidade de gozo”? Essa modalidade de gozo, mesmo quando rígida, relaciona-se sempre com a forma como o sujeito lida com a lei e com o saber? Esse questionamento parece interessante porque a perversão como tal, dentro da própria teoria psicanalítica, não se situa só a partir da descrição de comportamentos sexuais específicos, mas também por esses outros fatores, que só serão desvendados a partir da escuta clínica e não pela descrição fenomenológica de um tipo de comportamento que o sujeito possa vir a ter.
Esse ponto parece ainda mais evidente com relação à homossexualidade, pois se pode pensar que talvez no caso das outras categorias descritas, a rigidez denote mesmo um amor narcísico, devido a um direcionamento da libido à imagem de objetos (objeto fetiche, porrete, calcinha, cinta-liga) que tem como objetivo maior a proteção da potência fálica do próprio sujeito. No caso da homossexualidade, no entanto, há um investimento libidinal e um interesse no outro, que pode situar e ser situado como sujeito. Além disso, o sujeito homossexual pode admitir a existência de lacunas do seu saber sobre o desejo do outro. Pode-se dizer que muitas vezes a relação homossexual se dá, também, nos mesmos moldes “heterossexuais-neuróticos” (mais facilmente aceitáveis como “sadios”), com a única diferença de se tratar de pessoas do mesmo sexo. Penso que a atenção sobre esse ponto seja interessante para não correr-se o risco de estabelecer uma patologização do desejo e da sexualidade em suas inúmeras formas de expressão.

Por Lúcia Karam Tietboehl e Rita Pereira Barboza

Referências Bibliográficas:
Fleig, M. (2008). O desejo perverso. Porto Alegre, RS: CMC. Foucault, M. (2007). História da Sexualidade. 18 ed. São Paulo: Graal Freud, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Em: S., Freud. Obras Psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Vol VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. _____. Fetichismo (1927). Em: S., Freud. Obras Psicológicas Completas: edição standard brasileira. Volume XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996b. Frota Neto, E. H.; Rudge, A. M. (2009). Da perversão à expiação: uma mudança de perspectiva. Rev. latinoam. psicopatol. fundam., São Paulo, v. 12, n. 1, mar. 2009 Julien, P. (2004). Psicose, perversão, neurose : a leitura de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud Lacan, J. (1956-1957/1995). O Seminário, Livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: J. Zahar Lira Staccioli Castro, S. (2004).Aspectos teóricos e clínicos da perversão. Dissertação de Mestrado não-publicada, Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica, RJ. Pereira, M. E. C. (2009). Krafft-Ebing, a Psychopathia Sexualis e a criação da noção médica de sadismo. Rev. latinoam. psicopatol. fundam., São Paulo, v. 12, n. 2, jun. 2009

Fonte:http://www6.ufrgs.br/psicopatologia/wiki/index.php/



PSICOPATOLOGIA E TIPOS DE PERVERSÃO



PERVERSÕES SEXUAIS OU PARAFILIAS
 
As parafilias, antigamente chamadas de perversões sexuais, são atitudes sexuais diferentes daquelas permitidas pela sociedade, sendo que as pessoas que as praticam não têm atividade sexual normal, ou seja, a sua preferência sexual "desviada" se torna exclusiva.
Tais atitudes (exceto a pedofilia) podem estar presentes em pessoas com vida sexual normal, apenas sendo uma variação da maneira de se obter prazer, sem que se caracterize um transtorno. Para se tornar patológica essa preferência deve ser de grande intensidade e exclusiva, isto é, a pessoa não se satisfaz ou não consegue obter prazer com outras maneiras de praticar a atividade sexual.
É importante ressaltar que ela se torna exclusiva porque exclui o normal, mas pessoas parafílicas podem ter dois ou mais tipos de parafilias ao mesmo tempo.
As parafilias são praticadas por uma pequena porcentagem da população, mas como essas pessoas cometem atitudes parafílicas com muita freqüência e repetição, tem ocorrido um grande número de vítimas delas.
Em geral, as perversões sexuais são mais comumente vistas em homens, e o tipo de parafilia mais comum é a pedofilia.
Os tipos de parafilia são abaixo descritos:
 

Exibicionismo
É quando a pessoa mostra seus genitais a uma pessoa estranha, em geral em local público, e a reação desta pessoa a quem pegou de surpresa lhe desperta excitação e prazer sexual, mas geralmente não existe qualquer tentativa de uma atividade sexual com o estranho. As pessoas que abaixam as calças em sinal de protesto ou ataque a preceitos morais não são exibicionistas, pois não fazem isso com finalidade sexual.
Fetichismo
É quando a preferência sexual da pessoa está voltada para objetos, tais como calcinhas, sutiãs, luvas ou sapatos, sendo que a pessoa utiliza tais objetos para se masturbar ou exige que a parceira sempre use o objeto em questão durante o ato sexual, caso contrário não conseguirá se excitar e realizar o ato sexual.
Fetichismo transvéstico
É caracterizado pela utilização de roupas femininas por homens heterossexuais para se excitarem, se masturbarem ou realizarem o ato sexual, sendo que em situações não sexuais se vestem de forma normal. Quando passam a se vestir como mulheres a maior parte do tempo, pode haver um transtorno de gênero, tipo transexualismo por baixo dessa atitude. É importante ressaltar que o fetichismo transvéstico também só é diagnosticado como uma parafilia quando é feito de forma repetitiva e exclusiva para obter prazer sexual.
Frotteurismo
É a atitude de um homem que para obter prazer sexual, necessita tocar e esfregar seu pênis em outra pessoa, completamente vestida, sem o consentimento dela, excitando-se e masturbando-se nessa ocasião. Isso ocorre mais comumente em locais onde há grande concentração de pessoas, como metrôs, ônibus e outros meios de locomoção públicos.
Pedofilia
Envolve pensamentos e fantasias eróticas repetitivas ou atividade sexual com crianças menores de 13 anos de idade. Está muito comumente associado a casos de incesto, ou seja, a maioria dos casos de pedofilia envolve pessoas da mesma família (pais/padrastos com os filhos e filhas). Em geral o ato pedofílico consiste em toques, carícias genitais e sexo oral, sendo a penetração menos comum. Hoje em dia, com a expansão da internet, fotos de crianças têm sido divulgadas na rede, sendo que olhar essas fotos, de forma freqüente e repetida, com finalidade de se excitar e masturbar-se consiste em pedofilia.
Masoquismo e Sadismo Sexual
Existe masoquismo quando a pessoa tem necessidade de ser submetida a sofrimento, físico ou emocional, para obter prazer sexual, e o sadismo é quando a pessoa tem necessidade em infligir sofrimento (físico ou emocional) a um outro, e disso decorre excitação e prazer sexual. O mais comum ao se pensar em sadomasoquismo é associar o sofrimento a agressões físicas e torturas, mas o sofrimento psicológico também pode ser considerado forma de sadomasoquismo, e consiste na humilhação que se pode sentir ou impor. Atos sadomasoquistas só serão considerados parafilias quando forem repetitivos e exclusivos, sendo que quando eles ocorrem ocasionalmente, dentro de um relacionamento sexual normal, são apenas formas alternativas de prazer, e não uma perversão.
Voyeurismo
É quando alguém precisa observar pessoas que não suspeitam estarem sendo observadas, quando elas estão se despindo, nuas ou no ato sexual, para obter excitação e prazer sexual.

É importante ressaltar que essas condições só serão consideradas doenças quando elas forem a única forma de sexualidade do indivíduo, e que a tentativa dele em recorrer a outras formas de sexualidade para obter prazer sexual geralmente serão fracassadas, o que levará a pessoa a continuar insistindo na mesma atitude.
As parafilias decorrem de alterações psicológicas durante as fases iniciais do crescimento e desenvolvimento da pessoa. Em geral pessoas que apresentam tais problemas não buscam tratamento espontaneamente, o que só acontecerá quando seu comportamento gerar conflitos com o parceiro sexual ou com a sociedade. Sendo assim, tais pessoas aparecem em consultórios psiquiátricos trazidas contra sua vontade ou são presas por serem flagradas ou denunciadas.
O tratamento se constitui em tratamentos psicológicos (psicanálise, psicoterapias) e, ou uso de algumas medicações.
O tratamento dependerá da avaliação do caso específico de cada paciente e em geral não se consegue uma boa resposta, ou seja, é muito difícil ter melhoras nesses casos.

Colaboradoras:
Dra. Alice Sibile Koch
Dra. Dayane Diomário da Rosa

Fonte:http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?325

QUAL O LIMITE ENTRE FANTASIA E PERVERSÃO SEXUAL

Fantasiar sobre sexo é um recurso natural para alcançar o prazer, diz Kátia Horpaczky, psicóloga clínica e psicoterapeuta sexual, de família e casal. Segundo ela, fantasiar é imaginar, devanear, sonhar. “Sem a fantasia, não há desejo sexual”, afirma. Além de induzir à excitação ou ao orgasmo e aumentar o prazer da atividade sexual, a fantasia pode funcionar como substituto da experiência real – que, muitas vezes, é inacessível. As fantasias ajudam a quebrar a rotina e o desgaste do dia-a-dia. “Em muitos casos, o baixo desejo sexual pode ser decorrente de pouca ou de nenhuma fantasia sexual em nossas vidas”, diz Kátia. A fantasia sexual não deve ser confundida, no entanto, com perversão – ou “parafilia”, termo que os especialistas preferem usar para se referir aos transtornos sexuais antes descritos como “perversões”, como o exibicionismo e a pedofilia. A parafilia se caracteriza por impulsos sexuais intensos e recorrentes, por fantasias e/ou comportamentos não convencionais, capazes de causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo na vida familiar, ocupacional e social da pessoa, por seu caráter compulsivo. “Está configurada a parafilia quando há necessidade de se substituir a atividade sexual convencional por qualquer outro tipo de expressão sexual, sendo este substitutivo a preferida ou única maneira de a pessoa conseguir excitar-se”, diz Kátia. “Na parafilia, os meios se transformam em fins e de maneira repetitiva, configurando um padrão de conduta rígido que, na maioria das vezes, acaba por se transformar numa compulsão opressiva que impede outras alternativas sexuais.”

DOSSIÊ-PERVERSÃO

Os perversos não são extra-humanos, mas demasiadamente humanos; definir a perversão é um paradoxo ético.  
 Christian Ingo Lenz Dunker 

A perversão é uma das três grandes estruturas da psicopatologia psicanalítica. Ao lado da psicose e da neurose, ela representa um tipo específico de subjetividade, desejo e fantasia. Comparativamente, seu diagnóstico é mais difícil e controverso: consideram-se a extensão e variedade de seus sintomas, bem como sua alta suscetibilidade à dimensão política. Nas perversões podemos incluir aproximativamente três subgrupos: as perversões sexuais, as personalidades antissociais e os tipos impulsivos. Essa subdivisão é problemática e apenas descritiva, pois cruza categorias originadas em diferentes tradições clínicas.
Devemos distinguir uma perversão ordinária de uma perversão extraordinária, representada pelos “tipos concentrados” com os quais a perversão foi historicamente associada, para, em seguida, ser excluída, silenciada e expulsa da condição humana. Aquela que seria a forma mais forte de perversão, como confronto e desafio à lei, é, na verdade, expressão de um tipo coletivo de exagero da lei, baseado na atração pela forma, desligada e deslocada de seu conteúdo.
“Perversão”, assim, seria o nome para o que nos desperta indignação. Mas, porque o estado social “normal” não representa necessariamente o bem ético, torna-se difícil pensar a perversão de modo simples. A anomalia que nega a norma pode ser um desvio progressivo, útil ou benéfico. Além disso, mesmo a dissociação entre a norma e seu oposto, entre real e ideal, entre o bem e o mal, é justamente uma das características da perversão.


Tipologia da perversão
Isso posto, há três famílias principais da perversão. A primeira refere-se ao exagero ou à diminuição de algo, que, sob justa medida, seria tolerável e até mesmo desejável. O perverso, assim, estereotipa um comportamento, fixa-se em um modo de estar com o outro e de orientar sua satisfação. Tome-se o exemplo de um sujeito que, para encontrar satisfação sexual, deve empregar adereços como calcinhas, vestir-se com roupas do sexo oposto, admirar partes específicas do corpo do parceiro ou manipulá-las de modo bizarro. Tudo isso, sem “exagero”, seria parte admissível de um encontro sexual, mas, quando sua presença torna-se coercitiva, necessária e condicional, percebemos que há uma espécie de excesso. A parte toma conta do todo.
A segunda família de perversões decorre da idéia de desvio. Trata-se aqui da metáfora da vida como um caminho, no qual o perverso “toma um atalho” ou elege para si “outra via”. Ele se desgarra dos outros, torna-se alguém fora da ordem, fora do lugar adequado. Curiosamente, essa negação da “norma” funciona como reafirmação de sua força. Se a primeira perversão é definida pelo traço de exagero, a ideia central do segundo tipo é a de deslocamento, inversão e dissociação.
A terceira classe de perversão é formada pelos que marcam seu compromisso com a transgressão, com a violação da lei, da moral ou dos costumes. Essa transgressão não é efeito secundário, mas decorre da identificação do sujeito com a lei. Alude-se aqui à lei materna (em oposição à lei paterna) para designar essa relação de passividade radical e de disposição soberana sobre o corpo do outro. Apesar da extrema variedade histórica e antropológica, há duas maneiras básicas de perversão da lei: afirmá-la por meio de uma negação ou negá-la por meio de uma afirmação.


Perversão e lei
No primeiro caso, a lei está escrita em alguma parte, intérpretes confiáveis e executores fiéis. Dessa perspectiva, exagera-se o caráter formal da lei, de maneira que sua execução deixe de aparecer como efeito de agentes empíricos dotados de sensibilidade. Ou seja, cria-se uma exceção à lei dentro da lei. Não importa se o modo de relação com o objeto é contrário à lei social instituída (como a pedofilia ou o assassinato do parceiro sexual); se ele é indiferente a essa lei (como o sujeito que obrigatoriamente deve “tatuar” sua parceira com uma caneta Bic durante o intercurso sexual para encontrar orgasmo); ou se ele é parasitário da lei socialmente instituída (como no filme O Cheiro do Ralo, no qual o fetiche do cheiro se especifica como traço adicional nas relações de compra e venda de objetos). O importante é que, do ponto de vista do sujeito, afirma-se a lei para negá-la.
A segunda forma de perversão da lei aparece quando o sujeito nega a lei para afirmá-la em outro nível. A satisfação não decorre de uma “falsa submissão a uma falsa lei”, mas da elevação do sujeito à condição de autor da lei.Esse é o caso dos que se identificam com o objeto para causar angústia no outro, ou seja, para dividir o outro e assim fugir à sua própria divisão. São as chamadas personalidades psicopáticas, hoje personalidades antissociais, nas quais predomina o sadismo: nego a lei socialmente compartilhada para afirmar uma lei maior, cuja enunciação está em minhas mãos.
A questão se complica se observamos que a lei considerada como fato positivo para a definição de perversão não é apenas a lei como ordenamento jurídico, nem a lei como conjunto de costumes, mas a lei que, a cada momento, é a pré-condição que orienta nossa escolhas, juízos e desejos. Mesmo que ela não esteja escrita nem encontre corpo em um código formal ou informal, essa lei está pressuposta a cada vez que agimos. O problema da perversão torna-se mais interessante se observarmos que a lei que orienta a vida desejante do sujeito, a partir de seu inconsciente, não é outra que uma versão da lei social corrente, institutiva das relações de autoridade e pertinência, de ordem e de poder, de família e de Estado. Uma é versão da outra, uma père-version (versão do pai) como diria Lacan (psicanalista francês, 1901-1981).


A matriz das perversõesA psicanálise chama de supereu essa lei interna ou essa voz que interdita certos tipos de satisfação, obrigando a outros. O supereu é a matriz ordinária de nossas perversões particulares e, ao mesmo tempo, a língua na qual expressamos e somos expressos pela lei social. Segundo essa tese, nossa consciência crítica, tida por muitos como a maior realização da razão humana, é ao mesmo tempo um olhar no qual nos aprisionamos, a voz do exagero e engrandecimento (das exigências, dos ideais e das expectativas normativas) e o núcleo de nossa satisfação e de nossa culpa em transgredir.
Por exemplo, vibrar em êxtase vendo um formigueiro pegar fogo não é um ato ilegal, mas sugere um tipo de gozo associado com a perversão. Qualquer criança explora esse tipo de satisfação, até que seus pais a convidem à seguinte “inversão de perspectiva”: “Imagine se você fosse uma formiga? Iria gostar de ver a casa pegar fogo?”. Esse tipo de inversão faz com que abandonemos uma gramática da satisfação – nesse caso o sadomasoquismo – em prol de outra. Cada um de nós possui uma história composta de gramáticas como estas: exibicionismo e voyeurismo, heterossexualidade e homossexualidade, feminilidade e masculinidade. Há gramáticas pulsionais mais simples, tais como ingerir e expelir, dar e receber, bater e apanhar, e há gramáticas mais complexas e mais abrangentes tais como ser e ter ou aceitar ou recusar.
Contudo, a tese psicanalítica é a de que a sexualidade infantil possui a característica de ser perversa, por explorar, exagerar e transgredir os diferentes modos de satisfação, e de ser polimorfa, por admitir muitas formas, plásticas e mutáveis.  A perversão no adulto diferencia-se disso por seu caráter de fixidez (uniforme) e pela função subjetiva de desautorização da lei. Assim, a perversão não é só uma questão de infração procedimental da lei, mas refere-se ao tipo de intenção (ou de desejo), ao modo como nos colocamos, e situamos o outro, diante do que fazemos.
É nesse ponto que a definição popular de perversão argumentará que ela ocorre justamente por falta de sentimentos morais como a culpa, a vergonha e o nojo. Daí a ausência de arrependimento, de reparação e de consideração pelo outro que historicamente fez dos perversos os ícones da maldade. Eles não apenas praticam o mal, mas, principalmente, gostam de fazer mal aos outros, especialmente quando se comprazem em causar angústia, terror e tortura. Ora, o que acontece aqui não é a ausência de supereu, que poderia ser curada com a administração massiva da lei,  mas a construção de uma espécie de supereu ampliado, como se algumas de suas funções fossem experienciadas, de modo deslocado, fora do sujeito, ou seja, no seu infeliz e circunstancial parceiro.

Perversão e experiência comum
Os mais diferentes e insólitos tipos de satisfação estão presentes em todos nós, de forma atenuada, disfarçada ou restrita. Não é pela ausência ou presença dessas tendências que podemos definir a perversão. Os perversos não são extra-humanos, mas demasiadamente humanos. O problema para definir a perversão, nesse sentido, é que temos de resolver o chamado paradoxo ético do ato. Não basta saber se ele é conforme ou contrário à lei, mas saber qual tipo de experiência ele produz em quem o realiza e o tipo de posição que ele confere ao outro.
Há vários exemplos de como o gozo, ou seja, o tipo de satisfação ordenado pelo supereu constitui uma perversão particular e ao mesmo tempo um fator político incontornável. Há, por exemplo, um fascínio espontâneo por aquele que se coloca no lugar de supereu.  A atração exercida por líderes e “celebridades”, assim como pelos sistemas totalitários, sejam eles nações, instituições, corporações ou mesmo empresas e grupos, baseia-se neste sentimento de que eles expressam em exterioridade nossa própria relação perversa com a lei. Diante disso, estaremos voluntariamente dispostos a servir como instrumento do gozo do outro, posto que ele é o meio pelo qual posso ter acesso deslocado à minha própria fantasia, exagerada pelo fato de ser vivida em massa. Isso tudo sem o ônus da culpa e do risco que estariam em jogo se eu me dispusesse a realizá-la por meios próprios.
A chave para entender esse tipo de perversão ordinária está na dissociação e na simplificação produzidas pela montagem da fantasia. Dissociação e simplificação encontradas na principal expressão sintomática da perversão, a saber, o fetiche, ou seja, esta propriedade ou esta função que permite transformar outro em objeto inanimado (meio de gozo para meus fins) e reversamente o objeto em outro animado (fim para o qual todos os meios se justificam). Em acordo com a regra perversa da inversão, o fetiche é a condição básica a que todo objeto deve atender para tonar-se viável no universo de consumo. Para funcionar como tal, ele deve conseguir dissociar seu potencial de ilusão, por um lado, de seu efeito de decepção, por outro. Não é um acaso que Karl Marx (1818-1883) tenha descrito a economia capitalista baseando-se no fetiche da mercadoria.
Outro exemplo de montagem perversa são os sistemas e dispositivos burocráticos responsáveis pela judicialização da vida cotidiana. A burocracia é uma forma regrada e metódica de produzir anonimato e álibi para nosso desejo e, portanto, para confirmar a máxima perversa de que “o outro deseja, mas segundo a lei que eu determino”. Nessa medida, há tanta perversão nos excessos alimentares – no bulímico e no anoréxico – quanto no discurso de vigilância sanitária sobre nossa alimentação, para não falar do exibicionismo de uma infância sexualizada pela moda, o voyeurismo de nossos reality shows, a estética pornográfica de nossas produções culturais, o sadismo de nossos programas de violência ao vivo, o masoquismo do trabalho e da “vida corporativa”, o descompromisso “líquido” de nossa vida amorosa, a cultura da drogadição (legal e ilegal), e tantos fenômenos que costumam ser reunidos sob a hipótese da perversão generalizada. Ao contrário da perversão clássica, a perversão ordinária de nossos tempos é uma perversão flexível, silenciosa e pragmática. Ela não se mostra como experiência “fora da lei”, que convidaria a ajustar as contas com os limites de nossa própria liberdade, mas, ao contrário, é mais perniciosa, pois reafirma nossa realidade assim como ela é.
As articulações que constituem a perversão, tais como a transgressão, a exageração e a dissociação, tornaram-se aspectos decisivos de nosso laço social ordinário.  Bem-vindos à perversão nossa de cada dia.


Fonte:http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/dossie-perversao/

PERVERSÃO-ESTUDANDO O TEMA

Falaremos nesse nesse texto a respeito da perversão hoje, e de algumas modificações e esclarecimentos que se fazem necessários.
Sabemos que Freud fazia três fundamentais diferenciações para os quadros em psicopatologia psicanalítica: a primeira as neuroses de transferência ou neuroses propriamente ditas; as neuroses narcísicas ou narcisistas, conhecidas como as psicoses e as perversões, tendo como característica essas últimas o desvio quanto o objetivo sexual e de objeto, resultando na impossibilidade da vivência da genitalidade propriamente dita.


Objetivo Sexual

Objetivo sexual "normal" - união dos órgãos genitais que conduz ao alívio de tensão sexual e uma extinção temporária do instinto (pulsão) sexual. No curso psicossexual normal se encontram rudimentos perversos nas chamadas carícias preliminares.
Indo adiante nessa questão encontraremos:

Interdição (Em Lacan)

Dupla
1º Tempo    ------------   &nbs
p;   2º Tempo  ----------3º Tempo



Célula Narcísica  ->Separação -> sujeito psíquico
Quando não se completa a passagem pela fase, teríamos:

1º  Tempo - Posição Psicótica
2º  Tempo - Posição Perversa
3º  Tempo - Posição Neurótica

Ao estudar as perversões temos que estar atentos a delicadeza da linha que separa a a patologia de uma moralidade normalizadora. Nesses aspectos a psicanálise deverá estar sempre atenta, como fazemos questão de ressaltar sempre aqui, à sua vocação para a rebeldia, para romper com os aspectos por demais exigentes dos mecanismos sociais e que levam na verdade à própria estruturação do adoecimento psíquico. Um caso bastante evidente é o da homossexualidade que foi primeiro estudado por Freud no aspecto de inversão de objeto e mais adiante essa tese foi abandonada por ele, em prol de sua tese sobre a bissexualidade constitucional. E, muito embora tenha feito isso ainda durante o desenvolvimento de sua obra, ainda hoje persistem leituras muito equivocadas, que se respaldam em uma concepção de Édipo que foi banida, já por Freud, da teoria psicanalítica. Hoje a escolha homoafetiva não poderá mais ser encarada como perversão, sequer como patologia, segundo inclusive orientações da Organização Mundial da Saúde(OMS).

“A palavra perversão deriva do verbo latino pervertere e significa tornar-se perverso, corromper, desmoralizar, depravar. Seu emprego não é privilégio da psicanálise. Tem origem datada em 1444 quando utilizado no sentido de retornar ou reverter, ganhando cedo a acepção de “deplorável”, algo desprezível. No século XIX, a sexologia fez o emprego desse vocábulo como desvio sexual. A psiquiatria francesa sacramentou seu uso enquanto sinônimo de anomalia ou aberrações, prevalecendo a partir do século XX como ilustrativo de certos comportamentos sexuais”. (A)

Freud tratará o tema como algo que não mais se atém à sexualidade em seus objetivos e busca de objeto para realização da descarga. A partir dele esse conceito irá se ampliar, e depois também muito, através dos postulados de Jacques Lacan que confere ao termo uma abrangência já vislumbrada em Freud, mas que não estaria colocada da forma como será vista a partir de seus estudos. Encontraremos em Freud:

“... os fatos nos mostram quanto de cada fase anterior persiste junto a configurações subseqüentes e depois delas, e obtém uma representação permanente na economia libidinal e no caráter da pessoa” (Freud, 1933 – Conf.XXXII, p.125).

Essa passagem já deixa a brecha para aquilo que se configurará para Lacan enquanto o uso do termo perversão, algo que abrange o modo de funcionamento total do sujeito, considerando aí os traços de caráter e a maneira como estabelece seus vínculos.Fairbain também colocará a ênfase nas relações de objeto, em uma leitura de toda subjetividade perversa.
Laplanche e Pontalis em seu “Vocabulário da Psicanálise” conceituarão:

“Diz-se que existe perversão quando o orgasmo é obtido com outros objetos sexuais(pedofilia, bestialidade etc), ou por outras zonas corporais(coito anal, por exemplo) e quando o orgasmo é subordinado de forma imperiosa a certas condições extrínsecas(feitichismo, escoptofilia e exibicionismo, sado-masoquismo); estas podem proporcionar, por si sós, o prazer sexual.

De forma mais englobante, designa-se por perversão o conjunto do comportamento psicossexual que acompanha tais atipias na obtenção do prazer sexual”

“Em Freud encontramos a palavra perversão pela primeira vez em 1905, em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, nos quais o sentido apresentado é de aberração, inversão sexual. Aparece novamente em:

- 1917 “Conferência XXI: O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais”;

- 1919 “Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais”

- 1923 “A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade”;

- 1924 “A dissolução do Complexo de Édipo”;

- 1927 “Fetichismo” no qual a recusa (Verleugnung) frente à castração se materializa.

- 1940 “A divisão do ego no processo de defesa” (A)

Poderemos falar que a perversão nega e atua enquanto a neurose recalca, ou ainda como está posto, que ela renega. Freud a partir do referencial edipiano, colocará a perversão como decorrente de uma forma específica de lidar com a castração, diferente da repressão, que é a denegação ou recusa (Verleugnung) (Telles, S.).

“Laplanche tem se referido à presença do outro em cada sujeito desde as origens da psique, aspecto desenvolvido na sua teoria da sedução originária. Nesta linha de pensamento Freud já tinha assinalado a presença do Superego dos pais na construção do Superego de cada sujeito”. (B)

No estudo das perversões veremos que esse superego se mantém de maneira flácida, corrigindo sempre a leitura do real por suas próprias definições, essas também sempre instáveis e negando no vínculo os aspectos que envolvem o Outro em sua dinâmica. O objeto é tomado nessa dinâmica perversa como descaracterizado de qualquer característica, vontade ou existência de um desejo ou subjetividade. É como se o perverso olhasse sempre para um espelho, percebe uma presença e empresta a ela todas as suas características e peculiaridades, serve apenas a um fim, sua gratificação, e dentro dessa estará sempre inclusa a questão do controle sobre o objeto. Talvez em todas as variações que possamos pensar em termos de perversões, veremos na verdade um jogo de poder, de submetimento desse objeto como uma busca, mesmo que apresente formas diferentes de operar essa dinâmica. O objeto será buscado com o fim de consumí-lo, extingui-lo e iniciar nova busca dentro de sua noção de gratificação ininterrupta. O perverso ataca como forma de amor, em verdade atacará suas partes cindidas onde precisa do acting para saber de si. Sabemos que ao falar de perversão não poderemos supor uma alteridade.

“É perverso todo ato que fere a ética do outro, aniquilando-o”. (C)
Muito embora se proponha sempre uma diferenciação entre os termos perversidade e perversão, sabemos que em toda atuação perversa encontraremos um componente de perversidade, pela própria meta destrutiva que caracteriza o gozo perverso.
"O exercício do poder pressupõe uma onipotência absoluta de quem a realiza e de quem a ele se submete e nele acredita" .(Birman)

No desenvolvimento esse sujeito ficaria preso a interrogação de ser ou não ser o falo e dessa forma construirá uma estratégia para evitar a castração, isso caracterizaria o manejo perverso. Para muitos sujeitos perversos isso incluirá uma impossibilidade de realização do ato genital da sexualidade, como foi colocado aqui anteriormente, tanto em seu objetivo quanto em seu objeto. Verleugnung, recusa é o mecanismo que sustentará a estrutura perversa, não pode reconhecer a castração e, se não é capaz de reconhecer a diferença anatômica entre os sexos, não será possível essa inscrição.

Vemos portanto como em Freud o conceito de perversão está inscrito no objetivo e objeto. “Uma grande mudança deste conceito foi feita por Fairbairn, que afirmou que a libido (ou seja, a pulsão) está à procura não apenas de “satisfazer sua meta” e sim está à “procura de um objeto”, e as zonas erógenas não são meras determinantes das metas libidinais e sim canais mediadores de procura do objeto”(Telles, S. [link D]).

Toda essa temática estaria centrada na dinâmica familiar e na relação com a mãe dentro da leitura da passagem pela conflitiva edipiana.

“...uma análise suficientemente profunda da situação edípica revela invariavelmente que essa se erige ao redor das figuras de uma mãe interna excitante e de uma mãe interna rejeitante(pág. 97)”(...) “Portanto, podemos enfocar uma etiologia das perversões concebida em termos de uma psicologia de relações de objeto”(pág. 96)(...) “O que é necessário reconhecer antes de tudo é, segundo creio, que as tendências sexuais perversas não são só excrecências desafortunadas que de certa forma misteriosa chegam a aderir a uma personalidade que em outros aspectos é normal, e sim elementos integrantes da própria estrutura da personalidade.(pág 230)(Fairbairn)

Fica como crítica a obra acima citada a inclusão da homossexualidade no estudo, que como dissemos antes, hoje não é mais catalogada como perversão ou patologia, mas pensamos que a questão das relações totais para as quais o autor aponta, são importantes no estudo e entendimento das estruturas perversas.

Leremos hoje a perversão bem mais a partir dessa concepção de objeto onde o outro é tratado narcisicamente e portanto ignorado em sua subjetividade e inclui nesse manejo perverso o intenso desejo de ferir seu objeto.
Para quem sofre a ação perversa, fica a sensação:

"... a angústia por mais evanescente que seja aparece cada vez que o sujeito, por mais insensivelmente que isso ocorra, está desligado de sua existência, e onde, por pouco que seja, ele se percebe como estando a ponto de ser retomado em algo, que vocês poderão chamar, segundo as ocasiões, imagem do outro, tentação, em suma, esse momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está e um tempo em que ele vai ver algo no qual não poderá jamais se reconhecer. É isso a angústia”. (Lacan em 1956-57, no Seminário 4, A Relação de Objeto)

Hoje pensa-se a respeito do manejo perverso que: “É preciso enfatizar que o perverso está submetido a uma lei especial, que o obriga a gozar permanentemente”(D). E esse gozo pressupõe um uso público, precisa ser reconhecido pelo outro, como forma de reafirmar a inexistência da castração. Ser impedido de atuar é algo com que o perverso não pode lidar, utilizando todos os meios para evitar tal impedimento.

Pensaríamos então que o que está marcado para o manejo perverso é bem mais do que a sua sexualidade e sim sua subjetividade, marcando assim toda sua relação com seu meio circundante.

“ Entender a perversão como uma patologia das relações objetais não é muito diferente de entendê-la como decorrente do mecanismo da recusa, pois este leva a dificuldades de ver o objeto de forma não narcísica”(D).

Alguns autores defenderão que a perversão estaria muito próxima à psicose e seria uma maneira de evitá-la, essa proximidade estaria posta pela marcante relação narcisista com o objeto(Telles, S.)

Na atualidade, frente a toda demanda criada pela lógica do consumo, nos parece que falar de perversão seja algo bastante pontual. Relações onde o outro não conta, onde a lógica do consumo extrapola toda questão ética que deveria trazer atrelada a si. Ficam as relações marcadas pelo uso narcisista e a necessidade de controle sobre o objeto. Há uma lógica institucional presente e fortemente marcada, ameaçadora em nossa estrutura social, ela se apresenta desde seu uso na macro-política e se fará presente também na lógica molecular das relações contemporâneas.

Muitos acreditam não poder a psicanálise tratar do perverso em análise, embora outros tantos acreditem nesse possibilidade, lidando todo tempo com o temor exarcebado que eles trariam quanto a enlouquecer pela vivência na relação analítica e o entendimento da sua realidade interna e externa.

Mecanismos perversos permeiam hoje muito do institucional, apresentam-se como traços de muitos fenômenos do cotidiano, pela operação da denegação(Mannoni).
A perversão hoje é discutida em variados aspectos, inclusive em sua capacidade nos borderlines chamados de pesados (Nahman).

“O borderline ferido em seu narcisismo sente-se impotente e dissocia sua onipotência. Esta, porém, vai reaparecer logo adiante, sendo então este o momento em que a impotência é colocada numa gaveta, não influindo no impulso de onipotência.”(Nahman – link E)

Está presente em todas as abordagens sobre o discurso contemporâneo, assunto mais do que atual portanto. Como ela marca e como se apresentará nas relações dentro da atualidade é algo que devemos, com certeza, concentrar um pouco nossos estudos psicanalíticos. Essa onipotência perversa atuada de dentro do institucional, daquilo que marca e molda as relações presentes na cultura da chamada pós-modernidade. Entender isso talvez seja começar a “desenlaçar” os pesados mecanismos de adoecimento que marcam o sujeito em sua busca de vínculos com o mundo externo hoje.

O que haverá de perverso nessa tendência a não deixar a angústia surgir frente aos conflitos existenciais ou a tendência da psicofarmacologia em abolir a depressão do contexto humano? Será que essas leituras se atravessariam em algum momento? Fica a questão para pensarmos. Muitos teóricos já o fazem há algum tempo.


Bibliografia indicada para estudo:

ANDRÉ, Serge. A impostura perversa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. 312 p.

BIRMAN, Joel. A racionalidade do tempo nos impasses do sujeito, p. 11-26. In O tempo do gozo e a gozação, de HELSINGER, Luis Alberto, 1996, p. 19.

BLEICHMAR, Hugo. Introdução ao estudo das perversões – Teoria do Édipo em Freud e Lacan. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988

FREUD, S. Conferência XXI: O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais (1917). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XVI.

________. Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões
sexuais (1919). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XVII.

________. A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade (1923). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XIX.

________. A dissolução do complexo de Édipo (1924). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XIX.

________. A divisão do ego no processo de defesa (1940). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v.XXIII.

________. Conferência XXXII – Ansiedade e vida pulsional (1933). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v.XXII, p.125.

________. Fetichismo. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XXI.

KUSNETZOFF, Juan Carlos. Introdução a psicopatología psicanalítica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982

FAIRBAIRN, W. Ronald D. - Estudos Psicanalíticos da Personalidade

Links:
A -
http://www.cbp.org.br/artigo17.htm


B - http://www.estadosgerais.org/historia ... closao_dos_vinculos.shtml


C - http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.p ... 009&lng=pt&nrm=is


D - http://www.polbr.med.br/arquivo/psi0703.htm


E - http://www.saude.inf.br/nahman/border ... rch=%22Nahman%20Armony%22


Fonte:Denise Deschamps [denisedeschamps]

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